18 de abril de 2016 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Isadora Carangi
Porque ciência deveria ser para todo mundo

Um cientista passa uma eternidade trabalhando em uma mesma pesquisa: busca a literatura existente, colhe amostras, analisa dados, registra resultados e no final tira uma conclusão.

Mas e aí? Como ele faz para contar para o resto da comunidade científica sobre a sua descoberta?

No início do século XVII, o compartilhamento de conhecimento se dava ou por correspondência entre alguns cientistas, ou através da publicação de livros. Ou seja, não havia uma divulgação eficiente e de grande alcance. Enviando cartas, atingiam apenas alguns poucos pesquisadores conhecidos. E a publicação de livros acabava excluindo trabalhos menores, que não haviam acumulado muitos resultados ainda. Além disso, até hoje o processo de elaboração de livros é lento, de forma que muitas vezes o conteúdo já está ultrapassado na ocasião da publicação.

Em meados do século XVII, um grupo de cientistas se reuniu na Inglaterra, criando o que hoje conhecemos como a Royal Society e adotando um método inovador de compartilhamento de ideias: uma publicação periódica. E assim surgiram as primeiras revistas científicas.

Esse método é usado até hoje. Quando o cientista termina de escrever seu artigo – no qual devem constar a introdução ao tema, os materiais e métodos utilizados, os resultados obtidos, a discussão e a conclusão – ele o submete para análise de uma revista especializada. Nesse processo, outros cientistas vão avaliar se o autor conduziu a pesquisa de forma adequada, se o tema é relevante, se as referências bibliográficas são atuais, etc. Se aprovado, o artigo será publicado.

Então quando um artigo é publicado todo mundo pode finalmente ter acesso a ele? Bem, nem sempre.

Alguns artigos são publicados com “acesso aberto”, porém para isso o autor (ou a instituição a que ele pertence) tem que pagar valores que podem chegar a U$5.000,00 (o equivalente a quase R$20.000,00) no caso das revistas mais renomadas. Caso não paguem, o artigo fica restrito a assinantes do periódico.

Então para ter acesso à maior parte do conhecimento científico produzido no mundo você precisa ou ser muito rico para poder pagar as assinaturas das principais revistas (ou o preço individual por artigo que em geral fica em torno de uns U$30,00) ou estudar numa universidade com muitos recursos que tenha essas assinaturas e ofereça acesso a seus alunos. Não preciso dizer que a maioria dos acadêmicos e pesquisadores não se encaixa em nenhuma das duas opções, não é?

Algumas pessoas já se revoltaram contra essa estrutura capitalista excludente que prejudica a propagação do conhecimento. Nos últimos anos tivemos casos famosos como o de Aaron Swartz, o programador americano que em 2010 usou a rede do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (o conhecido MIT) para baixar milhões de artigos da base JSTOR sem pagar. Swartz foi indiciado pelo governo americano por roubo de dados e invasão de computadores, mas se suicidou em 2013 antes de ir a julgamento. Em junho de 2013 ele foi aceito postumamente no Internet Hall of Fame.

Atualmente temos Alexandra Elbakyan, a neurocientista cazaque que fundou o Sci-Hub, ou o “Pirate Bay” da ciência. Trata-se de um portal que oferece acesso grátis e fácil à maioria das publicações, especialmente as mais famosas. A mensagem na página principal do site já diz “Sci-Hub… para remover todas as barreiras no caminho da ciência.”

Elbakyan é vista por alguns como uma Robin Hood acadêmica e por outros como uma ladra sem escrúpulos. Obviamente ela já é alvo de um processo nos Estados Unidos movido por uma das maiores editoras de literatura médica e científica do mundo. Entretanto, ela não mora nos EUA e demonstra pouca preocupação com as leis americanas. Quando uma ordem judicial bloqueou o domínio .org original do site, Elbakyan simplesmente trocou por um outro. E desse jeito o site continua no ar, para alívio de pesquisadores e estudantes do mundo todo.

Existem também iniciativas menores, como a hashtag #ICanHazPDF no twitter. Através dela você pode solicitar um artigo a que não tenha acesso e outra pessoa que por acaso consiga baixa-lo envia o arquivo para você. E também sempre há a prática antiga de enviar e-mails para os próprios autores pedindo os artigos em PDF, ao que muitos costumam responder prontamente de forma positiva.

É claro que se pode argumentar que cobrar por artigos ou por assinaturas de revistas não é nada absurdo, visto que todo esse processo de publicação têm um custo. Mas a margem de lucro abusiva que as editoras têm resulta em preços inviáveis para a maior parte da comunidade científica, tornando o acesso ao conhecimento limitado a um pequeno grupo que pode pagar por ele.

Uma ideia não serve de nada se ficar guardada numa gaveta dentro de um laboratório. O compartilhamento é o que move a ciência e dá a ela o seu caráter pulsante e inovador. Quanto mais democrática for a divulgação do conhecimento, mais completa é a construção do saber. Por isso, quando transformamos artigos científicos em produtos a serem vendidos para dar lucro, quem perde é a própria ciência.

 

 

Mariana Fonseca
  • Coordenadora de Saúde
  • Colaboradora de Literatura e do Leitura das Minas

Mariana tem 25 e se formou em medicina. Carioca, ama viver no Rio de Janeiro, mas sonha em voltar para a Escócia. É feminista deboísta e acredita que todo mundo merece chá.

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