27 de junho de 2015 | Ano 2, Edição #15 | Texto: | Ilustração: Beatriz Leite
Como sobreviver em um mundo que controla sua linguagem?

Muito antes de conhecer a palavra “feminismo”, eu já me envolvia em questões de gênero. Ainda no tempo das festas infantis, minha coleguinha, Pamela, me provocou uma série de perguntas quando resolveu se sentar como um garoto: virou a cadeira, abriu as pernas e se sentou com o encosto entre elas. Em poucos minutos, se formou um alvoroço. Garotos e garotas – que aos seis anos já sabiam, inconscientemente, sobre a relação intrínseca entre padrões e violência – se voltaram contra ela, porque aquilo era errado, uma moça não se comporta assim.

Para evitar que nós acidentalmente mostrássemos nossas calcinhas, nossa professora tinha ensinado às garotas um código. No momento em que ouvia “cinema grátis, Taís” – sim, esse era o código que aos seis anos me parecia muito divertido e só hoje, aos vinte e cinco, consigo entender como é equivocado e horrível –, fechava as pernas em pânico. O ato de Pamela poderia ser simples, ela só se sentou como um garoto, mas nesse contexto se tornava ofensivo. Era como romper um pacto. Ela parecia não se importar com nosso código e, por isso, alguns sentiam que deveriam puni-la. Mas, em mim, o desconforto se transformou em dúvidas: O que há de tão horrível em uma garota mostrar sua calcinha? Por que eu posso mostrar meu biquíni na praia e não posso nunca mostrar minha calcinha? Se é tão errado assim, por que nosso uniforme é uma saia e não um short, como o dos garotos? Não entendia nada e era só o começo.

Conforme crescia, reparava que o mundo imprimia nas coisas uma linguagem e que isso necessariamente influenciava minha existência. Não escolhi ser uma menina, eu apenas nasci e, embora meu enxoval tenha sido verde-água porque minha mãe não conseguiu descobrir meu sexo durante a gestação, já nos meus primeiros dias de vida tive as orelhas furadas, ganhei bonecas e objetos cor-de-rosa. Durante a infância, eu sabia que meus brinquedos, livros e escolhas deveriam ser de uma certa maneira, porque eu era uma menina. Mas foi na adolescência que essas imposições se tornaram mais evidentes e graves. De repente, não era mais uma questão de objetos e cores, eram os meus desejos. Começava a entender que se dependesse do que os outros supunham, toda a minha existência estaria limitada a um destino que eu nunca escolhi. Porque eu não aceitava isso, as questões se tornavam mais urgentes.

Quanto mais eu me questionava sobre essa linguagem que repartia o mundo em dois gêneros, mais observadora me tornava. Subitamente, algumas coisas saltavam aos olhos. Se eu falasse palavrão, eu era vulgar. Se eu demonstrasse interesse em um garoto, eu era vulgar. Se eu usasse roupas curtas, eu era vulgar. Mas se eu nunca falasse palavrão, beijasse alguém e só usasse roupas básicas, eu era apenas uma nerd frígida. Durante toda a minha adolescência, procurei as palavras e escolhas certas para ser atraente e agradável. Demorou muito tempo para entender que deveria apenas buscar um lugar em que pudesse ser quem eu quisesse.

Esse lugar certamente não foi na universidade, onde eu certamente era mais agradável e atraente, mas igualmente cercada por amigos, professores e figuras de autoridade que demonstravam, pelo uso dessa mesma linguagem, que eu poderia dizer e escrever coisas interessantes, mas minha voz nunca seria a principal. Nessa época, enfrentei as formas mais sutis de silenciamento. No colégio era explícito que, por ser mulher, deveria ter uma posição inferior; em um campus universitário em que todo mundo é “de humanas” e tem ideias políticas mais progressistas, essa lógica parece estar extinta, quando, na verdade, continua em ação de um modo menos evidente, mas ainda palpável.

Além dos professores que gritavam comigo e/ou me chamavam de histérica quando tentava debater feminismo, existiam os amigos que me davam conselhos demais – sem que eu tivesse pedido –, os flertes estranhos que sempre davam um jeito de me subestimar e muitos, muitos, homens me explicando coisas que eu já sabia. Era comum eu fazer um comentário sobre meu tema de estudo e passar meia hora ouvindo um cara me explicando sobre meu próprio objeto de pesquisa – e, geralmente, um assunto que o cara claramente não dominava. Sem contar nas inúmeras vezes em que falei algo em uma discussão e ninguém deu atenção até que um homem falasse exatamente a mesma coisa.

Ainda tinha muitas perguntas, mas entendia com clareza que silenciar uma mulher é uma prática que participa da mesma lógica que me fazia temer mostrar minha calcinha aos seis anos de idade. Quando um homem ignora a opinião de uma pessoa – ou grita com essa pessoa – só porque ela se identifica com o gênero feminino, ele está seguindo a mesma ideia que considera esse gênero como uma mera propriedade inferior e isenta de voz própria. Assim, a violência de gênero que fundamenta a cultura do estupro – que ainda é, infelizmente, muito forte em nossa sociedade – está igualmente presente nesses gestos e discursos.

O que a faculdade me ensinou é que poderia encontrar lugares mais flexíveis e tolerantes quanto às normas de gênero, mas que ainda assim minha existência continuaria marcada por um valor secundário e decorativo. Eu poderia me tornar uma acadêmica maravilhosa, mas ainda teria que aguentar um ambiente formado por homens que me subestimam. Eu poderia me tornar uma escritora de sucesso e então teria que lidar com o fato de que a participação feminina é praticamente irrelevante nos grandes prêmios e eventos de literatura. Minhas questões de gênero se encontravam com minhas dúvidas e ânsias sobre meu futuro de um modo desesperador. Parecia que, independente das minhas escolhas profissionais, eu teria sempre que enfrentar julgamentos e me esforçar muito mais do que meus companheiros de trabalho só para simplesmente não me sentir uma fraude – ser boa ou a melhor nem era uma perspectiva possível.

Então, minha questão final: Como sobreviver – e ser feliz – em um mundo que controla sua linguagem, corpo e destino? Para minhas perguntas de criança e adolescência, a resposta foi a desconstrução. Para eu ser livre era preciso destruir as mentiras que a sociedade repetiu exaustivamente até se tornarem verdades quase absolutas; era preciso entender que os valores e regras eram apenas imposições violentas, mas sem fundamento. Agora, no início da minha vida adulta, descobri que o feminismo não é apenas combativo, é também sobre acolhimento. Entendi que é necessário construir ligações para que eu seja ouvida sem precisar da exaustão de impor à força minha voz. É a partir disso que surgem projetos como a Capitolina (e o Blogueiras Negras, a Alpaca Editora, a Ovelha e tantos outros) que transformam a linguagem e a sua lógica sexista ao darem espaço exclusivo para as vozes femininas. Quando criamos um lugar feito só para nós, mulheres, conquistamos apoio e compreensão, fazemos mais do que sobreviver, nossa voz ganha volume e importância. Enfim, criamos novas possibilidades.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Isabela Lobato

    “descobri que o feminismo não é apenas combativo, é também sobre acolhimento. Entendi que é necessário construir ligações para que eu seja ouvida sem precisar da exaustão de impor à força minha voz.”

  • Mariana Cardoso Carvalho

    Ah, se eu tivesse lido isso ainda criança… <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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