7 de janeiro de 2019 | Ano 5, Edição #45 | Texto: | Ilustração: Natália Schiavon
Sobre as construções mais frágeis

Nessa foto abaixo vocês podem ver a primeira mandala de comida que eu fiz. Eu estava procurando uma alimentação que me nutrisse mais e me envenenasse menos, por isso iniciei com a dieta da professora Ana Branco, me orientado por vídeos e sites da internet. Foi de lá que tirei a ideia de desenhar com frutas e legumes crus.

Essa mandala foi feita há quase um ano e eu levei 40 minutos admirando-a antes de comê-la. Me parecia terrível destruí-la! Fiquei namorando o prato antes de botar a primeira fruta na boca. Tem gente que serve a comida toda paçocada: “pra que separar, se depois de mastigar vai tudo ficar misturado dentro de mim?”, elas questionam de forma retórica, claro!

Eu também me perguntei isso. Para que fazer um desenho tão bonito, se, no final das contas, ele vai se desmanchar todo? Acho que não consegui me responder esse questionamento no mesmo dia – a fome falou mais alto. Mas segui desenhando com frutas no café da manhã durante semanas e o tempo investido em admirar o prato foi diminuindo: talvez pela certeza de que, no dia seguinte, haveria mais uma mandala incrível para eu fazer, apreciar e, finalmente, comer.

No início, eu tirei fotos, mas depois comecei a achar esse hábito uma traição do propósito de desenhar com legumes e frutas se o material é perecível, então o resultado final também precisa ser. Acho que a graça não estava no desenho em si, mas, antes disso, no processo de construir. E destruir também. Na verdade, não se trata nem de destruir, mas de transformar: afinal de contas, no início eram frutas soltas, que eu organizei para que formassem um desenho que foi comido. Uma vez digerido, o desenho se converteu nos nutrientes que me alimentaram. Não é assim? Uma coisa que vira outra!

Às vezes parece que a vida precisa girar em torno de uma grande obra talvez por um certo medo de perder tempo se aventurando por outros caminhos. Existe muito apego e vontade de controlar tudo. Não que devamos abrir mão dos nossos planos e projetos, mas é bom lembrar que a minha jornada é tão frágil quanto uma mandala de frutinhas.

Quando eu era adolescente, ouvia meus pais contarem sobre as restrições impostas pelos regimes militares. Aquelas histórias me soavam distantes e impossíveis de se repetir. Hoje, já não tenho mais certeza. Certas garantias democráticas, que me pareciam uma construção bem sólida, têm se mostrado pueris.

Sei que estamos fazendo o possível para que todos vivam em segurança e parece que não tem sido o suficiente. Perante ao baque que sofremos no final de 2018, é possível que alguém se questione: para quê lutar e trabalhar por um país melhor se a minha nação faz escolhas aviltantes?

Algo me diz que, durante os próximos anos, exercer e garantir os meus direitos será como fazer um desenho com frutas: uma tarefa diária, do tipo que requer disciplina. Colocar peça por peça, escolhendo com cuidado a melhor posição, mesmo sabendo que as coisas podem ser desmanchadas com muita facilidade. Tendo a consciência de que, no dia seguinte, precisaremos fazer tudo de novo, fica evidente que o objetivo é tão importante quanto a construção em si. Que seja doce!

Ayodele Gathoni
  • Colaboradora de Artes

Ayodele Gathoni tem uns 20 e poucos anos e mora no Rio de Janeiro. Gosta de ver desenho animado, rodar bambolê e confeccionar licores artesanais.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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