24 de janeiro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Isadora M.
Como lidar com ciúmes

 

Vamos começar com uma enquete: Como você lida com ciúmes?

a) Não lido, sofro muito e morro.
b) Disfarço até que passe.
c) Faço a Taylor Swift no clipe de Blank Space.
d) Converso abertamente.
e) Reconheço que a pessoa não é minha propriedade, racionalizo e deixo pra lá.
f) Desconheço esse sentimento.

Se você respondeu A, B, C, D, E, F ou não se identificou com nenhuma das opções acima, significa que você é uma pessoa completamente normal! Não vou enganar vocês: não existe uma maneira padrão de viver esse sentimento, nem uma fórmula para lidar com ele. Mas há esperança se a gente entende de onde esse ciúme vem e tenta racionalizá-lo. Vou focar aqui em relações tipo namoro, mas, no geral, funciona pra amizade também.

A primeira coisa que precisamos considerar é que o ciúme não é necessariamente parte das relações. Só que a gente aprende o contrário. Pode reparar: nas tramas de filmes, novelas, séries etc., diversas histórias românticas são desenvolvidas a partir do ciúme. Muitas vezes, o próprio mote da narrativa do casal é o ciúme. Também rolam aqueles momentos em que a personagem (normalmente, a menina) provoca ciúmes no cara de propósito, pra que ele lhe dê valor. E sabe o que isso faz? Isso ensina pra gente que ciúme é prova de amor ou de interesse – muita gente chega até a duvidar do amor dos outros quando vem desacompanhado de ciúme! –, e nos faz crer que, se uma pessoa gosta mesmo da gente, ela nos quer como posse. E peraí, né, vamos voltar umas casas aí, porque ficou problemático.

Pessoas são indivíduos, não são coisas que podem pertencer às outras. Mesmo que a relação seja monogâmica, trata-se de um acordo de exclusividade física e emocional entre dois indivíduos, logo, ser fiel nesse contexto é uma questão de respeito ao acordo e não uma afirmação de propriedade. Ninguém virou dono de ninguém. Tratar outra pessoa como posse é uma ideia que nos é vendida como romântica, mas, na verdade, nos priva e controla e abre margem pra relacionamentos abusivos. Marcação de território não é prova de amor, é apenas sentimento de posse. E é por isso que eu acho que a primeira coisa da qual precisamos nos libertar em relação a ciúme é essa ideia de que ele é sintoma de amor, quando, na verdade, é uma manifestação de posse.

Nada disso quer dizer, no entanto, que sejamos monstros abusivos por sentir ciúmes, afinal de contas, não é uma escolha racional. O importante é reconhecermos “a natureza” desse sentimento para conseguirmos lidar com ele sem danos colaterais. Sentir ciúmes é perfeitamente normal, até porque, como já comentei, nós crescemos aprendendo que isso faz parte da relação, que significa que gostamos mesmo e somos mesmo gostados e aprendemos até que dá uma apimentada. Li uma vez sobre um povo que simplesmente não conseguia entender o conceito de ciúme, de tão distante da realidade deles que isso era! (Não lembro onde foi que li isso, por favor, comentem se souberem!) Nós estamos muito distantes, culturalmente, de um povo como esse. Vejo por aí que até pessoas que vivem relações poliamorosas sentem ciúmes de vez em quando. O que muda é o que a gente faz com isso, como a gente se relaciona com isso e o quanto nos deixamos afetar por isso. Em suma, para conseguir lidar com o ciúme, é preciso reconhecê-lo em nós mesmas e sermos honestas em relação a ele. Fingir que não existe só serve pra incubar a coisa (e dizem que guardar emoções assim dá câncer).

 

Acredito que, além do sentimento de posse (talvez mais difícil de admitir), o que nos provoca ciúme em relações afetivas é a insegurança. Essa insegurança, por sua vez, pode ser fruto de uma série de coisas, como problemas de autoestima, falta de confiança na vida por conta de experiências passadas, falta de confiança na pessoa por conta de experiências passadas, ou simplesmente medo da perda. Quando estamos inseguros, qualquer coisinha nos desperta a paranoia de que o pior pode acontecer. E aí, vemos a pessoa passando muito tempo com outra, conhecendo uma nova colega no curso e falando demais dela, abraçando demais a amiga, mandando “feliz aniversário” pra ex no Facebook (“por que ele mandou o emoticon com olho piscando???”; “quem é que tá mandando whatsapp essa hora???”; “por que visualizou minha inbox e levou dez minutos pra responder???”), e ferrou, achamos que, por dar um mínimo de atenção a alguém que não nós, ela está nos dando menos atenção, demonstrando menos interesse, dando menos provas de amor. Sem querer alimentar a paranoia de ninguém, pode até ser que seja isso mesmo, mas não necessariamente. Nossa insegurança planta umas sementinhas muito prolíferas na nossa cabeça e acabamos vendo coisa demais onde não tem e transformando miudezas ridículas em verdades mundiais.

Em momentos assim, precisamos reconhecer acima de tudo que o ciúme é nosso, não é exatamente um problema da outra pessoa. Se seu/sua companheiro/a está fazendo algo que te desperta ciúme e te magoa, cabe sentar e conversar, explicar seu lado e pedir pra que a pessoa seja mais cuidadosa com essa sua sensibilidade. Mas o sentimento é seu, então, cabe também racionalizar e tentar entender de onde vem esse ciúme e se ele é mesmo justificado. É tudo neurose da sua cabeça ou ele/a está mesmo interessado/a em outra pessoa? E, se está interessado/a em outra pessoa, isso significa que não está mais interessado/a em mim?

Pessoalmente, costumo guardar meu ciúme pra mim, porque entendo que a pessoa é livre e que o que vale é o que ela é comigo, e não o que ela faz tempo livre dela, quando não estamos juntas. Acho que tenho todo o direito de sentir ciúmes, mas não me sinto no direito de limitar o espaço do/a outro/a. Ao mesmo tempo, conheço também os meus próprios limites e, por isso, acharia um absurdo se uma pessoa que está envolvida comigo ficasse com outra na minha frente, por exemplo. Mas aí, no caso de relações abertas, isso também é conversável: os limites de cada um. Relações abertas são transgressoras por si só – vão contra todo um sistema do que é considerado “normal” em relações afetivas – então, é sempre bom lembrar que todos e todas os/as envolvidos/as estão desconstruindo ideias arraigadas. Por isso, é normal ter recaídas aos padrões e é importantíssimo negociar os próprios termos de cada relação.

 De uma forma ou de outra, o que mais vale aqui é não ficar sofrendo. Se você está em uma relação que te deixa enlouquecida de ciúme e te mantém em um estado permanente de desconfiança em que não dá pra descansar, isso precisa ser resolvido. Seja por motivo concreto ou por simples insegurança, uma relação assim não é saudável nem para você nem para a outra pessoa. Sendo assim, vou arriscar dizer que a melhor maneira de lidar com o ciúme é aceitar que é normal senti-lo, com muito cuidado pra não cair na paranoia de ficar encucando com isso o tempo todo. Um bom relacionamento não pode ser constantemente marcado por crises de ciúme. Se você vive preocupada, transtornada, surtando 24 horas por dia, bem, talvez esse não seja um bom relacionamento, pois algo que te deixa nesse estado emocional frequente não está te fazendo bem, então, é melhor ficar sozinha. E, no fim, é isso: relacionamentos amorosos devem ser prazerosos. Dificuldades existem, claro, mas nós merecemos estar ao lado de alguém que torne a vida mais leve – e não mais pesada, quando não tem que ser. E, se a pessoa não faz nada de errado e o ciúme é todo exagero da sua cabeça, respira, conversa com amigos/as, com terapeuta, pra tentar melhorar isso internamente e não acabar prejudicando uma relação que tem tudo pra ser ótima.

Tags: , ,
Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

  • Isabella

    Namoro a distância e super confio no meu namorado, por consequência não sou de ter ciúmes e quando sinto acabo sempre repetindo “meu mantra”: Ele tem uma vida, assim como na minha existe outras pessoas na vida dele. Mas ao contrario de mim ele tem umas crises de vez em quando, acredita que uma vez ele me mandou uma imagem que dizia que só ama de verdade quem tem ciumes? Acho que, como você falou no texto, muita gente aprendeu que ciúmes é prova de amor e para enfiar na cabeça dessas pessoas que não é bem assim, é um pouco complicado.

    Adorei o texto e com certeza vou mostrar ao meu namorado 😉

    • Luiz Felipe

      Sensacional, Isabella. Também tô num rolo à distância e acho, que no meu caso, o ciumento sou eu. Às vezes sou chato, mas só comigo mesmo, mas nunca demonstrei isso, nem demonstrarei, porque temos tudo pra dar certo, e vou continuar não sendo chato e nem penso em controlar os passos dela. Costumo dizer que se ocorrer alguma traição, dela, a infeliz foi ela. Eu dei o meu melhor, eu fui leal, e isso é o que importa.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos