22 de março de 2016 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração: Isabela Zakimi Innocentini
Como escolhi minha profissão
EDIÇÃO#24.PROFISSAO.KIKI

Eu já quis ser muita coisa “quando crescer” (grande, inclusive, já que eu sempre fui um pinguinho de gente), mas nunca passou pela minha cabeça ser tradutora e intérprete: eu nem sabia que essas eram profissões de verdade! Pois é, a vida dá rodopios muito inesperados que nos levam a lugares bem interessantes, e eu gosto muito de contar como eu vim parar aqui, em 2016, satisfeita profissionalmente. Não, não é receita de bolo, mas, sim, mostrar como que a nossa satisfação tem muito mais a ver com o quão verdadeiras somos com nós mesmas do que com a escolha que fizemos ao prestar vestibular. Então, senta que lá vem a história…

Como uma das alunas mais aplicadas do colégio, é claro que a sociedade (colegas de turma, professores, família, conhecidos, etc.) tinha expectativas altíssimas e tradicionalíssimas para mim: “essa aí vai dar uma boa médica/advogada/engenheira!”. Confesso que eu ficava toda prosa de ser alvo de tantos elogios, mas, conforme o vestibular se aproximava, comecei a ficar inquieta com esse determinismo todo. Eu gostava de tantas outras atividades que passavam tão longe desses perfis profissionais…

O ano de vestibular finalmente chegou e eu surtei: o que escolher? Como a pesada maioria de vestibulandos, eu sentia que essa seria a escolha mais importante e determinante da minha vida toda. Fiquei muito confusa e ansiosa, dividida em seguir o que eu achava que gostava de fazer ou atender às expectativas do mundo, que sempre vinham acompanhadas com perspectivas de sucesso total. É claro que, à época, eu não tinha senso crítico e firmeza suficientes para questionar o que é sucesso, e não vou nem comentar sobre escolher uma profissão em uma idade em que mal sabemos quem somos.

Depois de muita dor de cabeça, segui meu coração e entrei para a faculdade de História. Nas nuvens, me sentia cada vez mais próxima de realizar meu sonho de ser uma daquelas protagonistas de filme que são cultas, inteligentes, blasé, ricas, mas que vivem de um trabalho aparentemente não tão bem remunerado. Como a Anne Hathway em Um dia, sabe?

Não é de se espantar que essa imagem romantizada da profissão tenha caído por terra logo nos primeiros meses de faculdade. O curso de História não é bolinho. É difícil em termos práticos, com muita leitura, muito textão, e em termos emocionais, com muita problematização, quebra de tabus e crises de identidade. Eu tive pelo menos uma por semestre (e foram quase cinco anos de faculdade, façam as contas…), e em uma dessas crises, pensando em abandonar o curso, fiz o que todo mundo faz quando tem uma dúvida séria surge: fui consultar o Google.

Aquele meu sonho de ser Anne Hathay em Um Dia (sem a parte trágica, por favor) também vinha acompanhado da ideia de morar naqueles apês de Um lugar chamado Nottin Hill e viver escrevendo e lendo nos cafés das redondezas; daí pensei que traduzir seria uma atividade possível/minimamente socialmente aceita, quem sabe até uma porta de entrada para eu realmente ser escritora?! E nessa busca louca pela interwebs esbarrei no site da escola de idiomas que me serviu de casa durante quase dois anos enquanto eu cursava tradução e interpretação simultânea. Foram longos dezoito meses de muito aprendizado e muito foco. Eu me dedicava muito mais a esses dois cursos profissionalizantes do que a graduação em História por motivos bem simples:

1) eu gostava mais;

2) eram cursos práticos e desafiadores;

3) eram cursos caros, que exigiam um nível de dedicação presencial e extra-presencial cabível na agenda só de quem é estruturalmente privilegiado – o que acabou escancarando meus olhos para os meus próprios privilégios;

E, por último, mas nem por isso menos importante…

4) eu realmente comecei a me enxergar dentro de uma realidade profissional, ou seja, eu parei de inventar uma pessoa que eu não era, parei de conjecturar meus sonhos com uma personagem de mim mesma, que não se aceitava e não gostava o suficiente de si. Talvez meu empoderamento tenha começado ali e eu só me dei conta disso agora, escrevendo esse texto. :)

Pois bem, ser tradutora e intérprete também não é bolinho por vários motivos. É preciso estudar constantemente, saber pesquisar na Internet, saber escrever bem para diferentes leitores; é saber mexer em vários programas que facilitam o processo de tradução, diminuindo a margem de erro humano; é saber ser sua própria chefe, já que o melhor plano de carreira é ser autônomo, e isso por si só abre um leque de burocracias e coisas chatinhas que você precisa aprender a fazer e a lidar. Fora que a falta de reconhecimento dos leigos (a população não tradutora e não intérprete) abre margem para muitos achismos por parte de quem procura nossos serviços, achismos estes que recorrentemente desvalorizam o nosso trabalho.

Mas é claro que, para mim, todas essas dificuldades são compensadas por eu poder trabalhar fazendo meu próprio horário, de casa ou de qualquer outro canto do mundo. Aquele sonho de viver à la Nottin Hill parece bobeira, mas ele nunca foi tão próximo da realidade, e isso é libertador e assustador ao mesmo tempo.

Ao abraçar duas profissões que fogem ao esquema tradicional da carteira de trabalho assinada, também levo a tiracolo a incerteza – será que terei trabalho amanhã? E se eu ficar doente? Não vou mentir, ainda me pego assustada depois de três anos mergulhada na realidade de freelancer, mas essa escolha tem me ensinado que não existe controle nessa vida, mas, sim, níveis de descontrole. A partir do momento que comecei a internalizar essa ideia, fui me tornando uma pessoa melhor para mim mesma. E o fato de eu trabalhar em uma “euquipe” (eu + eu tocando o barco) me obrigou a dar atenção para mim, a me encarar de frente, entender como eu funciono, quais são minhas qualidades e dificuldades. Mesmo que grande parte do meu autoconhecimento venha se dando nessa lógica produtivista do trabalho, não me arrependo disso, pois estou galgando uma paz e uma confiança e gosto de ser quem eu sou que extrapolam a esfera profissional da minha vida. É muito bom estar bem dentro da própria pele. E cadê a História nessa história toda?

Ela me acompanha sempre; tenho muito orgulho em dizer que sou historiadora, pois é uma escolha que diz muito sobre quem eu sou (#viciadaemproblematizarfeelings). Terminei a faculdade, mas desde a entrega da monografia não mexi academicamente ou profissionalmente com dona Clio. Reunir minhas três profissões é um sonho que sinto que ainda vou conseguir realizar, mas já deixei de lado a urgência de concretizar tudo-ao-mesmo-tempo-agora-para-ontem. Nesses encontros e desencontros profissionais acabei descobrindo e aceitando que tudo é temporário e que a gente é um ser muito complexo para se resumir (se limitar?) em um ofício só. Seja para sobreviver às circunstâncias da vida ou para ir atrás de um sonho, não se preocupe: vale a pena procurar se encontrar, não importa o tempo que levar.

Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

  • Carol Frias

    Olá, Carol. Adorei seu texto. Foi tão inspirador pra mim que me interessei em fazer um curso na área de Tradução. Vc pode dizer onde fez os seus? Além destes, quais vc recomenda? Obrigada!

    • Carolina Walliter

      Olá, minha xará! :)
      Que bom que você gostou do texto!
      Vamos lá às dicas: se você mora no Rio de Janeiro, o Brasillis Idiomas oferece cursos profissionalizantes, que não exigem graduação universitária. É um bom começo, eu me formei lá. Se você mora em São Paulo, sei que o curso Alumni é uma boa referência. Caso cogite fazer Letras, alguns departamentos de universidades públicas já oferecem disciplinas em Estudos da Tradução; a UnB tem formação Letras/Tradução! E em nível de pós-graduação, temos a Gama Filho, PUC e Estácio na rede particular.

      Se quiser se situar melhor na profissão, dá um confere nesses blogs: Multitude, Ao Principiante, Pronoia Tradutória e Tradutor Profissional.

      Espero ter ajudado!
      Um beijo,
      Carol

      • Carol Frias

        Muito obrigada, xará! Antes de ver sua resposta pesquisei sobre o assunto na Internet e obtive muitas informações. Vou dar uma olhada no blogs também e correr atrás!
        Ajudou muito mesmo.
        Um abraço.

  • Ane Cristina

    Obrigada pelo texto, Carol! Desde o ano passado, pesquisando sobre profissões e vendo o que se encaixava pra mim, me senti como se tivesse encontrado meu destino ao decidir que queria fazer jornalismo. Eu estava 99% decidida, até que fiquei extremamente triste ao constatar DEFINITIVAMENTE que o jornalismo brasileiro, (da grande mídia) é completamente tendencioso. Então, por uma semana (que coincidiu com meu momento de TPM) eu me peguei desistindo do curso, procurando outros que se encaixasse pra mim e também que fosse melhor remunerado. Os dias passaram e novamente vi que é esse curso que eu quero fazer, mas é como se eu tentasse fugir dele! Hahaha

    Mas seu texto me ajudou ao perceber que não custa nada tentar :-) Obrigada <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.