20 de outubro de 2014 | Cinema & TV | Texto: | Ilustração:
Cinema queer
Ilustração: Jordana Andrade.

Ilustração: Jordana Andrade.

Por muito tempo gays, lésbicas, transgêneros foram jogados de lado nas produções cinematográficas – não só como personagens, mas como produtores. Ao longo da sua história, o cinema reforçou a definição do heterossexual, homem, mulher, masculino e feminino. Foi a partir dos anos 1960, quando estouraram os movimentos sociais, que essas minorias começaram a ganhar maior representatividade e a criar suas próprias produções.
O cinema queer nasceu com o intuito de produzir obras contrárias à heteronormatividade sempre presente na maioria dos filmes lançados. Hoje em dia, conseguimos encontrar filmes que mostram outras realidades em relação a diferentes formas de corpos, afetos, vidas – e, para chegarmos até aqui, houve um longo caminho vivido por cineastas que encontraram muitas dificuldades para levar em frente as suas produções.

Há quem diga que a representação homossexual no cinema só surgiu nos anos 1990. Outros dizem que foi mesmo na década de 1960. Mas existem estudiosos que afirmam que em 1898, lá no início de tudo, Thomas Edison, já sugeria (de leve) a temática no seu filme The Gay Brothers. 

Nos anos 1930, a homossexualidade começou a dar as caras em Hollywood, com Lot in Sodom, dirigido por Sibley Watson, baseado na história bíblica de Sodoma e Gomorra. O filme é considerado o primeiro filme gay norte-americano, mas como toda minoria é censurada, as igrejas conseguiram impor aos produtores e diretores o Código Hays, uma espécie de cartilha conservadora que zelava pela moral e bons costumes no cinema hollywoodiano. A partir daí, homossexuais e suas relações começaram a ser retratados de forma velada nos EUA, de maneira que a heterossexualidade fosse adotada como um padrão, enquanto a homossexualidade seria uma questão problemática, reforçando estereótipos e marcando gays, lésbicas e travestis no campo do deboche, do medo, da comédia. Da mesma forma acontecia no cinema europeu, mesmo que com mais ousadia, personagens que assumiam a vontade de se relacionar com pessoas do mesmo sexo estavam condenados.

Na década de 1960, começaram a surgir os filmes voltados para o público homossexual. Ainda que limitados ao circuito alternativo, foi percebida a necessidade de retratar essas questões como centro, visto que havia sim um público interessado nessas histórias. A partir dessa época, apareceram na roda nomes como Andy Warhol, Rainer Fassbinder, John Waters, Jim Sharman (diretor do musical Rocky Horror Picture Show).

Até os anos 1980, a única verdade disseminada nesses filmes que retratavam a vida homossexual é que não existia a possibilidade de ser gay e feliz ao mesmo tempo – até porque o mundo vivia a epidemia da AIDS, doença que por muito tempo ficou conhecida como um mal da homossexualidade (e que até hoje carrega essa carga). Em contrapartida, áreas de estudo gays/lésbicos e feministas começaram a ganhar visibilidade, e daí surge a teoria queer, fortemente influenciada por movimentos sociais da década de 1960 e 1970, abordando outras visões que não foram contempladas nos movimentos em questão até então; por exemplo, a inclusão no movimento feminista, que por muito tempo, teve como núcleo mulheres brancas, heterossexuais e ocidentais. A teoria queer surge para incluir sujeitos e questões marginalizadas nos movimentos de contracultura das décadas anteriores.

Nos anos 1990, surge uma nova leva de filmes que rompiam com a narrativa hollywoodiana. Filmes dirigidos por homens gays, com personagens homossexuais que se rebelavam contra os padrões impostos pela sociedade. Uma estética afetada, exagerada e debochada, elementos presentes na construção dos personagens e do filme, como um todo. O New Cinema Queer ganha forma com filmes como Paris is Burning, premiado no festival de Sundance e que abriu portas para novos diretores que não se enquadravam e que apareciam com novas formas de se fazer filme, formas desafiadoras.

Hoje vivemos um novo tipo de cinema, temos um progresso em relação a produções LGBT, os elementos que caracterizavam um filme como queer podem ser encontrados em detalhes até nas produções mais mainstreams, populares, já que esses elementos não se prendem somente à sexualidade: é uma compreensão sobre corpos, gêneros, que propõe uma visão mais brilhante e colorida sobre a vida.

 

Sugestões de filmes:

– Velvet Goldmine – Todd Haynes (1998)
– Tudo Sobre Minha Mãe – Pedro Almodóvar (1999)
– Rocky Horror Picture Show – Jim Sharman (1975)
– Meninos Não Choram – Kimberly Peirce (1999)
– Madame Satã – Karim Aïnouz (2002)
– Café da Manhã em Plutão – Neil Jordan (2005)

Ana Gabriela
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Audiovisual

Ana nasceu na Bahia em 1992. Ainda não descobriu o que vai ser quando crescer, mas aprendeu que isso não é motivo pra preocupação. Quanto mais tempo se descobrindo melhor. Gosta de ler a internet, escrever listas sobre tudo, de gatinhos e da sua cama.

  • Eugenia

    Adorei o texto 🙂 e eu acrescentaria mais um filme nessa lista, o Laurence Anyways, sobre transgeneridade

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