10 de julho de 2016 | Ano 3, Edição #28 | Texto: | Ilustração: Clara Browne
Construindo a autonomia de fala: o que você tem pra dizer é IMPORTANTE

Em algum momento da vida você já deve ter sentido medo ou insegurança pra poder expressar o que pensa ou quem você é de alguma forma. Falar em sala de aula, fazer uma pergunta, falar dentro de um grupo de amigos ou desconhecidos, colocar sua opinião em alguma rede social, enfim, se expressar. Não só de maneira verbal, às vezes com movimentos, aquela dançada em alguma festa que vem acompanhada de mil pensamentos “será que estão reparando que eu estou fazendo isso? Será que tá estranho?”. São coisas pelas quais enfrentamos dificuldades naturalmente, tanto pela socialização que vivemos, quanto pela insegurança de uma forma geral. Esse texto tem a intenção de apenas lembrar uma coisinha: o que você tem pra falar é, sim, muito importante!

Essa arte de crescer não é lá muito fácil, né? Desde pequenos, em muitos lugares – com exceções, claro – somos ensinados a “não falar quando adulto está falando”. Isso vai criando uma certa ideia de que o que falamos ou expressamos é “coisa de criança”. Conforme vamos crescendo e nos tornando adolescentes, vamos querendo conquistar cada vez mais espaço para “ser” e “estar”.

Muitas vezes, o meio social adolescente consegue ser cruel. Nessa parte da vida em que estamos tentando tão fortemente definir quem somos, nos identificar em algum grupo, e que o comportamento de grupo influencia bastante, o julgamento e a expectativa em torno das pessoas pode ser grande, qualquer coisa pode ser considerada estranha, pode gerar “exclusão”, pode fazer com que “não tenhamos amigos” ou “não sejamos legais”. Isso pode parecer o fim do mundo nessa fase.

É aí que tá, falar em público, perguntar em sala de aula, falar sua opinião (principalmente quando ela é contrária à da maioria) se torna um desafio grande, porque qualquer coisa pode se tornar motivo de julgamento. E isso muda na vida adulta? Não tanto, essa possibilidade ainda existe (apesar de ser menor), só que a gente aprende a lidar com isso e ela tem um pouco menos de peso. Pouco a pouco vamos reconhecendo que se não vivermos nossa vida, ninguém mais a viverá por nós. Não é justo perder a vida pelos outros, nem pelos comentários daqueles que não estão passando por nada do que a gente passa.

Sendo mulher, na nossa sociedade, isso ganha ainda mais peso. Porque somos levadas a acreditar que quando expressamos o que sentimos/pensamos somos “as loucas”. Somos levadas a acreditar que só podemos ser uma das coisas: ou a bonita, ou a gostosa, ou a inteligente e, enfim, as classificações só aumentam. Numa sociedade que tanto valoriza o “ser homem”, quando ganhamos fala em algum ambiente, não somos levadas a sério, porque “nosso lugar é na cozinha” ou cuidando dos filhos ou realizando as demais tarefas que são consideradas “de mulher”. E, ao longo do tempo, depois de tanto ouvir essas coisas e sermos diminuídas, acabamos acreditando em tudo que falam, ou escolhemos nos calar porque acaba sendo mais fácil e seguro.

Então, você é mulher, adolescente, na sociedade e tempo de 2016, tudo parece te silenciar, principalmente quando você toma outros lugares oprimidos (sobre os quais não estou fazendo o recorte neste texto). Mas eu estou aqui pra te dizer algo diferente do que a sociedade sempre te fala: você é maravilhosa, é inteligente, o que você tem pra falar só pode ser dito por você e o mundo precisa disso.

Querendo ou não, tudo o que vamos dizer e expressar carrega muito da nossa história. Temos o nosso jeitinho particular de falar, temos os nossos conhecimentos e vivências adquiridos durante a vida, temos características que são só nossas e que vêm da interação de várias coisas (desde genética, o ambiente em que vivemos, todas as nossas experiências; milhões de coisas se misturando) e essa interação SÓ NÓS TEMOS. Por mais que às vezes possa parecer difícil dizer, você é a melhor forma de representar o seu mundo interno em qualquer ambiente, porque só você viu as coisas que viu, viveu as coisas que viveu, e só você fez tudo da sua forma tão particular.

Se calar quando queremos expressar algo, pela possibilidade de sermos julgados, não vai fazer com que aquilo suma. Se você se sente triste, não expressar isso não vai fazer com que a tristeza suma, mas talvez faça com que você tenha que enfrentar isso sozinha. Uma coisa que eu descobri é que expressar nosso mundo interno pode, sim, afastar umas pessoas, mas pode – e tem muito mais poder pra isso – nos aproximar de outras, mais parecidas conosco, que vão acabar sendo as pessoas certas naquele momento; pode também ajudar alguém que sente as mesmas coisas, mas também não acha espaço pra poder expressar.

Uma dúvida pode parecer muito estúpida, mas existem grandes chances de que, quando ela for posta pra fora, esse peso de “será que vai ser ruim eu perguntar isso?” seja muito menor do que você imagina. E se a dúvida não for expressa, quem leva ela pra casa é você, isso pode ser um autoboicote.

Outro aspecto importante pra lembrar é que tudo que uma pessoa possa pensar sobre você, ou dizer sobre você, tem muito mais relação com ela do que com a verdade. Ninguém conhece sua história em cada detalhe, ninguém sente tudo o que você sente na pele. Tem uma coisa que eu vi por aí, internet a fora, que levei pra vida como ensinamento quando surgia esse medo do que o outro podia pensar sobre mim (acredito que seja do Freud, porque foi a referência que vi): “quando Pedro me fala sobre Paulo, sei mais de Pedro que de Paulo”.

Então: vai ser impossível controlar o que os outros podem pensar e falar sobre você, isso é mais uma característica do outro do que sua. Mas nada vale mais do que viver sua vida pra você, ser feliz por você. Se for pra deixar de falar, sem problemas, desde que seja por você! Se for pra perguntar em particular pro professor, depois que a aula acabar: também tá tudo bem, desde que isso te faça sentir mais confortável e não te leve pra casa com dúvidas, desde que isso seja um cuidado consigo.

Assim, a gente vai arrumando formas de investir mais na gente e de se representar nesse mundo. Porque, ao longo do tempo, a gente acaba percebendo cada vez mais que o que as pessoas já disseram sobre mim… passou. O que as pessoas já pensaram sobre mim, muitas vezes, mudou e quase sempre não era verdade. Mas o que eu fiz por mim, isso me fez deslanchar, aprender, me amar mais, me conhecer ainda melhor e me representar no mundo (coisa que ninguém pode fazer no meu lugar).

E assim a gente vai percebendo: o que eu penso pode ser estranho para os outros, o jeito que eu danço pode ser engraçadinho, meu jeito de se mover pode ser peculiar, mas ele é SÓ MEU e ele tem uma razão pra ser do jeito que é. E, se posso falar pela minha experiência, no final, todas as vezes que segui em frente sendo eu, mesmo quando tinha medo ou vergonha, a reação das pessoas foi muito mais “nossa, isso é tão ela, que legal!” do que qualquer outra coisa.

Karoline Siqueira
  • Colaboradora de Saúde

Estudante do ultimo ano de Psicologia, no interior de SP. É mãe solo de um bebêzinho de 8 meses, trabalha, estuda, escreve e CORRE MUITO na vida. Gosta de falar sobre temas que envolvem a maternidade real, pra desmistificar um pouco essa coisa mágica em torno da maternidade, e de questões que envolvem a área da saúde psicológica. É feminista interseccional e tenta, dentro das possibilidades com o bebê, participar dos grupos e eventos que envolvem sua militância (também gosta de discutir o espaço materno dentro do feminismo). Foi mãe jovem, engravidou com 21 anos e ainda estudando, então tenta formar ao máximo uma figura de apoio à jovens mamães, provando que mesmo nas maiores adversidades, respeitando a própria vontade e intuição: é sim possível. Também gosta de dançar, de ler, de Beyoncé, gatos e chocolate.

  • Viih

    Amei <3

  • Lucas Weber Lara

    Por que uma foto minha está ai em cima ilustrando o texto?

  • Lucas Weber Lara

    Por que eu to com essa roupa tosca?

  • Andrezza Alencar

    Muito bom, esse texto me deixou inspirada a ser quem sou <3

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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