3 de março de 2015 | Edição #12 | Texto: | Ilustração: Verônica Vilela
As construções de loucura e normalidade

Este artigo diz respeito à construção das ideias de loucura e normalidade na linguagem do dia a dia e do senso comum, e não a transtornos mentais ou questões médicas e psiquiátricas, das quais trataremos mais pra frente no mês.

Quando dizem que alguém está louco, o que em geral querem dizer? Uma outra forma muito comum de falar a mesma coisa é dizer que a pessoa está “fora de si”. Chamar alguém ou algum comportamento de louco, maluco ou outro nome parecido é dizer que aquilo não é normal, não é a forma como a maioria faz ou pensa. Em alguns momentos – mesmo que seja a minoria – isso pode até ser dito com uma intenção positiva: pensar e fazer diferente dos outros pode levar a novidades e até mesmo a uma nova ideia do que é normal.

Loucura e normalidade são um par que só fazem sentido quando relacionados – uma pessoa só pode ser lida como louca se outra for considerada normal e vice-versa. A normalidade está associada com o comportamento da maioria, com funcionalidade e produtividade. A loucura seria a exceção, o comportamento desordenado.

Justamente por fazer parte desse par relacional, o que é considerado insano em um local ou época pode não ser considerado em outro. Cada momento histórico e cada sociedade constroem sua própria forma de estar no mundo – mesmo que com inspirações no passado –, e o modelo hegemônico de fazer as coisas para aquelas pessoas será considerado normal. Por isso muitas vezes o simples fato de alguém pensar diferente faz com que aquela pessoa seja considerada maluca. Portanto, a loucura, a insanidade, a maluquice são definidas por regras sociais. Existem hábitos predominantes em uma sociedade e muitos dos que não fazem parte dessa categoria vão ser entendidos como loucos.

Assim, quando a gente chama alguém de maluco estamos concordando com as regras gerais da sociedade, assinando embaixo do que nós consideramos normal, e pressupondo que o que foge dessas normas é estranho. É preciso, então, sempre manter em mente duas coisas: primeiro, o que a gente acha normal pode ser considerado totalmente anormal em outro lugar, então essa coisa de normalidade é inteiramente subjetiva; segundo, e mais importante, só porque uma pessoa faz algo de forma diferente do que aceitamos como “normal” não precisamos descartá-la por isso, devemos tentar entender seus motivos, ou no mínimo respeitá-los. O que vemos como normal não é necessariamente bom, e o que acabamos por chamar de “louco” não é necessariamente ruim.

Brena O'Dwyer
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo

Brena é uma jovem carioca de 22 anos que cada dia tem um pouco menos de certeza. Muda de opinião o tempo toda e falha miseravelmente na sua tentativa de dar sentido a si mesma e ao mundo em que vive. Gosta de ir ao cinema sozinha as quintas a noite e de ler vários livros ao mesmo tempo. Quase todas as segundas de sol pensa que preferia estar indo a praia, mas nunca vai aos domingos.

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