19 de novembro de 2014 | Tech & Games | Texto: | Ilustração:
Ciência, racismo, e o que uma coisa tem a ver com a outra.
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Uma das primeiras coisas que aprendi na faculdade foi que a ciência não é neutra. Fazer ciência gera impactos reais na vida de gente real, não é só algo que fica lá dentro de um laboratório e nunca serve de ferramenta para mudar (ou perpetuar) a forma como vivemos. Acontece que, historicamente, a ciência foi muito mais usada para perpetuar opressões do que para ajudar a destruí-las. E esse discurso cientifico, que difunde a ideia de que grupo x é superior a grupo y, não é algo banal, mas algo que serve de “respaldo” para que sistemas de opressão cruéis se mantenham e para que atrocidades contra estes grupos supostamente inferiores aconteçam.

Isso acontece até hoje, por exemplo, quando cientistas dizem que pessoas trans* são portadoras de alguma doença. Acontece que essas pessoas não são doentes e o nome dessa ação é patologização (que é quando se tenta explicar alguma coisa, neste caso, a identidade de gênero de alguém, dizendo que é uma doença/transtorno, quando não é). Colocar essas pessoas como doentes é util para quem quer mantê-las à margem da sociedade, sem conseguir empregos, tendo suas identidades e seus direitos reprodutivos negados, entre outros mil absurdos.

Mas essa matéria é sobre outra tentativa de legitimar opressões para um grupo com respaldo científico. Essa matéria é sobre como os negros foram entendidos pela ciência por muito tempo e, principalmente, para que a gente reflita sobre como isso impacta nossas atitudes racistas até hoje.

Lá no século XVIII, um francês chamado Buffon (que era naturalista, meio que os “cientistas” daquela época) afirmou que, se as pessoas brancas e as negras não fossem capazes de terem relações sexuais entre si, haveria duas espécies distintas, e o negro estaria para o branco como o asno para o cavalo. Ele também dizia que o negro não seria humano, mas um animal à parte, como o macaco.

Apesar de isso ser um absurdo de arder os olhos só de ler, essa ideia foi muito difundida na Europa. Nos séculos XIX e XX, em muitos países europeus, americanos, e inclusive no Brasil, aconteceram eventos em que pessoas de comunidades nativas ficavam, literalmente, em exposição para “estudo”. Alguns ficavam até dentro de gaiolas, como se estivessem em um zoológico e como se houvesse alguma diferença brutal entre o funcionamento do corpo de pessoas de cores diferentes, a um nível em que negros fossem categorizados quase como uma outra espécie. Aliás, os organizadores de um destes eventos, ao apresentarem um grupo de indígenas, se referiram a eles como “representantes brutalizados e semibestiais da humanidade nos seus primórdios evolutivos, mais próximos aos primatas do que às supostas ‘raças superiores’ sob muitos aspectos”. (Pausa para Darwin se revirar no túmulo). E os absurdos não param por aí.

Outro cara, chamado Samuel George Morton, também no século XIX, tentou provar que o crânio das pessoas brancas é mais desenvolvido que o crânio das pessoas negras. Segundo ele, o crânio caucasiano seria “mais desenvolvido” que o crânio das populações nativas americanas e das pessoas de origem africana. No filme Django Livre há uma cena em que o Leonardo DiCaprio extrai um pedaço do crânio de um negro e confere a inteligência do indivíduo a este pedaço.

O pior, para mim, é que mesmo com todo o avanço da ciência e da tecnologia no século XIX e XX, esta teoria só foi oficialmente derrubada por outro cientista em 1981. Lembra que eu falei que a ciência é um instrumento que pode legitimar ou deslegitimar uma opressão? Pois é.

Mas, mesmo que cientistas pelo mundo todo tenham acreditado nessas baboseiras, eu não estou dizendo que a ciência criou o racismo.Os seres humanos já acreditavam na existência de raças superiores desde muito antes do método científico existir. O que eu estou dizendo é que a ciência tem papel fundamental na legitimação do racismo. Por exemplo, ainda no século XIX, o racismo científico (esse tipo de ciência de que venho falando aqui no texto, que “prova” que os negros são inferiores aos não-negros) fez um infeliz casamento com uma das escolas da criminologia (estudo dos crimes) e o resultado disso foi a criação de ideia de que não devíamos estudar os crime em si (ou seja, as condições econômicas e sociais que contribuem para que a criminalidade aumente, como isso ocorre na sociedade e, a partir daí, pensar em formas de diminuição da violência), mas o biótipo do criminoso (o corpo, rosto, o “feitio” da pessoa). Portanto, o criminólogo fazia sua investigação somente atrás do criminoso e julgava quem ele era apenas por suas características físicas. E essas características, como você poderia imaginar, não eram as características das pessoas brancas.Esse tipo de ciência, portanto, abriu margem para que muitas pessoas não brancas inocentes fossem presas e mortas, simplesmente pelo fato de eles “parecerem” um criminoso. Como se ser criminoso ou não fosse algo determinado por algo como a cor de alguém.

Além disso, essa nova teoria criminológica (que era baseada nas descobertas de um cientista chamado Lombroso) tinham como objetivo o “aperfeiçoamento da raça”, que é o que chamamos de eugenia, e dizia que isso iria livrar o mundo dos delinquentes. Explico: esses caras acreditavam em uma raça superior (a branca, no caso), e achavam que o mundo deveria ser ocupado só por estas pessoas, porque as não brancas eram “sujas”, naturalmente aptas para o crime, inferiores, menos inteligentes etc. Os países começaram a desenvolver suas políticas eugênicas para um suposto melhoramento físico e psíquico da raça e para que houvesse, assim, o extermínio dos criminosos. Essas políticas geraram medidas absurdas, como a proibição de casamentos entre brancos e negros nos Estados Unidos e na América do Sul. Na Austrália, os filhos de aborígenes com brancos ficavam sob tutela do Estado, para garantir que mestiços casassem apenas com pessoas brancas, o que geraria o embranquecimento gradativo da raça.

A eugenia, como você deve ter se lembrado lendo esse texto, foi o mesmo pretexto que fez com que milhares de judeus, negros, ciganos e pessoas com deficiência fossem mortos durante o nazismo, por serem considerados indivíduos de raças inferiores e uma ameaça à sociedade alemã.

Agora, nem você nem eu aprendemos isso na escola. Até quem faz biologia na faculdade, provavelmente, nunca ouviu falar sobre isso na sala de aula. Também não nos falam da responsabilidade que é fazer ciência. Os cientistas são vistos hoje praticamente como os donos do mundo e os detentores de toda a razão (apareceu cara de jaleco na TV falando que pasta de dente x é boa? Puxa, essa daí deve ser boa mesmo!)e nós sabemos que isso nem é verdade. Vocês já viram algumas das besteiras que eles já falaram nessa matéria e elas já falaram muitas outras além destas, acreditem ou não. Não só sobre os negros, mas sobre as pessoas trans*, sobre as mulheres, sobre as pessoas com deficiência e mais um monte de gente que faz parte de grupos marginalizados. Fazer ciência é uma responsabilidade tremenda e quem não conhece o passado da ciência pode vir a produzir uma ciência tão preconceituosa quanto essa no futuro. E para fazer uma ciência responsável e que não legitime discursos opressores, a gente não pode ter memória curta e esquecer de tudo o que já foi causado em nome dela.

Natália Lobo
  • Coordenadora de Ciência
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Natália tem 20 anos, casa em dois lugares (ou em lugar nenhum, depende do ponto de vista), gosta de fazer e de falar sobre comida, é feminista desde que se entende por gente.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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