6 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Como eu aprendi a ser uma mina radical e corajosa
Ilustração: Helena Zelic.

Ilustração: Helena Zelic.

Não sabia andar de bicicleta, não subia em árvore, não pulava de lugares altos, não ia à montanha russa, minhocão, roda gigante ou, na real, qualquer coisa que não fosse carrossel, cisnezinho ou trem fantasma. Não dava cambalhota, nem estrela, nem bananeira, não fazia estripulias, nem nada que era “proibido”.

Assim era baby Verônica. Uma criança bundona. Se já não bastasse baby Verônica ser uma coisa estranha e desengonçada que, aos oito anos de idade, já tinha o tamanho da professora e, aos 10, não podia mais entrar nos brinquedos do Mc Donald’s e Pizza Hut porque tinha UM METRO E SETENTA DE ALTURA (sim!), o que dava a ela uma insegurança corporal enorme, Verônica ainda pensava demais e, por isso, tinha medo demais.

Pensava na humilhação, pensava na dor, em sangue, nas outras crianças rindo dela, pensava na bronca dos mais velhos, pensava nos fantasmas e em outras coisas sobrenaturais, pensava, pensava, e pensava, mas não fazia nada, seus pensamentos aprisionavam suas ações. Acontece que baby Verônica não era qualquer criança pensativa e bundona, ela era uma criança pensativa e bundona que admirava mais que tudo as crianças que não tinham medo, que quebravam o braço e não ligavam, caiam e não choravam, tomavam banho no rio de madrugada, faziam suas molequices, não importava o que viesse a acontecer. Elas tinham uma tal de **~~CORAGEM~~** que baby Verônica nunca tinha encontrado, não sabia como era sentir a tal, e ficava imaginando: “A coragem deve ter gosto de manga”, “Ela deve ter a textura de uma pena sobre uma bola”, “Ela deve ter o som do LA”.

Baby Verônica cresceu imaginando coragem, pensando medo e vivendo estática. Virou uma Verônica frustrada, que tinha 13 anos e não sabia andar de bicicleta e nem dar estrela ou falar com o moleque bonitinho que sentava atrás dela nas aulas. Só sabia desenhar, ler livros, sentir e pensar.

E, então, o fatídico dia chegou. Era uma noite estrelada e Verônica-aos-treze estava na casa de sua amiga J. , que ficava em um condomínio fechado, longe da cidade, no meio de cachoeiras e bosques e coisas assim. Estavam meio entediadas, até que J. propôs que passeassem pelo condomínio. “Beleza”. As duas vaguearam por aí, conversando e procurando algo que elas não sabiam bem o que era. J. chegou a dizer que a maioria das casas daquele condomínio eram semiabandonadas, que as pessoas só iam lá nas férias ou em determinados fins de semana.

V: Vizinhos invisíveis… massa!
J: É, pelo menos são poucas pessoas a reclamarem do volume do som, do cheiro das cachimbadas do meu pai.
V: Hahaha!
J: O quê?
V: Sei lá… essa palavra, cachimbadas.

Continuaram caminhando, mas J. precisava ir ao banheiro.

J: Um minutinho, tá?
V: Tá.
Verônica ficou lá, sozinha, naquela ruela escura, ouvindo os barulhos do bosquezinho que ficava logo ao lado. Aqueles barulhos eram de arrepiar e a escuridão a fazia enxergar coisas absurdas, vultos, fantasmas. Os barulhos no bosque foram aumentando como se algo estivesse se aproximando. Verônica tampava os ouvidos para ver se esquecia daquilo tudo, até que algo pulou de dentro do bosque e parou bem na sua frente. Era ELA. Verônica não podia acreditar, ELA estava ali! Bem na sua frente! A CORAGEM, em carne e osso!

A coragem era bonita, maravilhosa, o seu cabelo era todo trançado com estrelas enfeitando as madeixas, tinha pernas de cavalo, seus olhos eram pura luz, usava uma espada muito maneira e da sua barriga saia fogo.

Ela olhou para Verônica, tocou-a no ombro, sorriu e disse: “Gata, eu tenho umas coisas para te dizer. Coisas como o fato de que o câncer, a prisão da vida, é o Medo”. BREVE SILÊNCIO. “Todos os mortais têm medo, porque o Medo é a Morte. Não estou te dizendo para enfrentar todos os riscos o tempo inteiro, eu não sou isso; eu sou quem ignora o medo, faço a egípcia quando os riscos aparecem, sou a alavanca que te ajuda a enfrentá-los, caso sua intuição dê essa ordem”. MÉDIO SILÊNCIO. “A intuição é a voz da alma, silencie um pouco esses pensamentos para conseguir ouvir a sua com clareza… Sabe, há um dedo e há um botão; o medo é o espaço entre o dedo e o botão. Aperte esse botão, mina! Eu sou a ação, a ação pura, eu vivo, eu sou”. LONGO SILÊNCIO. “O medo ainda aparecerá na sua vida diversas vezes; da próxima vez, olhe pare ele e lance uma careta bem feia! Dê medo ao medo” A coragem, então, pega o dedo de Verônica e o coloca no fogo que sai de sua barriga, queimando-o. Em seguida, ela desaparece, como se nem tivesse passado por ali.

J. aparece. Vê o dedo queimado da amiga e pergunta o que aconteceu. Verônica sorri.

– Não é nada, não. Tá vendo essa casa? Acho que não tem ninguém, vamos invadir e tomar um banho de piscina.

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Verônica Vilela
  • Colaboradora de Artes
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Verônica V. tem 19 anos e não sabe bem onde mora, algo entre uma cama no Rio e o Universo. Estuda cinema na UFF, gosta de viver as paradas e necessita dar um retorno dessas vivências através da expressão. Posta uns desenhos sentimentais nessa página aqui: www.valsa-dos-erros.tumblr.com.

  • saanset

    achei vago =( achei que vcs dariam umas dicas pras meninas que sofrem com baixa estima e sempre estão com medo de fazer as coisas, e isso só piora a estima delas…uma dica é vcs conversarem com uma psicologa sobre. Principalmente sobre tentar coisas novas e nao ser bem sucedida, que sempre implica da pessoa ficar frustrada, mais triste, menos corajosa e mais medrosa. infelizmente nem todo mundo encontra coragem do nada sabe? hahaha espero que vcs entendam, acho que seria maravilhoso isso na ‘revista’ 😉

    • Verônica Vilela

      É uma pena que não tenha atendido suas expectativas. Oq rola é que realmente é um artigo bem pessoal, é “como EU aprendi a ser uma mina radical e corajosa” e nao “como ser uma mina radical e corajosa”. Eu to pondo minha experiência e minhas reflexões sobre o medo na mesa, na expectativa que isso possa ajudar alguém. É muito simples também todo problema que aparecer na vida de uma adolescente você vai lá e fala “conversa com sua psicologa”, as coisas não são bem assim. Caso seja o caso da mina estar experienciando algo muito forte como uma crise de pânico ou uma fobia, algumas materias que sairão esse mês talvez poderão ajudar nessa direçao que você insinua. Uma matéria inclusive ja saiu, da Mazô, da uma olhada : http://www.revistacapitolina.com.br/medo-nao-e-nada-pessoal-mas-e-tudo-pessoal/

      • saanset

        verônica, eu não achei ruim o texto, não foi uma crítica ruim, só sugeri algo que eu achei que poderia complementar, só isso! achei a ideia muito legal, por isso quis sugerir algo que pudesse tornar ainda melhor na minha visão! desculpa de verdade se eu ofendi você de alguma forma.

        • Verônica Vilela

          nossa gata, me desculpa você se eu soei de qualquer forma ofendida ou sei la! Eu achei sua sugestao super valida, mas eu nao conseguia ver ela se encaixando no meu texto especificamente, e tentei te explicar o porque. Da uma olhada depois na materia da Mazô que eu falei, a edição desse mês é toda sobre o Medo então sem duvidas outras garotas vão se aproximar dessas suas sugestoes (:

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  • G.

    Parabéns, Verônica. Conheci recentemente sua página “Inventários de tipos humanos”, vim buscar mais trabalhos seus e seu talento me impressionou. Me inspirou. Bagunçou alguma coisa em mim. Espero que continue compartilhando sua inspiração conosco. Obrigada por sua arte.

    • Verônica Vilela

      (: (: (:

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  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Quase a história da minha vida, tirando que ainda não encontrei a coragem

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