31 de dezembro de 2015 | Artes, Colunas | Texto: | Ilustração: gabriela sakata
Comportamento em museus: tirando fotos

Podemos dizer para nós mesmos Mont Blanc ao amanhecer; Taj Mahal ao luar; e a mente continua uma folha em branco. Pois um cenário só sobrevive na estranha poça em que depositamos nossas memórias se tiver a boa sorte de se juntar a alguma outra emoção pela qual ela é preservada. As vistas se casam, incongruentemente, morganaticamente, e se mantêm, assim, mutuamente vivas.O Mont Blanc, o Taj Mahal, vistas para as quais viajamos e que suamos para ver, apagam-se e perecem e desaparecem porque não conseguiram encontrar o par certo.

(O sol e o Peixe, Virginia Woolf)

Já é uma cena comum: Antes mesmo de entrar em um museu ou um centro de artes, as pessoas estão preparando seus celulares e câmeras. Nada contra esses objetos, inclusive os amo. Mas às vezes coisas boas não são bem aproveitadas. No último mês, tive o privilégio de visitar vários museus e lugares bonitos. Foi ótimo, porém, em alguns momentos, me batia um incômodo: Por que, afinal, qual é o sentido de milhares de pessoas pagarem um ingresso (geralmente bem caro) para tirarem fotos praticamente iguais que serão compartilhadas nas mesmas redes sociais?
Veja bem, eu amo selfies e  o Instagram é minha rede social favorita. Sem duvida, gosto de viver em um mundo feito de imagens e registros. Mas, ainda que eu me considere uma das coisas maravilhosas que existem nesse mundo, acho que alguns momentos podem ser sobre pessoas, culturas e criações que não tem qualquer tipo de relação comigo. Então me pergunto o que fazemos com essa tonelada de fotos?

A fotografia é uma das linguagens que usamos para nos comunicar, criar e habitar esse mundo de um modo humano. Quando tiramos uma foto podemos olhar as coisas a partir de outro ângulo e assim redescobrir nossa própria realidade. Esse é um dos modos de experienciar as coisas. Mas quando entramos já preparados para registrar uma experiência estamos de fato sentindo ou enxergando algo? Nessas horas, acho que estamos tão preocupados em não perder as memórias que esquecemos de criá-las.

Estamos tão obcecados com a ideia de registrar o que conhecemos que não enxergamos realmente os lugares e as pessoas – o que, ironicamente, contribui para que suas fotos sejam bem ruins. Entramos em um museu ou em uma exposição e queremos tanto mostrar que estivemos ali que esquecemos de olhar. Em vez de nos concentrarmos em nossa presença, podemos nos perguntar o que moveu cada obra, como foi/é a vida de cada artista, quais sentimentos e historias eles carregam.

Ao escrever esse texto me sinto uma dessas pessoas conservadora que acreditam que a vida analógica é melhor, o que eu não acho de forma alguma – estou escrevendo esse texto em um aplicativo do meu celular, aliás. O que eu acredito é que a internet, os smartphones e câmeras dependem muito do uso que escolhemos dar a essas tecnologias . As imagens e seus destinos virtuais produzem sentidos e experiências. Por isso é válido nos perguntar o que estamos de fato vivenciando. Queremos apenas compartilhar que fomos a um lugar como quem risca uma obrigação de uma lista? Queremos guardar cada minuto de nossas vidas sem dar uma trégua para de fato pensar e sentir esse tempo?

Acredito que podemos sentir e olhar as mesmas coisas de muitas formas. Em um mesmo lugar podemos tirar uma selfie, escrever um texto, conversar com os amigos ou ficar em silêncio. E quanto mais nos abrimos às experiências, mais plena se torna nossa vida. No fim, perder a memória é um fato, porque esse é o nosso destino humano. Então, deixe que alguns momentos acabem do mesmo modo que começaram: em um caminho aleatório e incontrolável. Algumas imagens não precisam ser compartilhadas, só vividas. Tenho tentado fazer isso. Esqueço um pouco meus utensílios, perco o celular na bolsa e penso “isso aqui é só seu”. Aproveito enquanto duro e não me importo com o que sobra depois do fim.

 

 

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Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

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