3 de maio de 2016 | Saúde | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Como são feitos os remédios?
vacina

A nossa saúde é afetada e controlada por vários aspectos, e um dos primeiros em que pensamos quando falamos do tema é o uso de remédios e vacinas. No meio de epidemias e descobertas de novas substâncias com potencial terapêutico, sempre rola aquela pergunta: por que demora tanto pra criarmos novas drogas que podem ajudar a população?

Bem, pra que um medicamento seja inserido no mercado, existem diversos passos. Primeiro, é claro, tem que ser descoberta uma substância que possa ser útil no tratamento de algum problema no organismo. Pode ser que isso aconteça de maneira acidental, como aconteceu com a penicilina, ou que ela seja modelada do zero, a partir de dados colhidos de como o nosso corpo funciona. O campo que trata deste segundo modo é a Química Medicinal, que usa a modelagem molecular (ou seja, criação de moléculas) para o planejamento racional de fármacos.

A ANVISA, Agência Nacional de Vigilância Sanitária, é quem regula e controla o que pode ou não ser comercializado ou distribuído à população em termos de medicamentos, vacinas, drogas; enfim, tudo que está relacionado à ingestão de substâncias no nosso organismo que possa alterar seu funcionamento. É ela, direcionada por leis como a Lei nº 6360/1976  e a Lei nº 5991/1973  que determina quais os medicamentos que podem ser distribuídos para os cidadãos brasileiros. É preciso que eles sejam seguros e eficazes, dentre vários outros pré-requisitos. Para determinar tudo isso, são feitas extensivas pesquisas pra que não haja dúvida de como é a ação da droga no organismo, passando por diversas fases , que podem ser resumidas em três: a fase pré-clínica, a fase clínica e a de farmacovigilância.

Na fase pré-clínica, são utilizados modelos computacionais, culturas de células, órgãos isolados ou até pequenos animais para determinar se vale à pena e quais são as doses corretas para que sejam feitos testes em humanos. São analisados se o potencial terapêutico previsto realmente é alcançado, e se não há efeitos colaterais ou toxicidade muito grandes. A partir daí, são necessárias aprovações de comissões éticas e técnicas, que regulamentam o uso de cobaias para que as pesquisas sempre atendam padrões de bioética.

Depois disso, passa-se pra fase clínica, em que são feitos os testes em humanos . Essa fase é dividida ainda em fases diferentes, em que há um aumento gradual do número de participantes uma mudança no perfil entre doentes e saudáveis, diversas idades, etc. Todas as pessoas que participam dessas pesquisas têm que ser voluntários, o que garante que não haja omissão de dados ou informações corretas passadas aos pesquisadores em busca de remuneração.

Se a nova substância é aprovada em todos os testes destas fases anteriores, está pronta para ir para o mercado. Mas isso não significa que ela será esquecida: a farmacovigilância cuida para que os lotes de medicamento continuem sendo fabricados de acordo com as doses estabelecidas nas pesquisas iniciais, além de avaliar se não há o surgimento de nenhum efeito colateral a longo prazo que não pode ser previsto anteriormente. Assim, há a garantia de que caso algum problema ocorra, haja a retirada o quanto antes do produto das prateleiras e o menor número de pessoas possível seja afetado por ele.

No caso das vacinas, há o complicador de que a doença é causada por um ser vivo. Assim, as pesquisas iniciais podem ser muiiiiiiiito mais longas, já que envolvem identificar qual é o organismo causador do problema, qual atividade do seu metabolismo é o responsável, como inativa-lo, etc. Pode ser que existam mais de um “tipo” de causador, já que seres vivos sofrem mutações a cada ciclo de vida. É por isso (e outros motivos) que não há ainda uma vacina contra a dengue : não conseguiram formular uma maneira de nos imunizar contra os quatro tipos de vírus causadores. É por isso, também, que a vacinação contra a gripe é feita todos os anos, já que há sempre uma variedade nova de vírus. Ainda assim, se vacinar sempre é importante não só para a sua saúde como também a de toda a população , além de até economizar dinheiro pro governo!

Toda essa burocracia pode parecer desnecessária e atrasar o progresso da saúde, mas na verdade ele é extremamente importante para que todo o tratamento e a cura de doenças seja sempre seguro para o paciente. Situações como a aprovação pelo governo federal da distribuição da fosfoetanolamina, a pílula do câncer, tocam no dilema antiquíssimo de cientistas vs sociedade. Só que, gente, cientistas são também parte da sociedade! Respeitar esses processos que infelizmente podem ser longos e demorados são o que fazem com que possamos confiar nas substâncias que estamos ingerindo nos momentos em que estamos mais fragilizados. Farmacêuticos, os químicos moleculares, epidemiologistas, microbiologistas, médicos: confiar nos processos de criação de novas substâncias é confiar no trabalho de todos esses profissionais.

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

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