24 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Bia Quadros
Como criar uma criança com deficiência?

Eu pensei muito antes de escrever esta pauta porque, como sempre, ao se falar de deficiência, abre-se um leque gigante, e eu só tenho propriedade para falar de uma muito específica, que é ser cadeirante, e, ainda assim, há inúmeras diferenças entre cadeirantes: alguns tem distrofia, alguns atrofia, alguns foi acidente, alguns nasceram com a deficiência e outros desenvolveram. Então, é um campo no qual, apesar de estar incluída, não posso tomar voz por completo. Por isso pensei. Pensei muito. E resolvi falar de modo mais geral para tentar ser o mais abrangente e inclusiva possível.

Eu noto sempre que os pais de crianças com deficiência são vistos como “guerreiros”; isso pressupõe que passam tamanho trabalho, que são heróis. E não é bem assim, né? É claro que há certos cuidados a serem tomados quando se tem uma criança que não anda, por exemplo. Minha mãe teve muito trabalho sim, teve que me carregar para muita fisioterapia, viajar para muita consulta, me auxiliar um pouco mais em casa. Mas isso não signifca que ela não teve que viajar quando minha irmã, que anda, precisou de cirurgia ou não passou nenhum perrengue só porque ela anda. São apenas cuidados diferentes, eu diria. A sociedade precisa urgentemente parar de desenhar deficiência como um fardo, seja para quem for.

Um pensamento que carregarei para o resto da minha vida – que ouvi de um conhecido há uns anos – é de que quanto mais a sociedade se adapta, menor é a deficiência da pessoa. Isso é uma verdade absoluta. Quanto mais rampas, menos eu preciso de ajuda para subir na calçada. É uma lógica simples, mas tão pouco usada. Por isso a nova Lei de Inclusão Brasileira é tão linda que tenho vontade de abraçá-la todas as noites, antes de dormir.

Isso me traz a um ponto importante: pais, primeiramente, não se calem diante de injustiças. Briguem mesmo pela inclusão de seu filho com deficiência. Não é favor, não, é direito. Tem que brigar e, se necessário, brigar na justiça. O que não pode é deixar que tornem a deficiência de seu filho maior. Sempre lembre disso. Exija os direitos dele e ensine-o a lutar por si também. Não o faça sentir que é vergonhoso pedir o que lhe é por direito. Eu demorei muito pra aprender com a minha mãe e parar de ter vergonha de passar na frente na fila quando eu lembro a dor que passo durante o dia e durante a noite por ficar sentada quase o tempo todo. E quando me olham torto por ter passado na frente, eu lembro que recebo esse olhar em entrevistas de emprego e eles não, então passo sem culpa. É um direito muito pequeno diante de tudo que me privam a vida toda. Ensine isso ao seu filho e a vocês mesmos. Leia a nova LIB, carregue-a consigo e garanta que seu filho tenha acessibilidade para andar nas ruas sendo cego, para ter intérprete na escola, para ter a meia entrada.

Segundo ponto que eu também pensei sobre é a questão da superproteção. Eu entendo o porquê, mas não acho que seja uma boa ideia. Eu sei que os pais tendem a querer evitar que a sociedade machuque seus filhos, querem evitar que eles sofram, mas desmotivá-los a viver uma vida normal não é a alternativa correta. Infelizmente, eles vão sofrer, em algum momento, porque vivemos numa sociedade muito capacitista, apesar de disfarçar bem às vezes. Mas não o deixe preso em casa. Pessoa com deficiência pode fazer o que quiser e com apoio dos pais, faz com mais segurança.

O terceiro ponto é dentro de casa. Se seu filho é surdo, a família toda devia aprender LIBRAS. Se é cego, facilite a mobilidade dentro de casa. Se for cadeirante, uma pia no banheiro mais acessível para a cadeira muda muita coisa, viu? Adapte a casa, a família. Se sentir deslocado dentro da própria casa é uma sensação horrível.

Não é tão difícil criar uma criança com deficiência, é só mais específico o cuidado a se ter, como falei desde o começo do texto. A palavra chave é adaptação. Claro que não serei hipócrita, não nego que nosso dia a dia, em certos aspectos, demanda um pouco mais de ajuda, mas ajudar uma pessoa com deficiência está longe de ser uma luta tão árdua que necessite de guerreiros. Acho que a verdadeira guerra está da porta pra fora e é lá que você deve lutar como tal. E, também, é claro que toda a questão de adaptações físicas em casa envolve custos e nem toda família tem condições: é um privilégio, de fato, poder ter uma casa adaptada. Mas na medida do possível, faça isso. E lembre-se que entre os direitos da pessoa com deficiência há o benefício social do INSS para poder ajudar um pouco; ainda que o BPC (Benefício de Prestação Continuada) seja de um salário mínimo, já é algo. Não deixe nenhum direito passar em branco.

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

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