27 de agosto de 2014 | Ano 1, Edição #5 | Texto: and | Ilustração:
Colorindo a cidade cinza: arte urbana

“Quero pintar essa cidade cinza,
Criar diversidade na unidade,
Quero cores!”

Trecho de:
Manifesto Zebra
Encontro Regional de Estudantes de Arquitetura. Niterói, 2013.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

Se pararmos pra pensar, desde a Idade da Pedra os seres humanos já usam as paredes para se expressar (no caso, as paredes das cavernas). A arte urbana não é algo recente como parece. É claro que ela foi se transformando, mas desde a Antiguidade há registros da utilização dos muros como espaço de expressão. Nos anos 60, porém, a arte urbana se intensifica com as manifestações estudantis contra o autoritarismo político em Paris, em Maio de 68. No Brasil, durante o movimento contra a Ditadura, também se utiliza a intervenção urbana como forma de protesto, em menor escala. Já nos anos 70, a prática migra para outras partes da Europa e para os Estados Unidos. Em Nova York, então, surge o grafite como conhecemos hoje. Para além da arte como forma de protesto e transgressão, a técnica se consolida nas periferias com o movimento Hip Hop. No Brasil, também durante os anos 70 e 80, a prática cresce inicialmente com referências de arte pop e, com o tempo, do Hip Hop e movimentos sociais. Hoje, a arte urbana é cada vez mais popular, sendo forma de expressão puramente estética, mas também de luta, de protesto, representando a voz de movimentos e pessoas.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

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O tipo de arte urbana mais conhecido é o grafite, mas ele não é o único. As nossas cidades são, diariamente, coloridas através de várias técnicas e materiais diferentes. A própria lata de spray pode gerar diversos tipos de desenho, de acordo com o bico que você usa nela. Assim como canetas e lapiseiras, alguns vão te dar um traço mais fino, outro mais grosso, outro mais borrifado. Alguns artistas fazem apenas letras, outros fazem grandes painéis – cada um com seu estilo. O spray também pode ser usado nos stencils, quando se tem o desenho recortado em algum material para servir como molde. O C215 é impressionante nessa técnica. Fugindo das latinhas, o artista também pode intervir diretamente com a tinta, usando rolos ou pincéis. O lambe-lambe, por sua vez, não usa a tinta e traz o desenho no próprio papel, que pode ser colado nos muros, postes, portas e o que mais quiser. Um grande exemplo desse tipo de arte é o Obey. No fim das contas, a intervenção urbana é o que a gente quiser e vai se transformando a cada traço, tipo de desenho ou material que se usa.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

A arte urbana, por mais que esteja quase sempre presente quando saímos nas ruas, ainda é marginalizada por muitos – e o preconceito é, muitas vezes, maior ainda quando se trata de uma mulher intervindo na rua. Esse ainda é um meio dominado pelos homens e visto como masculino, mas tem muita mulher ocupando esse espaço e mostrando que não importa o gênero: a arte urbana tem espaço para todos. Do Rio de Janeiro, a Panmela Castro usa a sua arte para promover os direitos das mulheres. Lá de Natal, mas morando em São Paulo, a Sinhá usa das personagens femininas em seus desenhos, com destaque aos longos cabelos, que demonstram sua força e suas relações. De São Paulo, a Magrela usa personagens alaranjados para falar das dores e complexidades da vida em sociedade. Essas são só alguns exemplos de fortes mulheres que nos mostram que lugar de mulher é, também, na rua.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

GIF por Ana Paula Pellegrino.

A gente conversou um pouco com a Suka Neves, estudante de arquitetura e urbanismo e grafiteira no Rio de Janeiro. A Suka tem 28 anos e contou um pouco pra gente como foi a história dela com essa arte e como é ser mulher nesse meio. Dá uma olhada no nosso papo:

Me conta um pouco, antes de tudo, como você se aproximou da arte urbana? Qual a sua história com o grafite?

Desde a infância, nós acabamos por ter um primeiro contato visual com a arte de rua – muitas vezes, através da pichação – e comigo não foi diferente, já que em todo lugar se via muito desse manifesto. Porém, em algum momento nessa cena urbana eu comecei a perceber que, além dos rabiscos, as paredes estavam tomadas também de desenhos expressivos, repletos de muitas cores e formas. Mesmo tendo contato com desenho, eu não sabia por onde começar, ou como entrar em contato com as pessoas que de certa forma estavam colorindo a cidade. Então, há uns dois anos atrás, eu tive a oportunidade de participar de uma oficina ministrada pela C.U.F.A (Central Única das Favelas) e ter assim um primeiro contato com o grafite. Mas como o curso era ministrado em sua maioria de forma teórica, eu senti necessidade de algo mais, e quando o grafiteiro Marcelo Eco abriu inscrições para suas aulas, resolvi aproveitar a oportunidade, já que nesse momento eu conhecia muito de seu trabalho.

A gente percebe que o meio da arte urbana é predominantemente masculino, não é? Como é ser mulher e ser negra nesse espaço? Você já sofreu algum tipo de discriminação? Como é a relação com os caras que grafitam também?

Confesso que o fato de ser mulher e negra nunca me incomodou muito no ambiente urbano, até mesmo por que ainda engatinho nessa área. Mas eu percebo que quanto menos experiência as pessoas têm, mas elas tendem a se unirem a outros que também estejam iniciando, e isso muitas vezes acontece com pessoas do mesmo sexo. Talvez, pelo fato de eu ter começado a grafitar, em tese, em um grupo, a aceitação masculina tenha ocorrido de forma menos dolorosa e natural. Mas isso não impede de perceber que muitos buscam uma maior interação com pessoas que desenvolvam algo mais aproximado daquilo que fazem – e, infelizmente, o que ainda predomina é o sexo masculino, já que muitas mulheres, assim como eu, tendem a grafitar elementos mais femininos, ou tidos como “fofos”, o que é contrário ao que muitos homens desenvolvem: coisas mais expressivas ou até mesmo agressivas.

Depois que passou a grafitar, você se sentiu mais a vontade no dia a dia na rua? Você vê alguma diferença na sua relação com o espaço e com as pessoas antes e depois do grafite?

Até começar a grafitar, a rua me transmitia muito medo, já que você lida com diversos fatores: a polícia, as pessoas, possíveis assaltantes e tudo mais. Mas ao estar na rua, pintando na rua, você se sente parte integrante dela e tudo nela vira objeto de inspiração ou integração.

Na rua você consegue ter o retorno imediato de todas as pessoas que passam pelo local – isso de forma positiva ou não – e, mesmo que haja crítica, você percebe que de alguma forma aquilo que está fazendo está tocando alguém, nem que seja de um jeito incômodo. Se antes eu simplesmente passava pela rua, hoje eu estou muito mais atenta às coisas que acontecem nela. Um simples detalhe ou até mesmo uma frase já me leva a certos questionamentos sobre o que está de fato acontecendo. Eu consigo identificar, ou me localizar, em muitos lugares por já ter visto em algum momento um grafite.

Por fim, o que significa fazer esse tipo de arte pra você? E quem inspira a sua arte? Quais as suas referências?

Fazer grafite, para mim, mais do que qualquer outra coisa, é interação – seja com as pessoas, com outros grafiteiros, com o ambiente. É a possibilidade de sentir que a sua intervenção naquela parede, naquele bairro, pode de alguma maneira trazer felicidade na medida em que você transforma uma realidade um tanto “cinza”.

Muito do que eu faço é baseado na minha personalidade não exposta tão facilmente, do que eu carrego desde a infância com os primeiros contatos com quadrinhos da Turma da Mônica, do Maurício de Souza, por exemplo. Talvez seja esta minha maior referência, a minha personagem principal carrega muito essas informações e exemplos em seus traços. Isso sem conar nomes da cena do grafite, como Kobra, Eco, Toz, Swk, Ment, Fame, Supakitch, Koralie, SPzero, Alex Senna, Magrela e muitos outros.

Se quiser conhecer melhor o trabalho da Suka, chega aqui.

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

  • Rayssa Carvalho

    Arrasaram no texto meninas. A boa contextualizada no processo histórico de surgimento foi bem legal, lembrou uma monografia que estou escrevendo agora, mas baseando no cenário mineiro.
    Deixo aqui meus parabéns e força e sucesso para a Suka, que está transgredindo barreiras políticas e sociais.

    • Isabela Peccini

      Obrigada, Raissa! Que bom que você curtiu! Adoramos, também, mergulhar um pouquinho nesse mundo que colore as nossas cidades e conhecer melhor (:

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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