18 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Marina Sader
Como os filmes falam com a gente?

Você já reparou quando está vendo um filme e aparece uma cena de uma casa vista de longe e, logo em seguida, uma cena dentro de uma sala, naturalmente conseguimos entender que a cena na sala se passa dentro da casa? Ou quando um personagem olha para algo que não está na tela, e logo depois aparece um objeto, sabemos que aquele objeto era o que o personagem estava olhando? Esses são exemplos bem pequenos de como os filmes e o audiovisual, de modo geral, têm sua própria linguagem, que acreditamos ser natural, quando na verdade aprendemos a assistir filmes assim, desde criança, quando sentamos para assistir a desenhos da Disney.

O cinema começou tem mais de cem anos e, desde então, uma série de construções foram feitas literalmente na frente dos nossos olhos e nós nem percebemos. Com tantos anos de filmes, aceitamos que eles são assim, nos acostumamos a assistir histórias serem contadas de uma determinada forma; para nós sempre foi assim. Os irmãos Lumière foram os pioneiros disso tudo, e um de seus primeiros filmes foi o L’Arrivée d’un train à La Ciotat (A chegada do trem na estação La Ciotat).

Como diz o título, o filme é basicamente um trem chegando na estação, com pessoas subindo e descendo dele, uma coisa banal e normal que acontecia frequentemente na vida dos espectadores. Porém, o que todo mundo ali estava acostumado a assistir eram peças e óperas, com pessoas reais, tudo de verdade. Então, ao assistir ao filme dos irmãos Lumière pela primeira vez, todo mundo achou que o trem era de verdade e atropelaria geral; todos entraram em pânico e saíram da sala desesperados. Claro, o filme era em preto e branco e não tinha nenhum barulho além do projetor, mas essa reação mostra a força do costume. Muitos historiadores dizem que toda essa coisa de pânico com o filme dos Lumière é um mito que se criou com a invenção do cinema. Sendo realidade ou ficção, o fato é que quando estamos muito acostumados com um tipo de linguagem é difícil aceitar uma nova, diferente.

Depois dos irmãos Lumière, temos Georges Méliès e seu Le voyage dans la lune (Viagem à lua), onde um grupo de homens planeja uma viagem para a lua; todo o filme gira em torno dessa viagem.

Aqui o cinema começa a ser usado para contar histórias de ficção. É o início de uma das maiores construções acerca do cinema feito para contar histórias. Não me entenda mal, eu adoro ver histórias na tela, o problema é que essa não é a única forma de fazer filmes. Na Europa dos anos 1920, tiveram vários movimentos que faziam um outro tipo de cinema, como o expressionismo alemão. Por mais que também se conte histórias nesses filmes, existe um foco muito maior no sentimento que o cineasta quer passar e o sentimento que o espectador vai sentir. Para o cineasta, essa sensação é muito mais importante do que qualquer história. Sim, hoje em dia você ainda encontra diretores que buscam retratar isso, mas o grande cinema, o que mais nos é vendido, é o cinema de ficção, o cinema que conta histórias, principalmente o cinema norte-americano.

Indo mais à frente na história, chegamos nos anos 1930 e, de repente, o cinema passa a ter som. Assim surgem os musicais e os grandes épicos de amor, além de uma coisa chamada Hollywood star-system (sistema de estrelas de Hollywood). Existia (e ainda existe) uma aglomeração de estúdios de cinema em Los Angeles, chamada de Hollywood. A maioria dos filmes realizados nos Estados Unidos sempre foi feita por esses grandes estúdios. Porém, nos primórdios do cinema norte-americano, os atores eram bastante desvalorizados; o que importava era o estúdio, os artistas não eram nem creditados! Até que esses estúdios começaram a lançar seus atores como grandes estrelas para vender seus próprios filmes, e os estúdios passaram a ter menos destaque na venda. Assim nasceu o Hollywood star-system. O filme O artista mostra muito bem essa prática. Aliados com o American Way of Life, uma propaganda intensa do modo de vida norte-americano como sendo o melhor, esses filmes e essas estrelas foram mundialmente difundidos.

Agora que você leu esse parágrafo, pensa comigo: esse Hollywood star-system pode ter começado nos anos 1930, mas ele existe até hoje! O que mais encontramos em capas de revista, em blogs e sites na internet são atrizes e atores americanos; queremos saber sobre suas vidas, o que eles vestem, o que eles comem; queremos ser eles. Somos massacrados o tempo todo pelo cinema americano e suas estrelas. Novamente, eu adoro um bom filme, seja americano ou não. Meu problema é que confundimos muito “o jeito americano de cinema” como se fosse o único jeito que existe. Quando vamos escolher filmes em uma locadora online brasileira, e existe uma categoria “filmes estrangeiros” que lista somente filmes não americanos porque estes estão no resto das categorias comuns como “ação” ou “comédia”, nós temos um problema.

Agora que fizemos essa caminhada histórica e percebemos melhor como a linguagem do cinema é muito mais construída do que natural, gostaria de apontar umas questões recorrentes dos filmes que consumimos. Você já reparou o quanto é difícil ter uma mulher como protagonista de um filme que não seja uma comédia romântica? Existe uma falácia muito grande de que mulheres “não seguram filmes de ação”. Primeiramente, vou falar que temos a maravilhosa Katniss Everdeen, em Jogos Vorazes, para provar o contrário. Segundo, vivemos décadas de filmes de ação sendo protagonizados por homens, estamos acostumados com esse tipo de filme ser assim. Nós, mulheres, somos acostumadas a ser frágeis e passar a vida esperando um romance acontecer, e é por isso que somos apenas retratadas nas comédias românticas. Mais uma vez, adoro uma comédia romântica, o problema é que eu também quero ver uma mulher com uma arma na mão salvando o mundo, ela também pode fazer isso. Outro ponto que vale ressaltar é que esse homem que está salvando o mundo quase sempre é branco. Temos pouquíssimos heróis negros; os negros estão geralmente jogados para papéis de empregados, coadjuvantes, nunca protagonistas. Assim que os personagens são concebidos, nos é dito que eles simplesmente são desse jeito. Temos os Will Smiths da vida, assim como temos a Charlize Theron como Imperatriz Furiosa em Mad Max, mas te garanto que se você pegar um catálogo de filmes agora, a maioria dos protagonistas é de homens brancos.

Vale lembrar que somos o tempo todo convencidos de que os filmes têm que ser assim muito porque é o homem branco quem está contando essas histórias. A maioria esmagadora de diretores, produtores, roteiristas e profissionais da área de cinema é composta por homens brancos. Não estou dizendo que as pessoas não são capazes de reproduzir o outro; basta ter sensibilidade e empatia que conseguem, sim. É natural que nós gravitemos em torno da nossa própria órbita para contar histórias do nosso ponto de vista, de personagens como a gente. Faz sentido que, em um mundo onde a maioria dos contadores de histórias seja de homens brancos, o resultado seja de protagonistas homens e brancos. Está mais do que na hora das mulheres e dos negros (e aqui vale qualquer grupo oprimido, citei mulheres e negros, mas pode colocar transexuais, deficientes físicos e uma série de outros grupos oprimidos) ocuparem espaços para eles mesmos contarem as suas histórias.

Precisamos enxergar que as coisas que foram naturalizadas não são naturais. Você aprendeu que quando aparece uma casa e, na cena seguinte, você vê uma sala, essa sala pertence à casa anterior, mas isso é só uma forma padronizada. Quando conseguirmos ver que algo foi naturalizado, mas que, na real, é construído, fica mais fácil problematizar, desconstruir e enxergar outras formas. Temos que questionar sempre, não é só porque você sempre viu um filme assim que ele tem que ser assim.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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