29 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Comida, diversão e arte

Este texto é pra falar sobre política global, comida e como essas duas coisas se relacionam, mas antes disso é necessário estabelecer o lugar de fala e reconhecer o privilégio gigantesco – que eu sempre tive – de saber que vai ter comida na mesa hoje e amanhã, o que é muito fácil deixar passar despercebido. A Sara Novi é uma escritora croata que lançou recentemente um romance chamado Girl at war, que conta a história de uma menina que viveu a guerra civil na Iugoslávia e mais tarde foi morar nos Estados Unidos. Tem um trecho muito importante que diz:

“O uso que as pessoas fazem da expressão ‘morrendo de fome’ quando elas obviamente não estão sempre me incomodou, mas era especialmente irritante na universidade, onde todas as noites eram um bufê de excesso. Eu pensava nas pilhas de frango assado e salada de batata e pão de milho amarelo fluorescente que a escola provavelmente serviria no jantar de domingo, e depois jogaria fora. Na Croácia, eu era do tamanho normal de uma criança da quinta série. Na América eu era pele e osso.” (tradução livre minha)

Não precisa nem olhar tão longe, lá na antiga Iugoslávia, pra achar a fome, que muitas vezes está mais próxima do que se imagina. Mas apesar de ser muito fácil que o privilégio da comida passe despercebido, o que sempre acontece, parece ser universalmente reconhecido que todas as pessoas deveriam ter acesso à alimentação: mesmo os reacionários e conservadores não têm tanta coragem de dizer em voz alta que acham que algumas pessoas não deveriam poder comer (ufa, pelo menos isso ninguém precisa escutar com tanta frequência). E essa empatia mais ou menos universal com a necessidade humana de comer dirige muito da nossa política, em âmbito global. Acesso à comida é, hoje em dia, um dos principais itens na agenda da política internacional em todas as grandes organizações, como a ONU e o Banco Mundial.

Desde mais ou menos os anos 1970, essas organizações vêm adotando uma agenda política baseada em uma abordagem que chamamos de “necessidades básicas”, onde se defende que todas as pessoas devem ter acesso pelo menos ao mínimo para se manterem vivas, como por exemplo a comida. O combate à fome é o principal objetivo do milênio (os objetivos do milênio foram metas estabelecidas pela ONU no ano 2000 para que os países em desenvolvimento cumprissem até 2015). E qual seria exatamente o problema nisso? A princípio, nenhum – pelo menos não com o que está sendo feito. O problema está nas outras coisas, que são negligenciadas por causa mesmo do raciocínio de que as pessoas só precisam de suas “necessidades básicas” atendidas para que possam viver.

Primeiro, porque, como seres humanos, nós precisamos de muito mais do que apenas comida: nós precisamos de convivência social, respeito, precisamos estabelecer laços, precisamos de lazer, diversão, arte e entretenimento. Onde está a humanidade nas pessoas, se você prega que a única coisa que elas precisam mesmo é o suficiente para que continuem vivas? E onde é que estão as grandes políticas nacionais e internacionais para que todo mundo tenha acesso a todas essas coisas? Por que exatamente eu posso ir a um parque de diversões, um parque aquático, passar um domingo livre numa praça bonitinha, ir ver um filme no cinema, enquanto outras pessoas “só precisam mesmo de comida”? Nossa política não deveria visar apenas manter pessoas vivas: deveria visar manter pessoas vivas e felizes, com dignidade.

E, depois disso, existem também as pressuposições que ficam por trás de quem defende muito o ponto de vista de que as pessoas só precisam mesmo de comida: que o nosso sistema político e econômico nem é tão injusto assim, se ninguém morrer de fome. A necessidade imediata de tantas pessoas, e a empatia que existe em tantas outras com relação à falta de comida muitas vezes se torna um instrumento político para que se faça apenas o mínimo possível, e nada mais. Acaba não importando se metade do mundo for profundamente infeliz, contanto que tenha comida na mesa. Não importa sequer que tipo de comida seja esse.

A questão é que mesmo que essas grandes organizações conseguissem o objetivo de erradicar a fome no mundo as injustiças que existem ainda seriam tantas, mas tantas, tantas mesmo, que isso teria sido só um primeiro passo em uma longa caminhada. O problema está no sistema que causa a fome em primeiro lugar, e que permite que existam assimetrias que nem as do trecho acima do livro da Sara Novi, e não apenas em situações específicas de guerra como foi o caso da Iugoslávia. O modelo econômico predominante hoje em dia é um que permite que se produza mais do que o suficiente, e que isso tudo se localize apenas em alguns lugares muito específicos. Permite também que boa parte das pessoas vivam para a função de trabalhar, permite que haja assimetrias de direitos entre as pessoas, permite discriminação e opressões sistêmicas, permite que só alguns poucos tenham o luxo de se divertir. É preciso acabar com a fome para ontem, sim – mas somos gente e precisamos de mais.

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Thais Bakker
  • Colaboradora de Cinema & TV

Thais tem 20 anos e estuda Relações Internacionais e Filosofia. Se sente bem estranha se apresentando, por isso pagou uma coxinha a quem escrevesse isto por ela. Essa pessoa também achou relevante mencionar que ela reclama mais do que o socialmente aceitável.

  • Talita Rodrigues

    Realmente preciso dizer que amei o texto. Era algo em que estava pensando ultimamente. Muito bom. Mas, outra coisa, que também gostei muito: seu cabelo Thais Bakker! Cortei o meu mais ou menos desse tamanho essa semana. Amei ver uma colaboradora do primeiro texto que leio da revista com uma cabelo lindinho assim! Amei tudo!

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