4 de outubro de 2017 | Ano 4, Colunas, Educação | Texto: and | Ilustração: Juliana Adlyn
Como é estudar em um cursinho popular?

Cursinhos populares são iniciativas importantes e fortes aliadas na luta pelo acesso à educação superior. Hoje, aqui na coluna de Educação, vamos conhecer os relatos de algumas capitolinas (colaboradoras e #capitomigas) que estudam nessas instituições. Ah, se você quer saber mais sobre cursinhos populares e como funcionam, podem mandar suas dúvidas pra gente! Tem também esse outro texto aqui em que falamos um pouco mais sobre o assunto.

Hemilyn

“Meu nome é Hemilyn, eu tenho 17 anos e frequento o Cursinho Popular Edson Luís que fica na Cidade Universitária em SP. Esse é o meu primeiro ano de cursinho, eu optei por estudar em um cursinho popular essencialmente por causa da minha questão financeira, eu não teria como pagar o transporte e a mensalidade de um cursinho. Então, através de uma amiga, eu conheci o CPEL e frequento desde o começo do ano.

Desde o meu ensino médio eu vivo em um grande desconforto com o ensino brasileiro, que durante toda a minha vida se deu de uma maneira precária e extremamente desinteressante, toda a instituição de educação falhou comigo e eu só tinha interesse de passar de ano e sair logo. O que me interessou sobre o  cursinho popular é a proposta de uma educação libertária e o objetivo de construir coletivamente um ensino de maior qualidade e tudo isso fez muito sentido pra mim. Eu estou estudando pro vestibular e eu preciso aprender muito conteúdo em muito pouco tempo, mas o vestibular é uma prova injusta que exige um amplo e muitas vezes abstrato conhecimento que nós simplesmente não temos, exatamente por termos passado por instituições educacionais que fracassaram com a gente. Portanto estar em um ambiente que se importe com o meu aprendizado foi muito significativo.

O modelo de ensino oferecido pelos cursinhos populares se contrapõe com o modelo bancário das escolas no Brasil, onde o Professor é o que detém a sabedoria e os estudantes são apenas agentes passivos que recebem essa sabedoria, folhas em brancos prontas para serem preenchidas. Esse modelo tira a autonomia e a subjetividade dos estudantes e tem estragos profundos na nossa capacidade de entendimento. Nesse contexto o cursinho popular tenta estancar esses estragos com uma dinâmica de educação que tenha a participação dos estudantes e seja mais próxima da nossa realidade. Mas infelizmente não temos tempo suficiente para alcançar as exigências impossíveis dos vestibulares.  

A minha experiência no cursinho têm sido bastante frutífera, eu tenho descoberto que estudar para o vestibular não é uma tarefa fácil, essencialmente pela problemática do ensino ruim que eu tive mas também ter de vencer outras questões também, como a falta de motivação, a descrença no futuro, ansiedade, falta de dinheiro, instabilidade política e econômica e muitos outros. Empenhar-se nos estudos significa abdicar-se de muita coisa, como ver amigos ou passear, sendo alguém que teve muita dificuldade no ensino médio, em entender os conteúdos, achar maneiras de estudar e etc .”

Gabriella

“A primeira vez que prestei vestibular foi em 2011, quando estava no terceiro colegial. Na época, eu estava me formando em uma escola pública e, pela defasagem do ensino, em geral, e, principalmente, por não ser uma escola conteudista voltada pro vestibular, decidi fazer cursinho.Por ser estudante de escola pública, tive acesso a uma bolsa semi-integral em um cursinho tradicional em São Paulo, onde estudei o extensivo, na maior loucura, junto com a escola. No final daquele ano, fui aprovada em Relações Internacionais  na USP, além de ter passado também no mesmo curso em outras 3 faculdades no estado.

Minha graduação chegou ao fim há um ano e eu, ainda meio perdida profissionalmente, não sabia muito o que fazer. Depois de alguns meses de dúvidas e de ter atirado pra todos os lados me matriculando em cursos e frequentando palestras (além, é claro, de implorar pras migas manda jobs!), tomei uma decisão: prestar vestibular outra vez e tentar uma segunda graduação, dessa vez em Direito.

Não foi fácil  chegar a essa escolha, menos ainda foi me preparar psicológica, acadêmica e financeiramente pra ela. Mas, como boa ariana, eu estava decidida.

Então, cinco anos depois de ter terminado o colégio e ter ficado longe de qualquer fórmula de bhaskara, me inscrevi na Fuvest. Em menos de três meses, eu estaria fazendo (de novo!) a prova. Em meio a simulados caseiros e aulas gratuitas no Youtube, tentei correr atrás do prejuízo — mas não é fácil ter disciplina pra enfrentar uma jornada de estudos.

O resultado no vestibular, como esperado, mas nem por isso menos frustrante, foi não ter sido aprovada nem na primeira fase. Tudo bem, pelo menos eu iria poder curtir a praia nas férias sem me preocupar. 

Nesse meio tempo, eu conheci melhor e me aproximei da ACEPUSP, uma organização que atua pela educação popular, oferecendo cursos a preços bem acessíveis, indo do preparatório pré-vestibular a cursos de idiomas (onde, aliás, passei a dar aulas — mas isso é assunto para outro post). É lá onde voltei a sentar a bunda em uma carteira e a sentir cheiro de giz riscando a lousa, perdendo tardes ensolaradas estudando a bendita bhaskara.

A diferença é que agora eu me sinto muito mais parte de um projeto de educação (e de país, inclusive), já que o cursinho popular te vê menos como número e mais como estudante que enfrenta dificuldades, que muitas vezes economiza no lanche pra pagar a passagem, enfim, tantas outras desvantagens que enfrentamos quando nos deparamos com um funil meritocrático como o vestibular.

Leticia Ferreira

“Bom, desde que eu estudava no ensino médio queria fazer alguma faculdade, e precisava ser pública já que meus pais não iriam ter condições de pagar uma particular e outros motivos também contribuiram para essa decisão, porém no ensino médio os conteúdos das matérias eram bem defasados e também não tinha nenhum animo para estudar alias a escola me ajudou mais a ficar deprimida. Então quando acabei fui procurar um cursinho popular me inscrevi em dois da minha cidade e consegui entrar no Gerabixo um cursinho da Unesp, sinceramente melhor coisa que me aconteceu além de aprender muita coisa sobre as matérias que eu achava que sabia, os professores me deram muita motivação sempre, além dos novos amigos que fiz, eu me identifico muito com eles já que estão no mesmo barco. Bom, resumindo tudo eu amo o Gera, nunca fiz nenhum cursinho particular, mas acredito que deve ser tão bom quanto e a dedicação e carinho dos professores o torna mais especial.”

Monalysa Sarmento

” Após um início de 2017 conturbado aonde um pré vestibular social teve que encerrar suas atividades em nosso bairro, um grupo de professores que trabalhavam nesse pré resolveu se unir e criar um pré vestibular aonde todo trabalho é voluntario, incentivados principalmente pela vontade de colocar jovens carentes dentro da universidade.

Isso acontece em Santa Cruz um bairro da zona oeste do Rio de Janeiro.”

Gabriella Beira
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Gabriella Beira é formada em Relações Internacionais e, como qualquer "internacionalista" (é assim que se chama a pessoa que estuda RI), quer conhecer o mundo todo e, se possível, mudar o mundo. Gosta muito de falar sobre educação, cultura, sociedade e feminismo, mas seu hobby mesmo é jogar Plants vs Zombies. É impaciente, procrastinadora, irmã mais velha e aluna mediana.

Hemilyn Stephanye
  • Ilustradora

Hemilyn mas pode chamar de Hem, 18, moro em SP Z/O, sou apaixonada por artes e tecnologia. Me meto em tudo que tem a ver com produções artísticas, mas me envolvo mais com desenho e pintura. Fiz técnico em informática e lá me apaixonei por programação e T.I. Beyoncé e Steven Universe salvaram minha vida. Leonina bem louca com lua em sagitário.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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