5 de setembro de 2015 | Edição #18 | Texto: | Ilustração: Beatriz H.M. Leite
Conquista: substantivo feminino

Curto bastante definições de dicionário. Quando pesquisei a definição de “conquistar”, algumas das respostas foram:

1. Apossar-se ou dominar pelas armas; subjugar, tomar;
2. Alcançar (algo);
3. Ser bem-sucedido numa proposta amorosa.

A conquista é, portanto, associada a territórios, metas e relacionamentos. Para conquistar algo é preciso de um pouco de coragem. Saber se jogar em determinada situação, com um pouco de confiança. Mas como fazer isso se nós, mulheres, somos constantemente ensinadas a recuar?

Explico: não é segredo para ninguém que vivemos em uma sociedade que categoriza e padroniza pessoas de acordo com seu gênero. O comportamento padrão esperado de um homem é o papel de dominador. Espera-se que os homens sejam violentos e saibam impor suas vontades, enquanto das mulheres espera-se passividade e delicadeza. Esses comportamentos são ensinados desde cedo, seja na família, na escola, na igreja, enfim, em diversos lugares. Às vezes até mesmo na fila do mercado comprando Kinder Ovo, por exemplo. Sei que Kinder Ovo é caro, mas, pra quem não viveu a fase de ouro, antigamente ele custava mais ou menos 1 real e não tinha essa divisão por gêneros. Bons tempos.

Mas voltando ao que interessa: você provavelmente já ouviu alguém dizer ao seu primo, irmão ou a um menino desconhecido chorando na fila do mercado — talvez triste por não ganhar um Kinder Ovo rosa, vai saber… — que “homem não chora”. E você com certeza já ouviu ou ainda ouve de seus familiares e amigos para tomar cuidado ao andar por aí. A rua — e às vezes até mesmo a própria casa — é perigosa. Aqueles meninos, que aprenderam a não chorar, podem transformar-se em homens que sabem como se impor — às vezes de forma violenta. Você se lembra de um cara chamado Julien Blanc? Esse cara foi proibido de entrar no Brasil em 2014, depois de uma petição organizada por movimentos feministas. Esse tal de Julian é (era? onde tá esse cara? espero que longe de mulheres) famoso por dar palestras e cursos ensinando homens a conquistar mulheres utilizando violência física e psicológica. Sim, bem nojento. Mas, infelizmente, o que esse cara faz é intensificar algo recorrente na sociedade: utilizar diversas “táticas” para minar nossa autoestima e, consequentemente, nossa confiança. Esses comportamentos que destroem, aos poucos, nossa confiança acontecem em diversos contextos, porém o mais comum é o das relações afetivas heterossexuais. Alguns são imperceptíveis e receberam nomes (em inglês), como o gaslighting.

Ainda sobre relações afetivas, associá-las à conquista é beeem problemático. Porque, bem, vivemos em uma sociedade que espera dominação de um grupo e submissão de outro. Falando em relações hétero, espera-se que as mulheres sejam “difíceis” e que os homens sempre tomem a iniciativa. Mas pessoas são pessoas e fogem da convenção social (ainda bem). Nem todo homem toma a iniciativa. E nem toda mulher espera passivamente a iniciativa. É importante desconstruir esses papéis. Assim como é importante lembrar que relações não são jogos de conquista. Elas envolvem sentimentos e, acima de tudo, consentimento. Existem muitas pessoas invasivas que tentam conquistar a qualquer custo. Às vezes isso não acontece de forma agressiva, mas como uma forçação de barra. Isso pode ser desgastante. Mas, miga, lembre-se sempre: você não é obrigada.

Pra resumir, os homens foram e são incentivados a dominar/conquistar. Territórios, coisas e pessoas. É só lembrar um pouco das aulas de história. Aliás, faça um teste. Quando estiver com um livro de história por perto procure por nomes. Quantas mulheres você consegue encontrar? Quantas não estão associadas aos homens e suas conquistas? A não ser que o livro tenha como tema as mulheres, provavelmente serão poucas as vezes em que elas terão suas conquistas contempladas. Mas isso não quer dizer que conquistar seja algo intrinsecamente masculino — aliás, nada é. Porque, sim, mulheres também são seres ativos que… conquistam coisas. O que acontece é que, muitas vezes, nossas conquistas são escondidas e até mesmo desacreditadas. Quando, por exemplo, mulheres ocupam altos cargos em empresas, é comum levantarem suspeitas — bem toscas, convenhamos — a respeito do que as levou a um cargo tão alto. Porque na maioria das vezes em que conquistamos algo temos de provar o tempo todo o quanto somos boas naquilo. E também há a possibilidade de sermos avaliadas por critérios aleatórios, que não tem nada a ver com aquilo que desempenhamos, como nossa aparência. É desgastante, sim. Mas, nos dias em que tenho fé na humanidade, penso que logo mais isso tudo vai mudar e as mulheres serão cada vez mais encorajadas a seguir suas vontades e conquistar tudo aquilo que querem.

E aí, qual será a sua próxima conquista, miga?

Heleni Andrade
  • Colaboradora de Artes
  • Ilustradora

Minhas amigas me chamam de Leni. Estudo Artes Visuais mas tenho um pézinho no design. Gosto de navegar na internet, fotografar o mundão, cozinhar, descobrir músicas legais e fazer playlists.

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