19 de setembro de 2015 | Ano 2, Edição #18 | Texto: | Ilustração: Dora Leroy
Conquiste sua voz!

Nenhuma pessoa nesse mundo tem menos direito a usar a própria voz (seja ela literal ou metafórica) do que outra. Acho que no momento em que entendemos isso é quando começamos a, finalmente, parar de nos desculpar por expor aquilo que pensamos, mesmo se isso significar ir contra a opinião dos demais presentes em uma discussão, por exemplo.

O fato de nós, mulheres, nos sentirmos muito pressionadas a manter nossa voz num volume baixiiiiiiiinho claramente tem muito a ver com (adivinha!) o machismo ao qual somos submetidas desde sempre. Quer dizer, a gente sempre entendeu que quem tem a última palavra é o homem cis da mesa, como se as opiniões dele fossem mais certas e ele tivesse mais direito de se colocar do que a gente. Quem nunca passou pela seguinte situação: você faz uma observação numa discussão e ninguém dá muita bola, mas então um homem entoa a mesmíssima afirmação e, de repente, aquela se torna a melhor ideia do universo, e oh-meu-deus-como-ninguém-pensou-nisso-antes?!

É realmente muito difícil recuperar nossa voz, enquanto mulheres, depois de aprendermos, por meio desse tipo de experiência, que não devemos ter – ou, se tivermos, devemos nos desculpar por ter – opinião própria. Para mim, o primeiro passo para reconquistar nossa voz é perceber qual o meio pelo qual mais gostamos de ser ouvidas. Quero dizer, é maravilhoso o fato de hoje haver cada vez mais mulheres superfortes, carismáticas, com presenças muito marcantes que vão peitar qualquer debate e rebater qualquer argumento sem gaguejar nem por um instante. Mas há mulheres tímidas, mulheres que não se comunicam bem por meio da fala, mulheres mais inseguras e até mulheres que não podem falar. E elas têm o direito de ter suas ideias ouvidas também. O daora é existirem muitas formas de nos colocarmos, não somente a fala. Você pode descobrir que prefere se expressar por ela, é claro, mas, se esse não for seu forte, pode explorar a escrita, a arte, etc. Quando eu falo em “usar a voz”, falo nesse sentido amplo e metafórico da palavra, não somente a voz biologicamente falando.

Independentemente do meio escolhido, lembre-se sempre disto: você não é obrigada a saber tudo! Você não precisa ter lido todos os autores e filósofos da humanidade para fazer uma consideração. E você não precisa saber se posicionar sobre absolutamente todos os debates, você tem direito de fazer perguntas e de, simplesmente, dizer “não sei”. Ter consciência de que você pode perguntar faz parte do processo de se apropriar da sua voz. Aliás, desconfie daquelas pessoas que sempre sabem falar sobre tudo e nunca têm dúvidas sobre nada! Ouça com bastante atenção quando elas falam e veja se aquela voz é delas mesmo. É impossível alguém de fato deter todo o conhecimento e saber de cor o significado da vida, do universo e tudo mais. E, mesmo se existir esse alguém, que coisa chata não ter para onde crescer! Qual o objetivo de conquistar um lugar de fala se nada vai se somar a você com isso, né?

Por falar em lugar de fala, é legal lembrar sempre, como eu disse no começo, que ninguém tem mais ou menos direito de falar nesse mundo. Com isso, além de querer dizer que você tem todo o direito de se expressar e dizer o que pensa, o que te incomoda e aflige, quero dizer que não há como ter um espaço para falar se as outras pessoas não o têm também. É importante respeitar e dar abertura para pessoas com vivências diferentes das suas falarem sobre elas e para se expressarem também. Afinal, todo debate é um ambiente de troca e não adianta nada ter um espaço se isso significar diminuir a voz de outras minas, e por causa disso é tão importante a gente se unir, com todas as nossas diferenças e recortes, para conquistar e ocupar nosso espaço!

Por isso, é essencial separar discurso de ódio de liberdade de expressão. Não é porque temos uma voz que podemos sair oprimindo pessoas menos privilegiadas a torto e a direito. Mas se o ponto de vista que você quer expor não for nesse sentido, e for simplesmente um pensamento diferente daquela predominante em determinado debate, você pode se colocar! Eu, por exemplo, sempre tive muita dificuldade em me expressar por medo de ofender, de que isso significasse perder uma amiga ou amigo, de que a pessoa com quem estou discutindo não fosse mais gostar de mim. Claro que, se você for se colocar de maneira opressiva, isso vai fazer com que pessoas ao seu redor se ofendam, e não é legal usar da conquista da sua voz para oprimir os outros. Mas, se o ponto de vista não mina o espaço alheio, se você não está sendo desrespeitosa e nem tirando a voz de alguém, pode e deve se posicionar, porque fazer isso por si só não é motivo para alguém não gostar de você. Até porque, se você não o fizer, como vai poder desenvolver e até mudar totalmente de opinião? Como a pessoa do outro lado vai fazê-lo? Ideias são feitas para se somarem, para serem aumentadas e alteradas, não para serem cultivadas num potinho em segurança.

Nesse processo de abrir a caixinha das nossas ideias e opiniões, muitas e muitas pessoas vão tentar nos calar, porque, é claro, todo mundo quer ganhar um debate, e se você for contra a posição majoritária vai ser interessante para quem está do outro lado fingir que um pensamento destoante não existe. É lógico, também, que se você se impuser e não deixar passar situações de opressão contra você e outras pessoas vai ter quem queira que você se cale, por ser mais interessante manter uma situação de opressão estrutural. Por que você acha que tanta gente é ferrenhamente contra o casamento de pessoas do mesmo gênero e tenta com tantas forças bombardear a discussão em torno do assunto? Porque muita gente tem medo de, se a discussão avançar, perder seus privilégios e prefere manter essa situação de extrema opressão e desigualdade.

Nesse sentido, muitos caras nessa vida ainda vão tentar nos calar falando mais alto do que nós, vão fazer o gaslighting quando apontarmos uma situação de opressão, dizendo que somos loucas e que aquilo não faz sentido. Precisamos achar a força para virar para eles e dizer “você pode tentar discutir comigo com argumentos, e não aumentando seu tom de voz” e “se eu me senti oprimida (ou outra pessoa) isso é válido, eu não preciso da sua validação”. Muitos, ainda, vão tentar dar uma explicação para alguma coisa que já estamos carecas de saber (o famoso mansplaining). Isso também é silenciamento e precisamos fortalecer umas às outras para, nessas situações, conseguirmos dizer “não preciso de explicação, obrigada”.

Se aproprie do que você quer dizer. Confie nas suas experiências. Se quiser se aprofundar, converse com pessoas com vivências parecidas. Se tiver a possibilidade, leia sobre temas que te interessam. Você não precisa saber de tudo e, quanto mais dúvidas tiver, mais terá para onde crescer. E lembre-se, até o ato de se expressar é um ato coletivo que fica mais poderoso e fácil se tivermos o apoio umas das outras, então apoie quando outra mulher for se posicionar, apoie o esforço de se comunicar (isso, de novo, se aquilo não for oprimir outras pessoas; sem sororidade seletiva, hein!). Nós temos direito de falar. Vamos usá-lo!

Beatriz Trevisan
  • Cofundadora
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Colaboradora de Música

Bia, 23 anos (mas todo mundo acha que ela tem 13), feminista interseccional e estudante do último ano de direito. Talvez queira seguir na área, mas seu sonho de verdade é ser cantora e escritora. Se bem que, se fosse possível, largava tudo isso e se tornava Mestre Pokémon pra ontem.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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