20 de abril de 2015 | Cinema & TV, Música | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Cinema e Sal

Três mulheres baianas, Lara Belov, Jamille Fortunato e Cecília Amado, entre suas vivências e a paixão em comum pelo cinema, tiveram a ideia de levar o audiovisual para as comunidades de pescadores da Bahia. O projeto se chama Cinema e Sal e a ideia é juntar cinema e educação: as crianças aprendem a contar as suas próprias histórias em filmes produzidos por elas mesmas.

O projeto, inicialmente, abraça a região do arquipélago de Cairu, nas comunidades de Monte Alegre, Cairu e Garapuá.

As crianças, com idade entre 10 e 14 anos, participam de oficinas para produção de curtas, oficinas de formação de público, com exibição de filmes e participação de debates e a criação de um portal que hospedará os curtas feitos pelas crianças e outros materiais sugeridos por usuários.

Depois de ver um post sobre o Cinema e Sal circulando no meu feed, resolvi ir atrás das moças pra descobrir um pouco mais do projeto. Conversei com a Lara Belov.

(fonte: Facebook)

Capitolina: Como surgiu a ideia do Cinema e Sal? E por que “Cinema e Sal”?

Lara: Nasci perto do mar e velejei desde pequena pelas ilhas da Bahia. Por muito tempo isso foi minha grande paixão, mas aí conheci o cinema. E quando comecei a trabalhar com audiovisual, entre um set de filmagem e uma saída de barco, uma frase vibrava em minha cabeça: “o cinema é salgado.” Então eu me perguntava, mas o que o cinema tem a ver com o mar?  Talvez num primeiro olhar pareçam coisas diferentes, mas no fundo sempre me pareceram próximos em sua infinidade de emoções, na capacidade de unir e surpreender e porque nos permitem viajar. O Cinema e Sal surge desse encontro e desse sentimento que sempre me acompanhou. Há 20 anos frenquentando as ilhas do arquipélago de Cairu, caminhando pelas ruas de areia, dois sons me chamavam a atenção, o do mar e o da televisão. Então veio a pergunta, se somos todos consumidores de imagens, por que não podemos ser produtores delas? Se cada um não contar sua história, alguém vai contar, e aí só Deus sabe como vai ser, a gente vira refém. Por isso oficinas de cinema para crianças e adolescentes do arquipélago, para que possam contar sua própria história através do cinema. Sendo assim armamos um cinema ao ar livre em cada uma das três ilhas que visitamos e passamos os filmes feitos nas aulas. Porque ver a própria história na tela é uma maneira de lembrar sempre que ela existe e que está viva.

Capitolina: O que mais chamou sua atenção nessas andanças e na convivência com as crianças que participam do projeto?

Lara: Que existe história em todo lugar. Em toda criança e em adulto também. Que o audiovisual é também orgânico, instintivo, é exercitar os olhos e ouvidos. É como se os filmes já existissem nessas ilhas, dentro da gente, dentro das crianças. Aí vem o cinema e as oficinas pra ajudar a identificar esses filmes e capturá-los com câmera. Acho que isso é uma luta, qual história vai ser contada e qual história vai ser esquecida? Como uma história vai ser contada? As crianças têm o direito de contar, as pessoas nativas dos arquipélagos têm o direito de contar. É a imagem como resistência, como território, e como respeito a esse espaço.

(fonte: Facebook)

Capitolina: Você acha que daí surgirão futuros cineastas?

Lara: Mais do que futuros cineastas, pessoas que possam contar histórias através do audiovisual, ou que saibam que isso é possível. Ou que mesmo sendo público, estejam conscientes de que tudo o que está no cinema, na TV ou na internet é uma escolha de alguém e que pode ser nossa escolha também. Acho que o desejo é justamente contribuir para que o audiovisual, que já é algo cotidiano de maneira passiva, seja cotidiano de maneira ativa, seja um direito do ser humano, não um privilégio ou objeto de vaidade. O projeto vai doar uma câmera GoPro e uma coleção de curtas baianos do cineclueb Mario Gusmão doado pela Dimas pra cada ilha, um pequeno estímulo pra que as crianças possam continuar filmando.

 

Capitolina: Você acha que faltam incentivos, como o projeto de vocês, pra aproximar o cinema das crianças e adolescentes? No sentido de criação e uma visão mais crítica das coisas.

Lara: Existem alguns incentivos, algumas iniciativas, mas falta muito. Enquanto isso não for algo cotidiano e encarado como um direito de todos, vai continuar faltando. É preciso trabalhar a acessibilidade audiovisual e uma visão crítica. Um mundo audiovisual, assim como qualquer outro setor, traz a exclusão audiovisual, está tudo no mesmo pacote.

Capitolina: Você se vê nessas crianças que, pela primeira vez, estão entrando em contato com o fazer cinema?

Lara: Me lembro de quando eu era criança e tinha ganhado minha primeira câmera fotográfica, estava justamente no arquipélago de Cairu onde estamos realizando o Cinema e Sal. Tinha uns 12 anos e me preparava pra tirar uma foto do mar. Olhei a linha do horizonte, o céu e o chão. Foi quando eu deitei na areia pra tirar essa foto, entendi que a imagem podia ser vista de outra maneira, de outro ponto de vista. Talvez o Cinema e Sal tenha nascido aí. Me vejo ontem e hoje nessas crianças, acho também que elas me ajudam a ver e a me ver. Quem ensina a quem e o que nesse jogo?

(fonte: Facebook)

Capitolina: O projeto vai ser estendido para outras temporadas e em outras regiões do Brasil?

Lara: O Cinema e Sal quer continuar navegando. Essa é a primeira edição doprojeto e a semente de uma rede audiovisual marítima.  A vontade e o objetivo é continuar correndo as águas da Bahia e do Brasil. Vamos em busca de outros patrocínios e apoios pra continuar. Em breve o site do Cinema e Sal vai entrar no ar com os conteúdos produzidos no arquipélago e a ideia é que essa rede audiovisual seja dinâmica e que as pessoas possam continuar contando sobre a cultura e as histórias dos mares e manguezais. Queremos seguir, afinal o mar não pode ficar parado e nem o cinema.

Para acompanhar: www.facebook.com/cinemaesal/

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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