13 de setembro de 2015 | Música | Texto: | Ilustração: Gabriela Sakata
Conexões, fan-girl e Arcade Fire
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Quando eu tinha meus dezessete anos e a vida não estava boa, tinha dias que eu só conseguia dormir de fone de ouvido ao som de Arcade Fire. Quase dez anos depois tenho passado por uns maus bocados, diversas coisas na minha vida não estão como eu gostaria e uma série de acontecimentos ruins estão rolando um atrás do outro, resolvi voltar ao hábito e é o que tem me feito dormir a noite. A Marina estreou nossa coluna falando da sensação de pertencimento e do envolvimento que a música causa na gente, e amo música por isso e eu amo Arcade Fire por isso, adoro diversas outras bandas e artistas, mas nenhum é como eles, nenhum toca tão fundo e faz eu me acalmar nos piores dias e achar que de alguma forma as coisas vão melhorar.

É muito louco pensar que esses caras lá no Canadá, super longe de mim, que não fazem ideia de como é minha vida podem ter essa conexão comigo, mas eles têm. A música tem esse poder. Quando essa conexão acontece, algumas pessoas acabam se sentindo muito próximas ao artista que faz isso que consegue te acalmar sem te conhecer e parece que eles são seus amigos de longa data (Win e Regina, vocalistas da banda são os meus, definitivamente). Quando você é adolescente, você está especialmente vulnerável, tem um monte de coisas acontecendo, várias mudanças, estamos mais sensíveis, então é natural que essas conexões aconteçam com mais facilidade, principalmente se você é mulher, ser adolescente e ser mulher não é fácil, minha gente. A verdade é que a vida vai nos endurecendo às vezes e que ,óbvio, qualquer coisa ligada a adolescentes meninas é mal vista, é ruim. Então se você gritar de emoção com um artista no palco, chorar em um show, colecionar poster, se torna patética, não pode.

Claro que temos que lembrar sempre que artista também é gente como a gente. Também faz cocô, também leva pé na bunda, também erra, também chora, eles não são esses seres de outro mundo, perfeitos. Agora eu criei toda uma identificação com a música deles, eles são essa coisa que me faz ficar bem, óbvio que eu vou ficar emocionada sim em um show, vou gritar quando eles entrarem no palco e vou querer saber mais do trabalho deles sim e tudo bem. Porque é tudo bem homens se envolverem tanto com futebol , xingarem, saberem toda a tabela do campeonato e a gente não pode ter uma coleção de poster da boyband preferida?

Outra coisa que temos que lembrar, é não julgar o gosto da amiguinha. Eu sei lá porque Arcade Fire é a banda que toca meu coração como nenhuma outra, acho lindo tudo que vem deles, acho os conceitos dos álbuns muito bem trabalhados, adoro as letras e por aí vai, mas isso não me faz melhor nem pior do que ninguém. Outra pessoa pode sentir o mesmo com One Direction, Maria Bethania, Sandy ou Ludmilla. Você tem todo direito de não gostar do trabalho de um artista e de criticar se você achar pertinente um ponto ou outro do trabalho dele, agora não vale criticar porque a pessoa adora aquilo. Você pode não entender o porquê, a própria pessoa pode não entender porque, mas aquilo é importante pra ela e não é nada legal ficar ouvindo que aquilo que você adora não presta. Eu já fui muito besta e ficava criticando o gosto das outras pessoas, porque música às vezes é essa coisa tão forte pra você que você quer impor o que gosta, como se fosse o melhor que a música tem a oferecer, mas o que a gente tem que entender é que isso é o melhor pra você e não para todo mundo. Como eu falei lá em cima da conexão que você faz com uma banda, isso é tão seu, tão pessoal, como isso seria o mesmo para todas as pessoas desse planeta? Que bom que temos várias opções de achar o que nos acolhe com a internet hoje.

Quando o Arcade Fire anunciou o show ano passado aqui no Brasil eu vibrei, era tipo a coisa mais maravilhosa que tinha acontecido no meu ano. Eles tinham feito um outro show aqui, mas eu era muito novinha e mamãe não me deixou ir. Depois de nove anos de espera, estava no pico da minha alegria e ansiedade. Eles tinham acabado de lançar um álbum com todo um conceito de máscaras e mardi gras (o carnaval do Haiti e Nova Orleans). No primeiro clipe e em algumas apresentações o vocalista aparecia com uma máscara preta pintada no rosto, resolvi então que eu iria com ela pintada no meu rosto também. Vários amigos meus me zoaram eternamente e ouvia sempre, “mas eles nem sabem que você existe, nem vão te ver, ou lembrar de você”. Gente eu sei disso, todo mundo que é muito fã de algo também sabe disso, só que não importa. Eu ouvia muito isso também quando ia em hotel tentar encontrar os artistas das bandas que eu gosto. Eu sei que pra eles eu sou uma em um milhão, porém pra mim eles são únicos. É de novo a tal conexão, encontrar com eles no hotel, ficar na grade de um show, ir com o rosto pintado é muito mais pra mim do que pra eles. É uma forma de eu responder, “ei, olha só como eu gosto de vocês e como isso é importante pra mim” e mesmo que eles não saibam que eu estou respondendo, eu sei e isso já basta.

Dani Feno
  • Coordenadora de Audiovisual
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Música

Dani Feno, 26 anos. Quando era criança foi ao cinema ver Rei Leão a primeira vez e se apaixonou por essa coisa de ver filmes. Mais velha viu um seriado chamado Clarissa e pronto, a paixão passou para seriados também. Foi tão forte que agora trabalha em uma finalizadora de filmes e programas de TV, mas o que gosta mesmo é de editar vídeos para Capitolina. Gorda e feminista desde criança também (apesar de só saber que é esse o nome há pouco tempo). Acha que a melhor banda do universo é Arcade Fire e pode ficar horas te convencendo disso. Em Hogwarts é 70% Corvinal e 30% Grifinória.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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