18 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: e | Ilustração: Dora Leroy
Comunhão: o que tem em comum na comunidade
Ilustração: Dora Leroy

O tema desse mês é comunidade. Você já deve ter lido o que as outras Capitolinas escreveram sobre coletivo, sobre as coisas que são de todo mundo, sobre organizações políticas de base, coisas que fazemos juntas… mas queríamos agora falar sobre aspecto em particular: o que tem em comum na comunidade.

O que nos une? Muitos dirão que é a convivência – vivemos juntos. Mas mais do que compartilhar o mesmo espaço, compartilhamos significados e símbolos. Designamos sentidos para tarefas do dia-a-dia e as praticamos em conjunto. E mesmo quando estamos sozinhos, vivemos um momento compartilhado pela simbologia do que praticamos. Parece algo muito doido, meio hippie? Pois não é. Pare para pensar: você nem sempre assiste seu seriado favorito junto com outras pessoas, mas depois, quando encontra suas amigas, senta para comentar o que aconteceu no episódio mais recente. O assistir seriado vira um rito da sua comunidade de amigas, que se socializam em torno daquele momento. Piadas internas, adereços que remetam a cenas icônicas de episódios favoritos, falas importantes de personagens – tudo passa a ganhar um significado especial e vira símbolo.

Como comunidade mais ampla, vivemos isso o tempo inteiro, não só com seriados. Aprendi com um professor muito sábio a sempre buscar as raízes etimológicas de palavras importantes e caras que reaparecem em nosso cotidiano. Para escrever esse texto, fui procurar várias delas, a começar por comunidade. Comum. O prefixo -co, que está também em palavras como colaborar, indica algo do tipo “junto,” mas que nem sempre é uma companhia no sentido literal, de não estar sozinho ou estar acompanhado. É uma ideia mais ampla, daquela que falei assim, de que mesmo sozinho, se participa de algo maior. Como sempre tende a acontecer na internet, fui indo de link em link e acabei na palavra “comunhão”.

Sempre ouvi essa palavra em contextos mais religiosos. Lembro de meus amigos do colégio fazendo primeira comunhão, todos juntos, no sexto ano. As meninas todas iam de vestido branco e participavam da Santa Ceia pela primeira vez – comiam juntos o pão, tomavam juntos o vinho. Acontece que comunhão é maior do que esse simples ato de comer (de novo, o prefixo –co!). Ela é pautada muito mais pelo fato de estarmos juntos – fisicamente – lembrando juntos de um significado que é comum a todos. Os ritos têm esse poder.

Retirado do contexto religioso, não é de se espantar que, geralmente, quando vamos comemorar (-co! nesse caso, a palavra quer dizer “lembrar junto”) algo, combinamos de sair para comer. Festas envolvem comida – um momento de sentar à mesa e conversar. Fazemos isso em festas, quando reencontramos alguém que não víamos a algum tempo, quando queremos falar sobre coisas importantes com aqueles que já são próximos…

Passamos travessas e pratos de um lado para outro, servimos quem está do nosso lado. Comentamos que o cozido da vovó ficou uma delícia ou que aquele restaurante escolhido por alguém da mesa realmente tem uma batata frita crocante por fora e molinha por dentro. Mais do que simplesmente ingerir nutrientes, nesses momentos criamos laços em torno da mesa e do ato de comer. Reforçamos laços antigos, criamos novos, abrimos nossos círculos comunitários, refazemos ligações desfeitas das nossas redes – assim como minhas amigas fizeram pela primeira vez na quinta série, em suas comunidades religiosas.

Curiosamente, a etimologia da palavra “comer” revela uma história peculiar. Aparentemente, a palavra comer vem do latim comedere. Em algum momento, perdeu o –ed, sua raiz. Ficou apenas o prefixo –co, nosso velho conhecido, e o sufixo que designa verbos, -er. Achei sábia essa evolução da palavra. Quando sentamos juntos à mesa, mais do que simplesmente ingerir alimentos, vivemos um momento de comunhão.

Ana Paula Pellegrino
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Ana Paula tem vinte e poucos anos e a internet opina demais sobre sua vida. Mora com sua família no Rio de Janeiro. Prefere ficar em casa tomando chá sem açúcar a sair para lugares barulhentos. A não ser que o programa envolva comprar roupas. Ou livros. Apesar de destrambelhada, faz ballet; segue tumblrs de yoga e pensa demais. Ana Paula, mesmo sendo estranha, é feliz.

Debora Albu
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão

Debora é mestra em Estudos de Gênero e é formada em Relações Internacionais. É carioca, apesar de ter passado uma temporada da vida em Paris e todo mundo a chamar de "francesinha" - por vezes acredita ser verdade. Faz parte da gestão da Agora Juntas, um rede de coletivos feministas no Rio de Janeiro. É ciberativista e feminista antes mesmo de entender o que essas palavras significam.

  • itismesomeone

    Adorei :-)

Sobre

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