27 de janeiro de 2015 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Coletivos feministas estudantis: a importância da auto-organização

Está cada vez mais comum vermos surgir coletivos feministas, tanto aqueles no espaço virtual (como grupos e páginas no Facebook), quanto aqueles no espaço das Universidades e até nas escolas. Hoje, vamos falar da importância da existência desses coletivos feministas nos espaços estudantis, como meio de organização, ação política e acolhimento de mulheres. Teremos também uma entrevista com as meninas que fundaram o coletivo de mulheres da FGV do Rio, feita pela Dé Albu.

Com tantas pautas que nos dizem respeito no ambiente de estudo, seja de nível fundamental, médio ou superior, nada mais importante do que se organizar com outras mulheres, que enfrentam os mesmos problemas, que compartilham necessidades e que buscam tornar esses ambientes mais igualitários. Todas nós, mais cedo ou mais tarde, fomos objetos de, ou pelo menos presenciamos, assédio, discriminação, silenciamento, entre tantas outras situações a que somos sujeitas por sermos mulheres. Durante muito tempo, o espaço acadêmico não nos pertencia e até hoje é preciso disputar essa esfera hegemonicamente masculina. É nesse sentido que a organização feminista se torna tão imprescindível.

Em minha experiência pessoal na faculdade, participei ativamente do centro acadêmico, um espaço de discussão e formação política que me contemplava bastante como estudante de uma universidade pública, mas que em certa medida não podia abarcar todas as minhas necessidades como estudante e mulher. Essa insatisfação em ver nossas pautas sempre sendo secundarizadas era compartilhada por outras meninas do meu curso, até que decidimos finalmente sentar e criar um espaço de discussão feminista. Foi nessa hora que nos deparamos com um dilema primordial dos coletivos feministas: seria ele exclusivo para mulheres ou não, também aceitaria homens? Em considerável consenso, optamos por criar um espaço auto-organizado, ou seja, só para mulheres, porque, afinal de contas, espaços mistos de discussão já existem aos montes, mas o que estava faltando mesmo era um ambiente em que pudéssemos discutir pautas que só nos dizem respeito, embora vários homens se solidarizem com algumas delas. E assim, com açúcar, tempero e tudo que há de bom, foi criado o Núcleo de Mulheres de Relações Internacionais da USP (ao qual temos a vontade de apelidar de Hermione Granger rs).

Começamos com algumas discussões temáticas, sempre tentando trazer material que achássemos interessante, e meio que sem pensar muito sobre, estávamos mais distanciadas do conteúdo feminista formulado na academia. Outra discussão que perpassa o Núcleo o tempo todo é a criação de uma identidade e coesão políticas bem demarcadas ou não, o que poderia embasar uma maior atuação como grupo político. A isso ainda não temos uma resposta definitiva, mas por enquanto prezamos a pluralidade de visões e perspectivas feministas. O que não nos impede de realizar diversas atividades de formação aberta para todas e todos estudantes do curso (esse espaço sim sendo misto, ou seja, abarcando homens) sobre temas importantes, como mulheres e política, questão da prostituição, padrão de beleza e pornografia, por exemplo.

O dia a dia do coletivo não é simples, nem fácil. Mesmo sendo um espaço importante, é difícil convencer as meninas do curso a participarem, por questões de interesse e prioridades diferentes e mesmo aquelas que se dispõem a participar (eu inclusa), muitas vezes negligenciam o espaço por tê-lo como prioridade secundária. Nesse sentido, a construção de um coletivo de mulheres deve partir de um comprometimento grande com a participação, pois demanda muita discussão, às vezes bastante trabalho para organizar atividades e toma horas do nosso dia. Mas a recompensa vale o esforço. Um coletivo feminista pode servir para criar maior identificação das mulheres do ambiente de estudo com as pautas da luta, em muitos casos serve para o acolhimento e para compartilhar situações de abuso e significa sempre discussão construtiva.

Que tal mobilizar um coletivo feminista na sua escola ou faculdade? Nós da Capitolina apoiamos a auto-organização!

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

  • Hannah Oliveira

    Ola, sou da Faculdade de engenharia de Guaratinguetá, um dos campos da Unesp, e estou tentando abrir um coletivo feminista na faculdade, gostaria de receber conselhos e instruções de como fazer isso adequadamente

    • Loiselenyo Santos

      Hannah, como vai?
      Partilho da sua solicitação.
      Sou estudante da USJT-Direito e gostaria de reivindicar voz feminina dentro da instituição.
      Acredito que todos esses polos e vertentes de coletivos deveriam ter uma integração entre si, até para levar mais conteúdo e diferentes visões do feminismo.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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