21 de fevereiro de 2015 | Relacionamentos & Sexo | Texto: | Ilustração: Beatriz Quadros
Consentimento: no carnaval e sempre.

Chegou aquela época do ano: carnaval!

Algumas amam, outras odeiam. Tem galera que aproveita para viajar, descansar, arrumar a casa e tem também quem quer ir em todos os blocos e curtir as ruas.

Esse texto é mais pra segunda galera, mas na verdade vou falar de algo que é importante o ano inteiro: consentimento.

Durante o carnaval, muitas regras podem ser quebradas: todo mundo se fantasia, pessoas andam no asfalto, a festa rola o dia inteiro. Esse clima de libertinagem é bem conhecido e um dos atrativos do carnaval é, definitivamente, a pegação. Fica aquele clima no ar, e troca de olhares, beijos e sexo rolam com muito mais facilidade.

Infelizmente, isso significa que existe mais assedio também. Quem vai pra bloco sabe:  muitos caras puxam cabelo, pegam pela mão, já saem tentando beijar sem nem saber se você está interessada e – surpresa, surpresa- ISSO NÃO E OK.

Se você olha aquele gatinho, ou aquela gatinha, e ele ou ela ja vem logo te beijar, que show! Mas, muitas vezes, esse tipo de comportamento é não requisitado. Já que clima pode ser de pegação, muita gente pensa que pode tudo. Mas não pode tudo! Pode só o que você quiser, o que você se sentir confortável pra fazer.

Quando você concorda com alguma coisa, você consente com ela. Daí vem a palavra consentimento, que deve ser lembrada sendo ou não sendo carnaval. Qualquer pratica afetiva, amorosa e sexual precisa de consentimento. Se ele está ausente, o que está acontecendo é algum tipo de abuso.

Tem muito cara por ai que acha que dizer não é charminho e que, no fundo, a gente quer sempre dizer sim, portanto, ele tem mais é que insistir. Ou então que pode questionar “mas como em uma troca de olhares da para eu saber se ela quer ficar comigo ou não? Como saber se ela quer?”. Pois bem, vou contar uma coisa: esses caras são babacas.

Primeiro que ninguém é obrigada a saber se vai querer ficar com alguém de cara, então, pode dizer não e depois dizer sim, ou vice-versa. Segundo, que se você está dizendo não e a pessoa continua insistindo, você está tendo seu espaço, sua vontade e seu desejo desrespeitados. Terceiro, que se a mina quiser ficar com você, vai existir algum momento em que isso vai vir à tona, seja falado ou não. Por último, charminho é algo que pode existir, as vezes a menina pode mesmo querer que você tente um pouco mais, mas isso é uma exceção, e a gente tem que agir conforme regras.

Vamos deixar bem claro: ir para um bloco não significa que você é obrigada a ficar com ninguém. Podemos ir pra um bloco pra curtir com as amigas e os amigos, tomar alguma coisa, dançar, ver a rua e usar aquela fantasia demais.

A linha entre insistir e desrespeitar não é tão tênue assim. Existem códigos e sinais que demonstram se a pessoa está interessada e, por mais que eles não sejam tão claros e muitas vezes sejam bem confusos, um não é sempre claro. O não está ali, a menina pode te dizer, pode largar o braço dela da sua mão, virar a cara etc. Pegue esse não e prossiga sua vida. Continuar depois daqui é desrespeito, falta de noção, falta de conhecimento sobre as leis, falta de humanidade. É dizer que a opinião daquela mulher não importa tanto quanto a sua, é dizer que ela é inferior e por isso você pode o que vocês quiser, mesmo sem ela deixar e querer.

Por fim, existem algumas formas de se livrar de caras babacas em blocos – veja bem, de certa forma isto é culpabilizar a vítima, já que nós que temos que lidar com a babaquice dos outros, mas, mesmo assim, gosto de dar algumas dicas pra sair dessas situações porque provavelmente vocês vão enfrentar momentos assim, seja no carnaval ou seja em qualquer outro momento.

1)Dizer que tem namorado. Isto é bem escroto porque significa que o cara vai deixar de falar com você porque você já é propriedade de outro. Ou então não vai deixar de falar com você porque “o que você está fazendo sozinha sem seu namorado no bloco?” (“me divertindo sem ser propriedade de ninguém????”). Mas é uma resposta que pode funcionar.

2) Dizer que está com uma amiga, que vocês estão ficando. Está também caí novamente naquela de o único motivo pra não desejar aquela pessoa é simplesmente porque você já deseja outra. Está aqui também pode gerar as famosas “deixa eu ver vocês ficarem”, “podemos ficar os três” ou “isso é porque você ainda não conheceu o homem certo”. Que são todas coisas escrotas de caras que acham que mulheres lésbicas são um grande show de entretenimento, que elas vão se interessar por ele e, ainda por cima, que não existe essa de ser lésbica na real. Bons tempos virão onde lésbicas serão tratadas como o que são: seres humanos que merecem respeito, apoio e privacidade.Mas quem sabe isso pode fazer com o que o cara vá embora.

3) Sair correndo gritando. Tirando o fato do carnaval dificultar a corrida está é minha favorita até agora. Certamente você irá se livrar do dito cujo.

4) Ser uma pessoa extremamente paciente e fazer algo que você não tem a menor obrigação de fazer: dar uma breve aulinha de feminismo no bloco. E explicar pra pessoa em questão que você é dona do seu corpo, pode dizer não pra quem quiser, que ele está invadindo seu espaço e sendo desrespeitoso e, possivelmente, criminoso com as ações dele. E que existem outras minas por aí, que podem se interessar, vai lá, mas saiba ouvir um não.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

  • Diego Cavalca

    Hahahahaha Adorei o texto! Só “peço” que deem um tantinho de atenção a digitação, me atrapalhou um pouco em alguns momentos. Mas amei a mensagem! :p

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