9 de julho de 2014 | Edição #4 | Texto: | Ilustração:
Cidade nova, vida nova (ou não?)
Ilustração: Bia Quadros & Mariana Trigo.

Ilustração: Bia Quadros & Mariana Trigo.

Você chega em casa, sua mãe não lhe olha no olho, e seu pai suspira, dizendo, “Temos que conversar”. Você já imagina o pior: descobriram sua nota baixa na prova de matemática, sabem que você chegou atrasada na aula há quatro meses porque perdeu o ônibus, seu irmão contou que foi você quem comeu o pedaço de torta que era da sua avó. Mas quando os dois sentam na sua frente no sofá, seus rostos não mostram bronca: mostram hesitação, medo. O pai segura a mão da mãe, os dois se olham, e você senta à frente deles na poltrona, franzindo o cenho, olhando de um pro outro como se estivesse assistindo a uma partida de ping pong. Depois de um tempo, sua mãe descruza as pernas e as cruza pro outro lado. “Eu fui promovida,” ela diz, mas não existe a euforia que você foi treinada a saber que vem em par com notícias assim. Você a assiste, espera a parte ruim, a parte que desestabiliza. “Mas nós vamos ter de nos mudar.”

De cidade, de estado, de país. Para você, não há muito a fazer além de tentar lidar com a notícia. E você lida com a notícia do seu jeito — chora, esperneia, tenta negociar, sai batendo portas, grita, entra em pânico e depois acalma. E, depois de lidar com a notícia, tem que saber como lidar com a situação.

Fernanda Barbosa (20 anos) tem experiência com mudanças — já foram sete, começando quando ela tinha oito anos. “O mais difícil foi quando me mudei de São José do Rio Preto. Fiz amigos muito legais lá, naquela época da adolescência que vamos às festas de 15 toda semana e sempre saíamos juntos”, mas, apesar disso, “[…] depois de tantas mudanças a gente acaba se tornando ‘cara de pau’. Aprendi a fazer amizades rápido. Às vezes tudo que você tem que fazer para iniciar uma conversa é sorrir (risos)”.

De acordo com as meninas, a fase de adaptação pode variar de algumas semanas a cinco meses. Os conselhos são sempre os mesmos: dê uma chance à nova cidade! Tauana Brito (15 anos), que tem pai militar, já se mudou quatro vezes. Ela aconselha: “Tem que tentar não ser tímido; se comunicar bastante e não se fechar”.

“Fiz vários amigos, me apeguei bastante”, diz F. Andrade (22 anos), sobre uma das cinco mudanças que já fez, quando foi para Porto Alegre. F. Andrade conta que teve dificuldade em relação à mudança só quando os pais prometeram voltar para uma cidade à qual tinha se apegado e não aconteceu. “Os pais precisam ser sinceros com os filhos para não criar expectativas que não vão acontecer.” Ela também destaca a importância do diálogo e da compreensão mútua: “[É importante que os pais tentem] compreender a situação da criança/adolescente. É algo difícil e, se é a primeira vez que está acontecendo, tende a ser mais ainda. E os filhos precisam entender que os pais nem sempre podem escolher, que esse tipo de mudança costuma ser pra conseguir empregos melhores (e, consequentemente, tentar melhorar a situação da família), e como todos os lados podem se beneficiar disso.”

Dora Leroy (19 anos) foi para Miami com 9, por causa do trabalho do pai. Ela chama a atenção para todos os aspectos positivos de estar em uma cidade nova: “Acho que fiquei curiosa para ver como era. Eu tenho um diário, que comecei na época que ia me mudar, e nele escrevi um montão de coisas para me encorajar a ir para os Estados Unidos. Um dos itens era que lá eu ia ter mais chances de ganhar um Digimon.” Quem sabe, né?

Mas, mesmo sem Digimon, ainda pode ser divertido. É uma chance de conhecer gente nova, talvez culturas novas, e começar tudo de novo sem precisar necessariamente deixar para trás o que já foi criado. Com WhatsApp, Facebook, Skype, Snapchat, e-mail, etc., só se perde o contato por opção.

E aí? Pronta pra dar uma chance pra cidade nova?

Gabriela Martins
  • Colaboradora de Cinema & TV

Apaixonada por seriados, escrever e dar aula. Estudante de letras, professora de inglês, escritora amadora enquanto um agente literário não se apaixona e diz que ela é tudo que sempre sonhou. Acredita veementemente na capacidade de cada um de salvar o mundo, e tem uma metáfora capa de super-heroína que veste mentalmente em situações difíceis.

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