9 de agosto de 2016 | Colunas, Esportes | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha
Como tantas Silvas: Rafaela conquista o primeiro Ouro do Brasil!

A primeira medalha de ouro do Brasil nos Jogos Olímpicos Rio 2016 vão para uma mulher negra LGBT e periférica.

Aos 24 anos, Rafaela Silva, nascida na Cidade de Deus, uma comunidade da Zona Oeste do Rio, conquistou a mais alta honraria do esporte. Ao derrotar Dorjsürengiin Sumiya, da Mongólia, a judoca levou medalha de ouro da categoria até 57 kg e tornou-se campeã olímpica. A medalha conquistada nesta segunda no tatame da Arena Carioca 2, a transforma em heroína não apenas da comunidade, mas de um país inteiro.

“A minha vida é o judô. Se não fosse o judô eu não sei onde estaria agora. Poderia estar ainda brincando na Cidade de Deus. Mas graças a deus conheci o esporte e estou aqui agora Campeã Mundial e Campeã Olímpica” conta em entrevista ao SporTV logo após sua vitória.

Em 2000, o ex-técnico da seleção brasileira, Geraldo Bernardes, com uma grande experiência em levar atletas a edições olímpicas, lançou um projeto social em Jacarepaguá para atender a comunidades carentes como a Cidade de Deus (CDD). Esse projeto passou a ser o Instituto Reação quando a academia se juntou a ONG de Flávio Canto ( ex-judoca) que dava aula no Criança Futuro em Curicica. Foi no Instituto Reação que o talento de Rafaela começou a ser lapidado, aos 7 anos. A atleta passou a treinar com ele e logo despontou no esporte.

O programa que Rafaela participou é o Reação Escola de Judô e Lutas que oferece aulas de judô para crianças e adolescentes, com o objetivo de promover a educação e o desenvolvimento humano. Esse projeto foi a oportunidade que a judoca precisava para mudar sua vida.

“Comecei o judô em 2000, no início do projeto. Meu pai me colocou no esporte como alternativa para eu parar de ficar brigando na rua. No Judô, encontrei disciplina, passei a respeitar os outros e comecei a levar o esporte a sério. O judô me mostrou o mundo. Com os recursos que ganho, garanto meu sustento e ajudo a minha família a pagar as contas.” comenta a campeã olímpica sobre o Instituto Reação no seu site.

O esporte mais uma vez, se mostrou como um poderoso instrumento de inclusão social e equidade. Ele tem um papel muito importante na educação de crianças e adolescentes. Por meio dele, valores éticos e morais, como a socialização, a cooperação, a solidariedade, a disciplina, o espírito de equipe e outros, fundamentais para a formação integral de uma pessoa, podem ser trabalhados e desenvolvidos. No caso de Rafaela, é o esporte está no combate ao racismo e a diferença de classe.

Nas Olimpíadas de Londres em 2012, após ser eliminada na luta de estreia, Rafaela foi vítima de ataques racistas na internet, chegando a ser chamada de ‘macaca’ e ‘vergonha para a família’. Sua desclassificação foi devida a um golpe que passou a ser proibido nos Jogos de Londres. Ver quatro anos de preparação irem por água abaixo na segunda luta foi um golpe duro demais para Rafaela. Assim que voltou ao Brasil, teve depressão que levou há dois meses sem pisar em um tatame.

Depois desse episódio, a judoca se dedicou ao esporte com muito treino e foco o que a levou até o caminho dourado nessas Olimpíadas. E provou tanto para seus críticos que seu lugar é e sempre foi no esporte.

“Em Londres o mundo todo chorou, agora ela fez todo mundo sorrir!”, desabafa dona Zenilda, mãe de Rafaela Silva, após a conquista do primeiro ouro do Brasil na Rio 2016.

Rafaela Silva é um exemplo de superação e de vitória, não só pela medalha, mas por enfrentar diariamente o machismo, racismo, lesbofobia e classicismo juntos. Ela é um grande exemplo para todas as crianças e jovens que de interessam por esporte, mas que tem que lidar diariamente com opressões e dificuldades. E evidencia que esforço, persistência e foco são essenciais, mas tudo começa com oportunidade.

Como tantas Silvas, Rafaela colocou o Brasil no lugar mais alto do pódio, onde pela primeira vez nos Jogos do Rio o Hino Nacional tocou.

Trajetória no esporte:

Campeã no mundial Junior (Sub -20) em 2008
Prata no Mundial de 2011
Ouro no Mundial de 2013
Ouro no Grand Prix de Judô em 2016
Campeã Olímpica Rio 2016

Vicky Régia
  • Conselho Editorial
  • Coordenadora de Se Liga
  • Coordenadora de Esportes
  • Colaboradora de Artes
  • Colaboradora de Sociedade
  • Colaboradora de Educação

Vitória Régia tem 23 anos, é formada em jornalismo e acredita no poder da comunicação para mudança social. É nordestina de nascimento, paulista de criação e carioca por opção. É apaixonada pela arte de contar histórias e dedica a vida a militância nos movimentos feminista, negro e LGBT.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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