20 de agosto de 2015 | Edição #17 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Colonização alimentar e meu amor peixe.
Ilustração: Beatriz H. M. Leite.

GLOBALIZAR OU COLONIZAR?

Antes de mais nada, colonização alimentar não é sobre uma plantação de batata onde existe um Capitão Batata que decide invadir a plantação de cenouras e colonizá-las. Não. Não é sobre isso! Apesar de eu achar que seria muito mais legal se fosse! Colonização alimentar é um termo utilizado para tratarmos dessa tal globalização quando ela envolve os nossos hábitos alimentares.

Pode parecer novidade falar disso agora que o mundo está cada vez mais globalizado e que as culturas se misturam, nada mais comum que adquirirmos hábitos de outros países (inclusive na hora de comer). Mas a verdade é que essa história começou há muito tempo (sim, lá na descoberta do Brasil). E isso está registrado historicamente na carta de Pero Vaz de Caminha a Pedro Álvares Cabral, onde ele diz: “Deram-lhes ali de comer: pão e peixe cozido, mel e figos passados. Não quiseram comer quase nada daquilo; se alguma coisa provavam, logo a lançavam fora.”

Mas não foram só os europeus que contribuíram para a mudança na alimentação dos índios do nosso país naquela época. Uma fruta que comemos sempre, e que talvez seja uma das maiores heranças do nosso país, veio trazida por africanos no século XVI, a banana! Que em pouco tempo tomou conta das plantações e quintais brasileiros.

Deixando um pouco as contribuições de séculos passados de lado e pensando no hoje, podemos dizer que a prática de colonizar a alimentação de outros países só cresceu com o passar do tempo e, infelizmente, talvez tenha crescido de uma maneira bem ruim.
Digo isso porque, com o passar e a aceleração do tempo, onde cada dia temos menos tempo para comer, mais tempo para trabalhar e menos tempo para pensar no que estamos fazendo, somos bombardeados com propagandas de alimentos, mudanças diárias e modismos. E tudo isso afeta nossa cultura e hábitos.

É fácil notar isso se pensarmos que os fast-foods ou drive-ins surgiram na década de 1940 na Califórnia, Estados Unidos, e com o passar dos anos e o aperfeiçoamento dos meios de produção e crescimento do país como potência mundial, esse hábito foi se expandindo até chegar ao Brasil. Como bem sabemos, hoje é extremamente comum trocar o nosso arroz com feijão no almoço por um hambúrguer com batata frita.

Podemos dizer que o poder de “colonizar” a alimentação do outro está diretamente ligado ao poder econômico de um país que, muitas vezes, consegue quebrar barreiras culturais e até mesmo religiosas instauradas e usadas como base da alimentação de um local por anos. Este é o caso da tradição alimentar no Norte e Nordeste do Brasil.

Além disso, existem outros modelos de alimentação que antes não eram comuns e vêm se popularizando nos últimos dez anos e ganhando cada vez mais força no nosso país, como o consumo de comida oriental. Sem contar o uso de temperos vindos de países do Oriente, frutas e chás que antes eram pouco comuns aqui e hoje são consumidos em grande escala. Nós comemos muitos importados, até espécies que nem imaginávamos que não vinham daqui.

O PEIXE DO VIZINHO É SEMPRE MAIS BONITO… SERÁ?

Quando pensamos um pouco mais sobre a globalização e a normalidade em consumirmos sempre uma espécie que não é natural do nosso país (sem nem mesmo sabermos – frutas que, muitas das vezes parecem “a cara do Brasil”, na verdade são de bem longe), conseguimos enxergar uma realidade que pouco beneficia as espécies do nosso amado país. Você sabia que das vinte frutas mais consumidas no Brasil, apenas três são nativas daqui? Ou você acha que aquela melancia, aquela uva ou a nossa amada tangerina nasceram todas aqui? Não, não nasceram, e isso também é uma forma de colonização alimentar (uma forma boa convenhamos, afinal quem não gosta dessas frutas?).

Divulgação das árvores frutíferas nativas ocorre desde 1946. Essa publicação nos permite refletir sobre nossas escolhas culturais e o prejuízo que isso causa à biodiversidade do país.

Divulgação das árvores frutíferas nativas ocorre desde 1946. Essa publicação nos permite refletir sobre nossas escolhas culturais e o prejuízo que isso causa à biodiversidade do país.

Mas para além das frutas não nativas, que vieram lá de longe e hoje conseguimos produzir aqui, existem os peixes. Sim, nossos peixes…. Pode ser aquele que você come no japa aos finais de semana (olha só a globalização aí de novo), ou aquele que você come no jantar eventualmente, talvez empanado e frito. Mas, independentemente da forma que seu peixe é preparado, você precisa saber que ele veio de bem longe, e talvez, tenha sido criado de um jeito bem diferente do que você imagina. Neste vídeo, o chef Dan Barber explica de uma forma superdivertida como rola o processo de criação de peixes em cativeiros (como ocorre com a maioria dos peixes que comemos), e por que, quando conseguimos sair desse modelo ou encontrar algo mais sustentável, até nos apaixonamos por esses peixinhos.

Não é novidade que nosso país é enorme, assim, grande mesmo e tem muita água, mas muita água mesmo. Daí é comum pensarmos “nossa com todo esse mar, lagos e rios, todo peixe que chega no meu prato é daqui! ” Certo? Não!

No Brasil temos uma grande biodiversidade aquática, mas mesmo assim 60% dos peixes que comemos são importados de países como Chile (salmão), China (polaca) e o nosso querido bacalhau (pescado lá no Atlântico Norte). Isso acontece porque o nosso peixe envolve um sistema muito mais complexo do que apenas o pescar-limpar-pôr-no-prato. É necessário que haja transporte para os principais estados, e com o transporte aéreo muito caro e as condições péssimas das estradas, isso tudo faz com que os frigoríficos aumentem o preço da importação dos peixes. Ou seja, fica mais barato e fácil importar um peixe processado na China do que um cultivado aqui Nordeste, e assim a globalização continua agindo sobre nós.

PEQUENOS PRODUTORES

Com todo esse meio globalizado, precisamos pensar neles… os pequenos produtores do nosso país! Muito se ouve falar em agricultura familiar e o quanto é importante valorizá-la. O Ministério da Agricultura já produziu e disponibilizou cartilhas que dão destaque aos pequenos produtores rurais e ao alimento fornecido por eles. Mas, em meio a uma era de produção alimentícia cada vez mais exacerbada, supermercados cheios de frutas e verduras etiquetados, em saquinhos, os famosos minimamente processados que sabemos que foram produzidos em grandes plantações no modelo de produção que visa o capital (ou seja, mais produção em menos tempo), como é que podemos ajudar o produtor lá daquele sítio pequeno do interior do seu estado?

Primeiro, precisamos entender que, quando optamos por um modelo de alimentação mais sustentável, estamos indo contra uma corrente capitalista. Para isso, imagine-se nadando no mar onde a maré te leva direto para um supermercado, onde você poderá comprar aquela laranja gigante e doce, que você não faz ideia de onde veio, como chegou ali, qual foi o processo pelo qual ela passou, mas que irá lhe dar uma satisfação fácil e imediata. E lá do outro lado (no sentido contrário da maré) temos um sítio pequeno do interior, que produz laranjas, alface, talvez até crie uns porquinhos e outros animais, e é lá onde um senhor (vamos chamar de Seu João) produz junto com sua família, e cuida de tudo com o maior carinho, faz seu transporte todas as semanas para a cidade grande para vender suas frutas e verduras em uma feirinha pequena na praça perto da sua casa.

Ainda quando conseguimos encontrar feiras de alimentos, quando essas se localizam em grandes centros urbanos, existe uma grande possibilidade das frutas e verduras serem provenientes de modelos de produção que só visam ao lucro. Por isso é sempre importante optarmos por comprar diretamente com o produtor. Feira do Mercado de São Paulo. Fotógrafo: Walter Alves.

Ainda quando conseguimos encontrar feiras de alimentos, quando essas se localizam em grandes centros urbanos, existe uma grande possibilidade das frutas e verduras serem provenientes de modelos de produção que só visam ao lucro. Por isso é sempre importante optarmos por comprar diretamente com o produtor. Feira do Mercado de São Paulo. Fotógrafo: Walter Alves.

Essa história parece linda não é mesmo? Então, por que ainda assim não damos preferência à laranja do Seu João? E preferimos sempre a laranja do supermercado? Comodismo, facilidade e porque sim. Mas calma aí! Você já parou para pensar que quando você opta pelo Seu João, além de uma laranja você irá ganhar histórias? E talvez até amizades? E isso é muito mais legal!

Hoje em dia existem diversas formas de termos acesso a alimentos (em sua grande maioria de produtores orgânicos) por preços justos, além de conhecer suas histórias de vida. No Facebook existe o grupo Comida de Gente, que é uma rede de pessoas em diversos estados que se reúne para comprar diretamente com os produtores. O sistema é por compra coletiva, pelo qual podemos ter contato direto com o produtor e o local de produção (imagina só um passeio em um sítio durante o final de semana!), além de encontrarmos os produtos bem mais baratos que o de costume (em supermercados ou grandes feiras).

Além de grupos de compras coletivas de alimentos, o movimento de saber a origem da sua comida e como ela chegou até seu prato se tornou tão importante que surgiram instituições voltadas apenas a incentivar e despertar essa consciência em nós. Uma delas é o Slow Food Brasil, que descreve seu princípio básico como: “o direito ao prazer da alimentação, utilizando produtos artesanais de qualidade, produzidos de forma que respeite tanto o meio ambiente quanto as pessoas responsáveis pela produção, os produtores.”

Dessa forma, dá para ver que alternativas para sairmos desse modelo louco de produção e consumo existem, e que elas só têm a nos acrescentar, nutrindo nossos corpos com alimentos e nossas vidas com histórias e vivências que o nosso organismo jamais será capaz de se desfazer.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.