16 de junho de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Como lidar com escolhas de vida (ou quase isso)

O futuro é realmente um lugar medonho. Ele é medonho porque existem mais de vinte mil novecentas e noventa e duas possibilidades de futuros, e olha que isso já é coisa pra caramba. E não bastasse as mais de vinte mil novecentas e noventa e duas possibilidades de futuro, ainda temos que levar nas costas o fato de todas elas serem escolhas nossas e somente nossas. Ok, talvez tenha uma pitadinha de acaso, mas o que a gente faz com o que a vida traz ainda é nossa escolha, então o futuro está mesmo em nossas mãos.

Isso pode ser lindo. Saber que somos nós que fazemos o que queremos das nossas vidas e ninguém pode meter o dedo é não só lindo como libertador. Mas também dá um pavor desgraçado. Por que, gente, e se algo der errado na minha vida? E se eu não passar no vestibular? E se eu não acertar a escolha da minha faculdade? E se eu não conseguir um trabalho bom? E se eu recusar essa oferta de emprego e não tiver outra melhor? E se, e se, e se?

Somos ensinadas desde cedo que temos que ter essa vida perfeita. Que vamos passar na melhor faculdade com 17 anos, se dar muito bem lá, tirar só notas altas, quem sabe conseguir um intercâmbio ou uma iniciação científica, se formar com louvor, ingressar em um trabalho ótimo que nos deixa feliz e paga bem, seremos reconhecidas no trabalho de maneira que aos trinta já teremos uma função importante na empresa (porque, de acordo com esse modelo, devemos trabalhar em empresas). Nesse meio de caminho, encontraremos um cara lindo e maravilhoso que também está seguindo essa mesma história e será amor à primeira vista. E, então, morar juntos, casar, ter filhos etc. Parece que nossa vida já está toda planejadinha, mas bem sabemos que, na prática, não é nada assim.

Na realidade, as coisas são muito mais difíceis do que na teoria – e se deparar com isso dói muito. Ainda mais para nós, que crescemos escutando que precisamos ser perfeitas.

No primeiro ano do Ensino Médio (pelo menos, na minha escola foi assim), os professores já te chegam perguntando: Mas o que você quer cursar de faculdade? Faltam três anos (pensando naquele plano ideal em que não repetiremos o ano) para eu me formar e vocês já me perguntam o que eu quero?! Às vezes parece até desacato. E essa pergunta só se torna mais e mais frequente. Parece que o tempo está se esgotando (mesmo quando ainda faltam no mínimo três anos pela frente) e, de repente, você está no terceiro ano do Ensino Médio e ainda não tem a menor ideia do que fazer com a sua vida.

A pressão vem de todos os cantos. Os professores só sabem falar em vestibular, seus pais te perguntam disso toda a noite, seus amigos vivem comentando sobre o assunto, todos os parentes quando te encontram fazem a fatídica pergunta, até mesmo quando você conhece pessoas novas elas vão te perguntar a sua escolha acadêmica e profissional. E não bastasse tudo isso, a pressão também vem de você que, desesperada, sem saber aguentar toda esta insanidade, se pergunta: Mas o que eu quero?

O pior é que isso tudo não passa depois que você entra na universidade. Porque o futuro está sempre aí pra te assombrar e o medo de fazer escolhas “erradas” nos assombra sempre. Mesmo nós, da Capitolina, morremos de medo e temos inúmeras crises de ansiedade em relação ao futuro. E é por isso que estou aqui, para dizer que calma, vai ficar tudo bem. Mas para ficar tudo bem, não dá para surtar (tanto). E é por isso que vem aqui uma dica de como organizar os seus pensamentos –e também as vinte mil novecentas e noventa e duas possibilidades de futuro.

Lá no sexto ano, meu professor de Ciências nos ensinou a fazer mapas conceituais, que são basicamente uma série de conceitos (quaisquer que fossem) que se conectam de alguma forma. Naquela época, os conceitos eram sobre fotossíntese e coisas do tipo, mas este tipo de mapa pode servir basicamente para qualquer coisa. Até mesmo para pensar sobre o futuro. E é isso que vou ensinar vocês a fazer: um mapa conceitual sobre decisões futuras.

Comecei a desenhar este mapa no meu primeiro ano de faculdade (quando tive minha primeira grande crise de “mas o que eu quero?”) e, desde então, o faço sempre que me sinto encurralada com decisões sobre o futuro. Ele não é fácil de fazer e você tem que ser completamente honesta consigo mesma, mas o que percebi é que, de tempos pra cá, com a ajuda desses mapas, comecei a ter um foco muito maior (mesmo que ainda não tenha decidido por completo o que quero). Assim, se você está com qualquer tipo de crise de escolhas (como não saber o que quer prestar no vestibular), você pode muito bem sentar com calma, pegar papel, canetas de muitas cores e começar a esboçar as possibilidades de coisas que você quer.

Porque este mapa é legal?

Enquanto você esboça o mapa conceitual, milhões de ideias surgem na sua cabeça. Desde coisas como fazer faculdade de Direito até coisas como aprender uma dança típica da Papua Nova Guiné. Todas essas coisas são legais de colocar no mapa, por mais que aparentem não fazer sentido nenhum. Você pode colocá-las como coisas de maior ou menor importância, mas é sempre bom escrever tudo.

Também é importante ter em mente que, exatamente porque as ideias surgem ao longo da elaboração do mapa, muito provavelmente você terá que refazê-lo – pelo menos uma vez – para que as ideias estejam todas organizadas no espaço da folha de papel (eu, particularmente, faço de dois a quatro mapas até ter o final). O bom de ter que repetir é que, assim, você dedica mais tempo às suas escolhas e, ao ter que organizar tudo o que quer em um plano espacial, você percebe que muitas das coisas que você quer se conectam – e você pode encontrar coisas que juntem dois ou mais interesses seus (ou até mesmo que juntem todos os seus interesses, vai saber). Isso facilita muito na hora de fazer a escolha em si.

É claro que não significa que o mapa conceitual vai dar a resposta para a sua vida. Na verdade, é muito provável (ainda mais sendo o primeiro) que só te mostre que você quer muitas coisas. Mas, aos poucos, você vai olhar para tudo o que está escrito e riscar algumas possibilidades, juntar outras, ou mesmo perceber que existe um padrão nos seus interesses (e esse padrão pode ser exatamente algo que você queira estudar na faculdade ou um tipo de trabalho que seja mais a sua cara). O importante é ter isso em mente: o mapa conceitual é para te ajudar a organizar as suas ideias, não para te dar a resposta do mistério do universo.

Então, vamos ao trabalho!

Para fazer o mapa conceitual você vai precisar de papel, canetas de muitas cores e tempo. Só.

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A primeira coisa a se fazer é colocar uma pergunta bem grande, em uma cor bem chamativa, no meio ou no topo da folha (depende de quantas possibilidades você pensa – se forem muitas, aconselho começar no meio): Mas o que eu quero?

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Depois de colocar essa pergunta, pegue outra cor de caneta e comece a anotar suas principais ideias do que quer para si. Agora vale tudo! De física a artes plásticas. O importante é você ser completamente sincera consigo mesma.

Para esta demonstração, vou usar as ideias que tinha quando fiz meu primeiro mapa, mas, a partir de então, tudo o que for escrito é ideia sua. No meu caso, eu me interessava pelas áreas de literatura, jornalismo, educação, teatro e artes plásticas – então, foi isso que
anotei.

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Depois de colocar suas ideias principais no papel, está na hora de destrinchá-las. Assim, escolha uma nova cor e deixe a sua mente fluir: o que cada uma dessas áreas pode fornecer que você se interessa? Tente começar com coisas mais simples (porque é a partir de agora que começa a verdadeira bagunça).

Provavelmente, algumas das áreas que você escolheu não terão tantas coisas que realmente te interessem…

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Outras, podem ter milhões de coisas! Quando for este o caso, faça sempre o mesmo esquema: use uma cor para uma primeira divisão e, quando for abrir as novas possibilidades, pegue novas cores. Por exemplo, no meu caso, muitas coisas me interessavam na área de literatura, então coloquei em roxo as três grandes divisões que me interessavam mais: não-ficção, ficção e poesia. Depois, pensei o que compõe cada uma delas eu gostava e escrevi em preto.

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Faça isso para cada uma das casas.

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Depois disso, pense onde você pode exercer essas opções – ou pelo menos algumas delas. Por exemplo, na parte de educação, se eu fosse professora, eu poderia ser do Ensino Fundamental, Ensino Médio ou da faculdade. Assim como poderia ensinar mais de uma língua.

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Agora que você abriu todas as possibilidades que te agradam, afaste-se um pouco e tente olhar tudo com um olhar mais analítico.

Procure padrões nas opções que pensou: o que elas (ou parte delas) têm em comum? Pode ser um ambiente de trabalho, tipo de gente ou mesmo um sentimento que te é causado ao fazer alguma dessas atividades. Muitas vezes também é possível que uma ou mais ideias apareçam em duas áreas diferentes. Isso é bom, pois deixa mais fácil de perceber um padrão.

Marque esses padrões no seu mapa conceitual com uma nova cor.

No meu caso, marquei em verde escuro tudo aquilo que percebi que se repetia de alguma forma (a maioria ligada a artes).

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Depois, pense: mas que padrão é esse?

No caso meu caso, percebi que tudo relacionado ao teatro era ligado à energia da coxia.

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E o que era da área mais acadêmica sempre estava relacionada ao contexto histórico-social e à cultura.

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Depois, tente encontrar pontes entre suas ideias. Por exemplo, é possível relacionar jornalismo com o gênero de não-ficção ou juntar literatura com artes plásticas se pensarmos em quadrinhos. Procure no seu mapa essas relações, provavelmente terão muitas (algumas que você nem fazia ideia).

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Depois disto, seu mapa vai estar mais ou menos assim

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Agora, depois de tudo feito é hora de respirar fundo. Feche os olhos, dê uma aliviada e volte ao papel. Seja sincera consigo mesma: o que de tudo isso parece mais interessante pra você? Tudo bem ser mais de uma coisa, mas com certeza não será tudo. Pense com cuidado, olhe todas as opções que você mesma escreveu. O que você se vê fazendo? O que te deixaria mais feliz? Marque essas coisas com uma cor bem chamativa.

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Agora é hora de sair do papel. Não importa quantas coisas você marcou como mais importantes de todas, é hora de focar nelas! Seja como escolha de curso no vestibular, aplicação para algum trabalho, cursos extracurriculares, etc. Agora que você já tem alguma noção da sua preferência, mergulhe de cabeça!

Isso não quer dizer, é claro, que você tem que abandonar todas as outras atividades que gosta. A questão é entender o que é um hobby e o que não é. Ou coisas que você percebe que pode fazer depois, dando enfoque ao que te parece mais sensato agora.

Você também pode fazer esse mapa conceitual sempre que achar necessário, sempre que precisar ter uma visão um pouco mais analítica (e ao mesmo tempo sincera) das suas escolhas. E isso é só seu.

E não se esqueça: você tem tempo. É só respirar fundo e caminhar com calma. Como diz a música de Walter Franco, tudo é uma questão de manter a mente quieta, a espinha ereta e o coração tranquilo.

 

Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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  • Talita Cumme

    Eu já fiz isso uma vez no terceiro ano. Era um quadro maluco, cheio de setas, um plano de vida num pequeno pedaço de papel. Tinha na mente muitas profissões cursos. Mas, fiz Ciências Sociais, pois era apaixonada pela Sociologia. Porém, quando estava no segundo semestre, resolvi fazer o vestibular novamente, e escolhi Serviço Social. Olhando para o “hoje”, o “agora”, esse é o curso, o qual me encanto a cada dia.

  • Bjork

    Agradabilíssimo! ?

  • Fernanda

    Estou no primeiro ano do ensino médio, e foi nesse fatídico ano que eu me toquei que eu estou viva. Pera, deixe me explicar.
    Eu sempre tive esse conceito (que eu acho que é influenciado pelo sistema de ensino, o que não é nada legal) que a vida fosse composta de várias etapas pré-selecionadas. Okay, terminei o Ensino Fundamental, depois vem o Médio, a faculdade, o trabalho, o casamento, os filhos e a morte. Foi muito recente a minha súbita consciência que eu posso fazer literalmente qualquer coisa com a minha existência. Que eu vou viver alguns aninhos aqui na Terra, decidindo completamente sozinha as minhas escolhas. É como encarar um abismo, repleto de incertezas e possibilidades, e, por mais que seja interessante o pensamento de sermos seres independentes, é MUITO ASSUSTADOR pensar que um dia, deixaremos de existir e acabou, é isso aí.

    Às vezes eu fico meio chateada ft. bolada com algumas coisas que eu acho que a própria escola te ensina. A falta de independência. Eu nunca pude escolher as minhas áreas de interesse durante toda a minha vida acadêmica, e de repente querem que eu desvende sozinha de um dia para o outro o meu futuro?

    Opa, olha um textão. Deixando minhas crises existenciais de lado, mais uma matéria incrível da Capitolina, essa iniciativa gostosa e maravilhosa e amorzinho <3

  • Pingback: As gentes da literatura infantil, como sobrevier a elas e um voto pela polêmica | Clara Browne()

  • http://perspectivasnovas.blogspot.com Adeisa Emanuelle

    Depois de estar dentro da faculdade a gente pensa que a pressão vai ser menor, que nada! Me senti muito melhor com suas palavras, Clara. Obgd <3

  • Gabi

    Capitolina! Tive uma revelação agora! haha Consegui identificar o que me atrai igualmente em quatro áreas diferentes. Descobri que a “energia” de todas é “expressão”. Faz sentido, uma vez que sempre fui muito tímida e reservada, e que a arte e a escrita funcionaram para me mostrar ao mundo. Muito obrigada por esse artigo maravilhoso! <333

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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