22 de fevereiro de 2015 | Edição #11 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Comunidade-cidade, comunidade-favela
Ilustração: Clara Browne

Uma edição inteirinha sobre comunidade me fez pensar: o que é, de fato, uma comunidade? Percebi, ao longo dos textos e debates que fizemos que podemos pertencer a várias comunidades diferentes e, ao mesmo tempo, pertencemos, todas e todos, a uma grande comunidade que é a nossa sociedade. Essa sociedade, por sua vez, se organiza espacialmente de algumas formas: países, estados, cidades, bairros. E, a cada escala de organização espacial temos também diferentes tipos de relação com as pessoas e o lugar que (con)vivemos. Essa relação é influenciada, porém, não só pelo lugar pura e simplesmente mas por todas as outras questões sócio-econômicas e políticas que fazem parte da construção da sociedade que somos hoje.

 

Eu moro no Rio de Janeiro e, aqui, não dá pra falar do espaço da cidade sem falar de favela. Ou como se acostumou a chamar: comunidade. Essa mesma palavra que podemos usar para toda a cidade, hoje usamos para uma parte específica dela. Não é por acaso.

 

O termo favela tem sua origem com a Guerra de Canudos. Lá houve a ocupação da área de um morro chamado Morro da Favela pois, nele, havia uma planta chamada de favela por produzir uma semente leguminosa em forma de favo. Parte dos soldados, ao voltar ao Rio de Janeiro, passaram a ocupar a área do Morro da Providência que, na época, foi chamado de Morro da Favela em referência ao de origem. A partir daí, as ocupações habitacionais em morros com pouca infra estrutura passaram a ser conhecidas, de uma forma geral, como favelas. Quem ocupa esse espaço ao longo do tempo é o cidadão pobre, em sua maioria, negro e que, na nossa sociedade, não tem tantas oportunidades quanto tem o cidadão branco de elite que ocupa as outras partes da cidade. A segregação social e a segregação espacial estão, então, diretamente ligadas.

 

Antes de continuar é importante dizer: falo aqui de um lugar que não é o de quem vive a vida na favela. A fala é de quem observa e estuda a cidade e como ela se organiza, jamais tentando tomar o lugar de fala de quem realmente vive as opressões e dificuldades de morar em um lugar tratado pela sociedade, de uma forma geral, como marginalizado. Eu jamais saberei relatar a vivência real dessas pessoas e desse espaço.

 

Hoje, de uma forma geral, o termo favela possui uma carga um tanto quanto pejorativa. Favela passou a ser, na grande maioria das vezes, relacionada à pobreza, criminalidade, falta de estrutura e educação, é tratado como um lugar inferior ao resto da cidade. Por outro lado, se passa a chamar este mesmo espaço de “comunidade”, em uma tentativa de amenizar este estigma e trazer um novo significado, de um espaço e grupo de pessoas que tem algo em comum, um lugar de moradia irregular porém legitimado, com uma visão mais proativa do lugar e de seus moradores. Porém, ambos os termos ajudam na segregação desse espaço e desse grupo de pessoas. Afinal de contas, quando chamamos um grupo específico de comunidade dentro da cidade, e somente ele, estamos ou não separando esse grupo do resto dela? E porque somente essa parte da cidade ou esse grupo de pessoas possui um termo específico?

 

A cidade é cidade por completo e, para entender as suas relações é importante conseguir enxergá-la inteira. É claro, ela é múltipla e possui suas especificidades e desigualdades dentro de si mesma. Como eu disse lá no início, se nós podemos participar de várias comunidades diferentes é porque existem várias formas de nos organizarmos e, portanto, podemos ter várias comunidades, inclusive, na cidade. Mas não podemos ignorar que elas se relacionam e conformam, juntas, a sociedade.

 

Essa separação reforça uma tal dicotomia muito dura que insistem que existe entre “morro” e “asfalto”. Parece que nos falta perceber que ambos são cidade e são pessoas (ou não se quer mesmo perceber assim). E, na minha opinião, que não faz sentido haver uma segregação tão forte de lugar e de direitos.

 

O que me faz concluir pensando sobre isso tudo é que a cidade não é pensada da mesma forma para todas as pessoas mas é um espaço em disputa. Muito pra além do seu desenho ou sua divisão espacial, o mais importante é que os espaços não são pensados para serem usados da mesma forma pelas pessoas. Não são acolhedores da mesma forma para todas as pessoas e, assim, criam-se estigmas e barreiras entre um espaço e outro. Aqui eu falei da comunidade-favela mas poderia falar da comunidade-mulheres, por exemplo. A cidade não é aqui ou ali, assim ou assado e pronto, ela é um espaço em transformação. E deveria ser para todas e todos.

 

Isabela Peccini
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora de Escola, Vestibular & Profissão

O nome é Isabela, mas os apelidos são variados, sintam-se à vontade. Quase arquiteta e urbanista pela UFRJ. Mas não se engane, não vou fazer a sua casa ou a decoração da sala. Objeto de estudo: cidade, sempre pelos olhos da mulher. A minha cidade? Rio de Janeiro, uma relação de amor e ódio. Militante no movimento estudantil desde que me lembro e feminista porque não dá pra não ser, o feminismo te liberta!

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