21 de agosto de 2015 | Ano 2, Edição #17 | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Comida e afeto

Para mim, cozinhar sempre foi uma questão relacionada ao afeto e ao tempero do amor. Os dois lados da minha família se encontravam e faziam grandes eventos ao redor da comida. Seja um almoço familiar de alguma data especial como natal ou dia das mães, ou jantares acoplados a noites de jogos para juntar os primos e dar risadas, fui acostumada a sentar em algum banquinho pela cozinha, observando os mais velhos se divertindo ao preparar uma deliciosa refeição.

Como tenho descendências italiana e libanesa, aprendi bastante sobre temperos e diferenças culinárias entre as diversas culturas do mundo. Apesar de usarmos temperos e ingredientes diferentes, a relação com a comida é praticamente a mesma. Existe um elo que se forma entre pessoas que desfrutam de uma refeição juntas.

Pode ser em um lanche numa padaria ou um jantar bem elaborado, sempre me encontro em situações onde uso a comida como forma de juntar pessoas queridas e conversar sobre os mais diversos assuntos, sejam eles sérios ou não. Hoje, por exemplo, eu cozinhei com a minha mãe, o que faço com frequência. Conversamos durante todo o processo, relembramos fatos, fizemos planos, interagimos de forma ótima… em torno da comida. Nesse caso, eu estava cozinhando. Em outros, apenas aprecio o que foi feito para mim.

Mais tarde, tenho um encontro marcado com alguns amigos em uma pizzaria. Tenho certeza de que vamos rir muito lembrando de histórias inusitadas, ou comentando sobre as invariáveis contemporaneidades que são discutidas em mesas de restaurante. O que importa é que vamos socializar enquanto saboreamos uma boa fatia de pizza repleta de queijo.

Reza a lenda que a bebida é o instrumento social. Eu discordo. Nem todos bebem, nem todos gostam de bebida alcoólica. Agora, a comida… ah, essa sim socializa. A avó que ensina a neta a receita daquele prato de família com o tempero super ultra secreto. Ou as amigas que se juntam numa sexta a noite pra fazer pipoca, cachorro quente e brigadeiro e ver Netflix. Até mesmo aquele jantar romântico feito em casa, à luz de velas, acompanhado de prosa e verso.

Não dá para menosprezar os momentos adquiridos ao redor de pratos repletos de comida. Essas histórias são importantes, é a ação cotidiana que permanece. É ela que faz as memórias, é com ela que vem o papo para os próximos encontros. Não importa o lugar, o nível de formalidade, nem a sua relação com a companhia. Praticamente não existe ocasião social que não haja um petisco envolvido.

Temos que aproveitar as oportunidades de fazer da comida um acontecimento social. Chame sua mãe para cozinhar com você, ou sua irmã para provar a mais nova receita de brownie que você aprendeu na Capitolina (que sim, é maravilhosa, eu já fiz), ou se ofereça para ajudar sua avó a cozinhar a próxima refeição em familia. Crie memórias com a ajuda da comida. E coma, né, porque eu acho que não existe nada no mundo melhor que comer. Talvez dormir, mas bom, aí já é outra história.

Nathalia Valladares
  • Colaboradora de Culinária & FVM
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora

Sol em gêmeos, ascendente em leão, marte em áries e a cabeça nas estrelas, Nathalia, 24, é uma estudante de Design que ainda nem sabe se tá no rumo certo da vida (afinal, quem sabe?). É um grande paradoxo entre o cult e o blockbuster. Devoradora de livros, apreciadora de arte, amante da moda, adepta do ecletismo, rainha da indecisão, escritora de inúmeros romances inacabados, odiadora da ponte Rio-Niterói, seu trânsito e do fato de ser um acidente geográfico que nasceu do outro lado da poça. Para iniciar uma boa relação, comece falando de Londres, super-heróis, séries, Disney ou chocolate. É 70% Lufa-Lufa, 20% Corvinal e 10% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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