31 de maio de 2014 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração:
Como lidar com influências negativas
Ilustração de Hanna Seabra

Ilustração de Hanna Seabra

Você está feliz com as pessoas que fazem parte da sua vida no momento? Pense nos seus amigos, familiares, colegas de trabalho namorado(a)/noivo(a)/esposo(a)/rolo/ficante/amigo colorido/combinação do Tinder. Elas te fazem feliz? Se houver um “não” para essa resposta, você provavelmente tem uma influência negativa ambulante e isso está afetando a sua vida em algum nível. O objetivo desse texto não é encontrar uma resposta, mas apenas analisar as influências e, se puder, te ajudar a identificar uma delas, caso esteja ocorrendo em sua vida.

Falando por experiência própria, quando mantemos pessoas que exercem influências negativas em nossa vida, sempre teremos aquela energia pesada que nos afunda. Eu já tive gente assim em todos os departamentos da minha vida: família, faculdade, relacionamentos, amizades, etc.

Com a colaboração de uma amiga muito especial, formada em Psicologia, a Raquel Caldeira, eu farei um texto sobre essas influências negativas a partir da teoria da construção do self na psicologia comportamental, porém de forma superficial. Parece muito acadêmico, mas é simples: a construção do self seria a construção do seu “eu”. Para a construção do self saudável, são necessárias interações com os outros e com o meio, ou seja, as pessoas com as quais você convive e o próprio ambiente exercem influência direta em você.

Para uma interação maior e análise da frequências dessas influências negativas nos nossos leitores (ou não leitores), divulgamos um questionário com quatro perguntas padrão, além de um espaço aberto. As respostas aparecerão ao fim de cada seção do texto.

 Família

Primeiro deixa eu te dizer que sangue não é amor, não. Nem todo mundo tem o conceito de família muito bem internalizado, às vezes são apenas algumas pessoas que, por destino, dividem uma casa e são unidos pelo sobrenome. O problema maior é que a família é, supostamente, a base de tudo. Na construção do self, a família é o primeiro fator que surge como relevante, é a primeira interação social que aparece na vida da criança. É onde deveríamos encontrar o conforto que não encontramos na sociedade; estas são as pessoas que deveriam nos apoiar ao máximo e (tentar) nos entender.

Mas quando é a sua própria mãe que, discretamente, te coloca pra baixo? Muitas podem ser alvos constantes de críticas maternas como “você tá gorda”, “vai morrer solteira”, “esse seu cabelo tá um bagaço” e por aí vai. Ou o pai? É difícil ser humilhada pelas pessoas que te deram vida, a crítica dói mais, pesa mais na sua mente e por isso tem um poder muito mais devastador: afeta diretamente a sua autoestima.

O comportamento de cada membro da família deve ser visto como partes de um todo.1 A família é um todo e seus membros são as partes que o constrói. O comportamento de cada um afeta um ao outro por conta da constante interação e isso acaba por repercutir diretamente na vida do outro, que muitas vezes pode moldar um comportamento de resposta.

Participação dos leitores

Você já teve algum tipo de influência negativa vindo da sua própria família?

GRAFICO FAMILIA

 

  Amizades

Depois da família, o segundo círculo onde a pessoa passa a interagir é o de amizades. Talvez não sejam tão impactantes quanto as influências da família, pois não é tão comum que o mesmo grupo de amigos se mantenha por toda a vida. Há, claro, casos de amigos de infância, mas ainda assim, ambos farão amizades ao longo da vida nos mais diversos setores sociais no qual estará inserido: faculdade, trabalho, clube, igreja, cursinho, etc. Porém, as amizades também podem exercer uma influência negativa.

Você já teve uma amiga que parecia disputar a atenção dos meninos com você? E se, no caso, ela ganhasse, fazia questão de demonstrar pena por você? Ou ainda amiga que sempre vai criticar algo em você? O cabelo pode estar bom hoje, mas essa maquiagem tá boa não. E esse seu namorado? Um galinha, já me deu umas olhadas meio assim.

Eu já tive amizade do primeiro e do segundo tipo. Uma adorava dar em cima do guri por quem eu era absolutamente apaixonada na época de colégio (e que também teve um impacto negativo muito grande na minha vida por alguns anos) e, um dia em uma festa, um amigo desse guri veio fazer “ladinho” pra minha amiga. Imaginam como eu fiquei?! Na minha frente! Enquanto eu engolia o choro – afinal não era culpa da amiga –, a linda fez questão de triplicar a tensão do momento com discursos como “quem diria! O guri que tu gosta me quer!”. Agora me diz se isso é amizade? Eu me sentia feia, rejeitada. E isso me afetou por anos. Isso mesmo, anos! Toda vez que algum cara parecia estar interessado, eu já assumia que queria minha amiga, porque era óbvio que não seria eu. Jamais seria. Eles preferiam as minhas amigas.

Você acha saudável manter alguém que está sempre tentando te deixar mal? Pois eu mantive essa amizade por anos ainda e carreguei esse pequeno trauma por anos. Pode ter sido nada pra ela, mas teve um impacto muito grande em mim. Isso porque eu tinha meus 15 ou 16 anos e estava construindo quem eu me tornaria, era uma fase vulnerável, não era o momento de eu saber lidar com isso. Hoje eu sei e é por isso que posso te dizer: se afaste. Nada de bom virá de amizades assim.

 Participação dos leitores

 Você já teve amizades que estavam constantemente te colocando pra baixo?

Trabalho

Depois da escola/faculdade, onde costumam se firmar as amizades, o ser humano passa a integrar um outro ambiente: o trabalho. Sim, a prévia do inferno para alguns, um mal necessário para outros. Há um chefe. Você vai sentir falta daquele professor insuportável de física.

Brincadeira. O trabalho não é um ambiente hostil por natureza. O que ocorre em alguns casos é a constante humilhação – que não precisa ser pública –, menosprezando seu trabalho e competência. Não é à toa que trabalho é uma das maiores causas de stress2 hoje em dia.

O espaço do self, do indivíduo, que, até então, estava restrito à casa, ou seja, ao ambiente familiar, passou ser também o de trabalho.3 Ou seja: as relações de trabalho influenciam, seja de forma positiva ou negativa, a pessoa. Quando alguém no seu trabalho desvaloriza o que você faz e até mesmo quem você é enquanto profissional, a reação dificilmente será de se impor – especialmente se for o seu primeiro emprego –, mas sim de tomar aquilo como uma verdade e aceitar a influência negativa disfarçada de crítica construtiva.

Participação dos leitores

Você já sofreu com colegas de trabalho e/ou chefe tentando menosprezar seu trabalho?

 

Relacionamentos

Por mais estranho que seja, já que nesse setor a pessoa continua ao lado de alguém que a influencia negativamente por opção (assim como no caso das amizades), há um grande número de pessoas sofrendo nesse departamento, viu? Talvez porque nos enganemos para evitar que a verdade seja dita, porque não queremos aceitar que quem amamos nos manipule a tal ponto de nos influenciar tanto. A influência negativa, no contexto dessa matéria, é uma forma de abuso psicológico e emocional, que ocorre frequentemente por ser tão camuflado.

A pergunta é sempre: por que essa pessoa está comigo se faz tanta questão de me deixar mal? A resposta eu não posso te dar, infelizmente, mas posso te dizer que você vai ganhar muito mais se tentar sair dessa situação do que tentar entender os motivos. É difícil? MUITO, eu sei que é. Mas é necessário. Você merece alguém que tenha consciência do quão maravilhosa você é, alguém que se sinta feliz por ter você ao lado. Não soa muito melhor do que ter um ignóbil que te desvaloriza, te acha pouco? Muito melhor!

Participação dos leitores

E em seus relacionamentos amorosos?

 

Além desses campos, como apontado no questionário, as pessoas sofrem influência negativa no ambiente escolar, muitas vezes partindo do próprio professor. Também na mídia, geralmente impondo padrões inatingíveis. As situações são as mais variadas e todos nós podemos acabar sendo vítimas disso. Mas cabe somente a nós mesmos cortar essas fontes de influências negativas.

Você só deve manter em sua vida pessoas que exerçam influências positivas, que contribuam para o seu crescimento e que te apoiem. Quem tenta te desmerecer jamais vai te amar. Lembre-se que energia positiva atrai energia positiva! Escolha pessoas que te ajudem a carregar o peso da vida, não que te joguem mais alguns quilos nas costas enquanto te assistem cair aos poucos.

1. AGUIAR, Luciana. Gestalt-terapia com crianças: teoria e prática. Campinas: Livro Pleno, 2005.?
2. Mind é um site de assistência a pessoas com questões de saúde mental e emocional, inclusive stress (em inglês).?
3. TIAN, Kelly and BELK, Russel. Extended Self and Possessions in the Workplace. Journal of Consumer Research, v. 32, september 2005.?

Priscylla Piucco
  • Membro do Conselho Editorial
  • Coordenadora de Relacionamentos & Sexo

Priscylla. Apaixonada por seriados, kpop, reality show ruim, Warsan Shire e as Kardashians. Odeio o Grêmio e cebola. Prazer, pode chamar de Prih agora.

  • Lorena

    É preciso se afastar de tudo aquilo que não acrescenta nada de bom em nossas vidas. Só assim poderemos crescer com a felicidade em nós.

    Ótimo texto, Prih! E conhecendo você, sei que foi difícil escrevê-lo, porque conheço os lados da sua vida e sei de tudo que você já passou. Mas assim que se livrou de quem não soma, já tornou-se outra.

    • Priscylla Piucco

      Ai, só li esse comentário lindo agora ? obrigado, gatinha.

  • Lívia

    Achei super legal o texto! Só acho que algo que tá faltando mencionar nele é o diálogo. Principalmente quando se trata de família, o afastamento de influências negativas deveria acontecer apenas em última instância (afinal, é algo delicado se afastar de mãe/pai, por exemplo). Dialogar, colocar a situação de “Como vc se sentiria se alguém fizesse isso com vc?”, expressar suas reivindicações, falar “não gostei”. Se expressar diante da situação deveria ser o primeiro passo… Sei que é difícil pra muita gente, mas não custa nada tentar.

  • Cristiane

    Pessoas com depressão são influência negativa? O que fazer neste caso? Afastar-se da pessoa? Isso seria desumano…

  • Pingback: Links do mês #10: Janeiro - Capitolina()

  • Pingback: Amizades com má influência: Você é manipulado e não sabe ? - Fala Aeh! Fala Aeh!()

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

Arquivos