24 de outubro de 2015 | Literatura | Texto: | Ilustração: Helena Zelic
Como identificar o texto? Alguns mitos sobre a poesia e a prosa

“As coisas têm peso, massa, volume, tamanho, tempo, forma, cor, posição, textura, duração, densidade, cheiro, valor, consistência, profundidade, contorno, temperatura, função, aparência, preço, destino, idade, sentido. As coisas não têm paz.”

Arnaldo Antunes, “As coisas”

Tudo nesse mundo se classifica em alguma coisa: arranjamos nomes para explicar diferentes formatos, tendências, aparências, etc. No mundo das letras também não seria diferente. Os textos, cada um escrito de uma forma, se classificam dentro dos chamados gêneros literários, ou seja, estão dentro de determinadas formas literárias preestabelecidas.

A classificação de textos em gêneros literários é um assunto bastante debatido desde muito tempo. Tudo começou – como já era para se desconfiar – com os filósofos Platão e Aristóteles. Depois deles, visheee, muita gente também já discutiu a questão da classificação dos textos dentro desses gêneros. Mas de maneira geral, é entendido que os textos se classificam como líricos, narrativos e dramáticos. Hoje vou falar um pouquinho sobre os textos líricos e narrativos.

Gênero Lírico

Os textos líricos seriam, basicamente, os textos escritos em formato de poema, ou seja, feitos em versos. É claro, existe uma quantidade insana de formas que eles podem aparecer: hinos, canções, haicais, sonetos, etc. Neste gênero, os sons e as imagens que se formam pela combinação das palavras são elementos centrais para a compreensão da mensagem que se quer transmitir. Ah, e aliás, no poema, o objetivo não é apenas transmitir determinada mensagem ou informação; no poema, o objetivo principal é produzir poesia. Agora complicou, né? Poesia não era a mesma coisa que poema?

É muito comum usarmos poesia como sinônimo de poema, mas a verdade é que uma coisa é beeeeem diferente da outra. Poema seria a forma estrutural, o conjunto das estrofes e versos; poesia seria aquela espécie de mágica, aquelas borboletinhas no estômago, aquela sensação de deslumbramento que sentimos quando lemos o poema. A poesia não é palpável, não é visível. Tanto é que a poesia não se limita apenas ao gênero lírico: podemos encontrar poesia em textos narrativos também. Na verdade, podemos encontrar poesia em todo lugar. Prova disso, por exemplo, é quando utilizamos a palavra “poético” para falar sobre algumas coisas, como “achei aquele filme poético”, “o momento foi poético”, “ela fala de jeito poético”.

Que complicação!

Vou tentar explicar isso como um dia uma poeta portuguesa chamada Sophia de Mello Breyner Andresen, em seu texto “Poesia e realidade” tão maravilhosamente explicou. Segundo a escritora, Poesia – ela escrevia assim mesmo, com “p” maiúsculo – é algo que existe na realidade independente da existência do homem. Como ela disse: há Poesia pairando no jardim de uma casa abandonada, nos anéis de Saturno. E ela existe mesmo que a gente não a perceba. Bonito, não?

Gênero narrativo

Apresentado o gênero lírico, vamos partir para o gênero narrativo, a boa e velha prosa. Se na lírica tínhamos versos e estrofes, na prosa já temos os parágrafos, os períodos, etc. E se na lírica também podemos achar uma quantidade enorme de formas de fazer poemas, no gênero narrativo o negócio fica mais complicado: temos aqui os contos, as novelas, as crônicas, os romances, as fábulas, os ensaios… E muitas vezes esses textos, principalmente os contos, romances e crônicas, costumam ser diferenciados entre si pelo tamanho do texto. Aquela coisa: passou de tantas páginas é um romance; menos de tantas páginas é um conto; se for bem curtinho, então, é crônica. Mas, pera, quer dizer então que é só uma questão de tamanho? Bom, podemos dizer que o tamanho influencia sim, mas também não há como dizer que é só ele que nos indica o tipo do texto. O tamanho, na verdade, em vez de ser o elemento determinante para classificarmos os textos é apenas algo consequente ao que estes tipos de texto – o conto, a crônica e o romance – intencionam tratar. Bom, vamos lá:

Começando pelo conto: o conto seria, segundo o escritor argentino Julio Cortázar no seu texto “Alguns aspectos sobre o conto”, uma história suficiente para lermos “numa sentada só”. Ou seja, o conto tem que ser um texto que se baste, que se complete, e que nos prenda a atenção desde o seu início até o seu fim. Uma outra forma interessante que o escritor utilizou para explicar isso foi por meio da comparação do conto com uma fotografia e do romance com um longa-metragem. Tanto no conto quanto na fotografia, o autor e o fotógrafo apresentam obras compactas, concentradas num momento curto, num único episódio. Já no romance ou no longa-metragem a história acontece de forma mais descentralizada, com vários episódios e muitos acontecimentos narrados.

As crônicas, por outro lado, são textos que possuem uma ligação com jornais e revistas. E assim como os textos jornalísticos, que têm um formato reduzido, elas também deveriam ter tamanho suficiente para serem lidas numa simples viagem de metrô, trem, numa passada de olhos nos jornais. São textos ainda mais compactos, que tratam de acontecimentos efêmeros, que não são tão alongados como as histórias dos contos e dos romances. Mas isso não significa que as crônicas sejam menos complexas do que os contos ou dos romances: o tamanho do texto, de forma alguma, indica o valor e a complexidade do assunto, tema ou mesmo da qualidade da leitura.

Enfim, classificar coisas, como textos, não é tarefa simples. Fazemos isso geralmente para poder estudar melhor, entender melhor sobre eles. Mas, muitas vezes, caímos na velha e triste padronização: quando classificamos sem pensar muito na complexidade dos objetos, acabamos por vezes a reduzi-los – encaixotá-los em gavetinhas, ignorando toda a coisa mágica e envolvente que os textos podem conter. Legal seria se pensássemos que, sim, existem os gêneros, existem os mecanismos de classificação do mundo; e, sim, vamos problematizá-los. Talvez, só assim, estaríamos respeitando a ideia original de categorizar as coisas, que seria estudá-las e observá-las pelo o que elas são e não pelo o que queremos que sejam.

Marina Lazarim
  • Colaboradora de Literatura

Marina nasceu em abril de 1993 em São José dos Campos, no interior de São Paulo. Seu endereço é desmembrado: um pedaço lá em São José, um bocado na capital de São Paulo e o restante em João Pessoa. É estudante de Letras na USP e adora poesia portuguesa. Marina prefere o verão ao inverno, gosta de signos de água, não dispensa a sonequinha da tarde e não hesita em trocar qualquer refeição por uma bela sobremesa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos