25 de julho de 2015 | Ano 2, Edição #16 | Texto: | Ilustração: Bárbara Fernandes
Contra a fofoca tóxica!

Existe uma palestra da autora nigeriana Chimamanda Ngozi Adichie, que já citamos algumas vezes aqui na Capitolina. É sobre o perigo da história única – mas especificamente se referindo a estereótipos culturais – e como é preciso tomar cuidado quando se pensa em esteriótipos como a verdade absoluta sobre algo. Todo esteriótipo pode ser verdade, mas um estereótipo é só uma história em um conjunto complexo de várias histórias. Acho que também podemos lembrar dessa fala da Adichie quando pensando em fofoca: um rumor de um lado só.

Fofocas tóxicas envolvem o que uma pessoa fez, o que uma pessoa fez com outra pessoa, o que uma pessoa é ou não é, o que uma pessoa tem. Fofoca nunca é relevante, afinal, a verdade é que pouco importa o que uma pessoa fez, o que uma pessoa é, o que uma pessoa tem: se alguém precisa que a gente saiba dessas informações, essa pessoa vai nos contar, não é? Por isso fofocas são um rumor de um lado só: porque a não ser que a pessoa venha nos contar diretamente, pode até ser verdade, mas essa informação vem filtrada por quem está nos contando. Ou pior ainda: completamente inventada.

Durante minha experiência escolar, lembro que fofocas eram especialmente cruéis para as meninas – afinal, vivemos em ambientes onde a fofoca é especialmente tóxica para nós e os meninos permanecem protegidos pela sociedade que, por exemplo, louva o rapaz pegador e condena a menina namoradeira. Mas fofocar é recorrente e durante toda nossa vida temos que lidar com isso. Nós naturalizamos falar mal de outras meninas pelas costas, fazemos sem nem nos dar conta de por quê é errado. Raramente quando ouvimos algo sobre alguém, vamos atrás da pessoa preocupados em ouvir a versão dela a respeito da história – afinal, isso envolviria a confissão que sabemos do segredo de alguém por meios de terceiros e participar de fofoca às vezes pode ser tão ruim quanto fazê-la.

Fofocar é errado por ser uma forma de julgamento. Às vezes, quando fofocamos, estamos julgamos alguém por suas ações, comparando nossos princípios com os de outra pessoa. Fofocar também pode ser uma forma de romper laços de confiança, que são tão importantes para a sororidade entre mulheres. Confiar alguém com um segredo que depois é espalhado como rumor é uma facada nas costas. Por isso é importante que a gente seja ativa na criação de ambientes de confiança entre meninas. Evitando comentar ou escutar sobre a vida da outra. Você pode dizer: não, eu não quero saber disso e tomar um passo contra a fofoca tóxica.

Também temos segredo que precisamos compartilhar (afinal, tem coisas que não podemos guardar para sempre). Saber que podemos contar sobre nossa vida íntima para uma miga e confiar que com ela esse segredo não se tornará uma fofoca é uma forma de emponderamento, sim! Quando guardamos um segredo, estamos quebrando o vício tóxico da sociedade de achar que pode se intrometer na vida alheia.

Guardar segredos é uma oportunidade de criar laços, ouvir conselhos, repensar atitudes, compartilhar experiências – existe melhor exemplo de sororidade do que esse?

Rebecca Raia
  • Coordenadora de Artes
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Coordenadora Editorial

Rebecca Raia é uma das co-fundadoras da Revista Capitolina. Seu emprego dos sonhos seria viajar o mundo visitando todos museus possíveis e escrevendo a respeito. Ela gosta de séries de TV feita para adolescentes e de aconselhar desconhecidos sobre questões afetivas.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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