16 de outubro de 2015 | Saúde | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Como funciona a saúde em outros países?

Quem se arrisca a ter atendimento universal em saúde?

Migas, já falamos aqui sobre como o SUS é um sistema com características únicas no mundo, mas nós brasileiros estamos sozinhos nessa de tentar um sistema de saúde acessível para todos? Claro que não. Separamos alguns exemplos de países que possuem sistemas universais considerados entre os melhores desse nosso planeta. Vem com a gente conhecer um pouquinho deles:

Reino Unido

O sistema de saúde britânico é um dos mais tradicionais, e é exemplo de atenção básica no mundo. Foi criado depois da Segunda Guerra Mundial e o SUS inclusive se inspirou em muitos de seus princípios, por isso o sistema de saúde do Reino Unido é considerado quase como um “pai” do nosso. Há uma ligação muito mais pessoal entre médicos e usuários do sistema, as consultas tendem a ser sempre com os mesmos profissionais e no bairro dos pacientes (o que pretendemos aqui com a Estratégia de Saúde da Família). Lá o NICE (agência de saúde britânica) decide quais medicamentos e tratamentos serão incorporados ao atendimento ou não, avaliando o “custo-benefício” do prolongamento da vida dos pacientes. No Brasil, muitas drogas e assistências de alto custo são assegurados pelo SUS através de processos judiciais, o que é considerado por muitos uma “sobrecarga” no orçamento do setor. No Reino Unido, a participação dos planos de saúde é vista mais como algo voltado para “luxos”, como quarto particular e reprodução assistida. O acesso costumava ser universal de fato, mas recentemente começaram a cobrar pelo atendimento de estrangeiros que não pertencessem à União Europeia.

Canadá

Nos nossos vizinhos do Norte os caminhos para uma saúde universal vem sendo traçados desde a década de 60. Lá os médicos não são funcionários públicos, apesar de pagos pelo governo, já que os atendimentos são de financiamento público. Pobres e ricos são atendidos igualmente pelo mesmo sistema, financiado através de recolhimento do imposto de renda (quem tem maior renda, paga mais, que tem renda menor, paga menos). Mesmo quando há a necessidade de se recorrer uma clínica privada o pagamento é feito pelo governo. A vantagem de se ter um sistema realmente único (sem a concorrência dos atendimentos particulares), é que todos recebem o mesmo tratamento, independentemente de ter condições financeiras ou não de pagá-lo (o que não acontece no Brasil devido à presença dos planos privados de saúde e oferta de tratamentos de alto custo não cobertos pelo SUS). Os canadenses consideram o seu sistema de saúde um símbolo do país.

Suécia

A implantação da universalidade do sistema de saúde sueco teve início na década de 50, como parte do projeto de uma série de ações sociais do partido Social Democrata. A Suécia inclui em seu sistema de saúde tratamentos e medicamentos de ponta, mesmo que custem para o país um alto preço. A equidade é um dos destaques, não importando a condição social do paciente. O país é reconhecido pelo esforço em prol do bem estar de sua população e pelo investimento em atenção básica de saúde, mas também é, hoje, uma das nações com maiores cargas tributárias no mundo.

França

O sistema de saúde dos franceses foi eleito o melhor do mundo pela OMS (Organização Mundial da Saúde) em 2000 e é financiado pelo Estado através do seguro nacional de saúde (que é obrigatório para toda a população). Muitos atendimentos são feitos pela iniciativa privada, mas, em sua larga maioria, são reembolsados pelo governo. Vale destacar que o atendimento é “universal” apenas para aqueles que residem legalmente no país.

Espanha

O projeto de seguridade social espanhol teve início lá na década de 30 e veio se consolidando através dos anos. Uma das marcas do sistema dos espanhóis é a garantia de atendimento (se você não consegue ser atendido no setor público, o governo é obrigado a providenciar assistência no setor privado) e os mecanismos de comunicação com os pacientes (como mensagens avisar sobre consultas e vacinas). O sistema é focado em dois níveis: atenção básica com medicina da família e atenção especializada nos hospitais. Financiado através de impostos, o sistema de saúde da Espanha conta com seguridade especial para funcionários do governo, o que faz com que não seja completamente universal.

 

Mas o que temos de diferente? Por que aqui não é assim? Por que não estamos entre os melhores em atendimento universal de saúde no mundo? Calma, miga. Vamos chegar lá. É preciso notar que todos esses países gastam, em média, de 7 a 11% de seu Produto Interno Bruto (PIB) com seus sistema de saúde, e, à exceção do Canadá, possuem dimensões de território muito menores que o Brasil, que dedica apenas 4,7% do seu PIB para o SUS. Fazendo uma conta muito simples, dá pra ver que isso quer dizer muito pouco dinheiro para assegurar atendimento integral de saúde para cada brasileiro.

Segundo dados recentes do Ministério da Saúde, entre os países com acesso universal à saúde, o Brasil possui o menor porcentual de investimento público em relação ao Produto Interno Bruto. Vale lembrar ainda que na maioria dos países com acesso universal à saúde, este atendimento é restrito aos cidadãos daquela nação. Já no Brasil qualquer um pode ser atendido – turistas, estrangeiros residentes aqui e até imigrantes ilegais.

Em todos os países apresentados ainda há filas de espera, é claro, e até alguns casos de dificuldade de acesso a atendimento. No entanto, dá pra perceber claramente que quanto maior o financiamento por cada habitante, maior a possibilidade de um sistema ser realmente universal.

 

Iane Filgueiras
  • Colaboradora de Saúde

Iane Filgueiras, 25 anos, de São Gonçalo - RJ, é mestranda em mídia, com pesquisa voltada para comunicação e saúde. Tem vários desejos, pouco dinheiro, e muito trabalho. Sentimental, faladeira e ansiosa até o último fio de cabelo. Prefere um bom filme/série na TV com balde de pipoca e edredom a quase qualquer coisa. Tem gostos ~~infantis~~, mas é com eles que se sente mais feliz. Sonha em ir à Disney, mas nunca quis ser princesa.

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