7 de janeiro de 2019 | Ano 5, Edição #45 | Texto: | Ilustração: Bruna Morgan
Como nunca deixar de acreditar no amor

Eu pensei que passasse. A magia de acreditar na vida como se a gente acordasse todos os dias tendo um bom motivo pra recomeçar era um tipo de crença que eu pensei que passasse. Sei lá, a gente cai, levanta, se machuca, vai e volta, se afasta de si, mergulha dentro da alma de outras pessoas, sorri profundo, chora manso, e quando volta…Num sabe se a fé vai se esticar a ponto de fazer com que dure a nossa crença de que a vida é muito maior do que o limite que a gente mesmo impõe.

Eu pensei que passasse sabe, essa coisa de sorriso na barriga e suspiro do peito do pé até o último fio de cabelo, essa coisa meio bicho, meio gente, meio loucura, meio afeto, meio viva e meio morta que é amar. Mas não passa não, a coisa sobrevive. Essa coisa do homem e da mulher e de continuar acreditando na fé que existe dentro da gente, de continuar acreditando na gente que a gente é o outro, e que o outro é quem a gente ama. Essa coisa meio boba que o sentimento demonstra quando é bonito demais pra negar, essa coisa não passa.

Essa coisa na vida não passa, e eu pensei que passasse, eu pensei que um dia a gente ficasse ruim, eu pensei que um dia a gente ficasse manso, eu pensei que um dia a gente ficasse meio burro de sentimento, eu pensei que um dia a gente ficasse triste, triste, triste…até não acreditar mais que o sol renasce e as borboletas voam e continuam voando e os animais continuam amando uns aos outros e as plantas crescendo, e as plantas crescem, as flores renascem, as pessoas morrem, mas também nascem todos os dias. Nós, nós somos as pessoas que nascem todos os dias, nós, nós nascemos todos os dias, nós pessoas nascemos todos os dias. Não passa não. Todos os dias nascemos, todos os dias a gente só tem o hoje, e o hoje é onde a fé mora. Você olha pro nada e fica com medo, mas se para de olhar pro abismo e volta a olhar pra dentro, pra dentro da beleza que dá pra sentir quando a gente se vê, a crença continua. A crença da liberdade continua. A crença da finitude vai virando libertação.

Eu pensei que passasse a bobeira, eu pensei que passasse todo o despropósito, eu pensei que passasse todo turbilhão de sentimentos confusos que a gente sente quando a gente ama. Eu pensei que um dia todo mundo crescia e virava adulto, esquecia essas bobagens de adolescência, que os beijos ficavam comuns, que os carinhos viravam uma ideologia cotidiana. Eu pensei que um dia a vida ficasse chata, menos plural, divertida, alegre, viva, importante, e que se fosse assim, a gente ficava saudável, meio plácido, quase seco por dentro. Como se todos os órgãos se alinhassem e sangrassem um pouco menos, ardessem um pouco menos, como se todas as nossas umidades, como se todas as lágrimas, como se toda a água que tivesse no nosso corpo parasse de dar vontade de mergulhar. Como se o mar se aquietasse, como se tudo fosse ficando seco; concreto. Como se cimentasse toda a oportunidade que a gente tem de viver o prazer do delírio. Do barato que é estar vivo.

Eu pensei que isso era só uma coisa idiota que a gente fazia quando era jovem, mas agora que eu cresci, entendi que esse é o próprio viver. Nunca passa, continua a mesma coisa… e de novo, e de novo, e de novo. E se a gente perde a fé, a gente perde a graça.Porque a graça é levantar e cair, e de novo, e de novo, levantar e cair pra amar um pouco mais, pra amar um pouco melhor, pra ir amando continuo todo mundo que for surgindo na vida conforme o tempo passa.

Eu pensei que passasse,mas que bom que não. Que bom que não passa, que bom que a gente continua vivo. E que bom que enquanto há vida, há dor. Porque só a dor é capaz de mostrar pra gente a beleza que existe dentro da oportunidade de sentir alívio. O amor passa pela gente como se fosse um raio de sol e a vida vai ficando muito bonita quando a gente entende que ao invés de sentir medo do nosso próprio quartinho escuro a boa mesmo é passar a dormir de luz acesa.

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Gabriela Nolasco
  • Ilustradora

Eu? aff. eu invento tudo que não posso ter, eu sonho alto, eu corro muito, eu choro no ônibus, e eu falo de amor. Ilustradora, carioca, feminista, mulher-negra-maravilhosa, um tanto quanto gata, felina e fatal. mentira. prefiro cachorros. meio contraditória. um coração e um raio. única de pai e mãe que se amam. neta de costureira. amiga das mulheres mais fodas do mundo. survivor. brava, sensível, facão na botina. mulher.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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