4 de agosto de 2014 | Edição #5 | Texto: | Ilustração:
A cor dos outros
racismo-helenazelic

racismo-helenazelicIlustração Helena Zelic 

Historinha 1: Outro dia, conversávamos no trabalho sobre uma aula de sociologia em que o professor perguntou à turma quem se considerava negro e poucos levantaram a mão. Basicamente só se consideraram negros aqueles de pele bem escura, enquanto os mais claros, embora não se vissem como brancos, também não se viam como negros – se diziam morenos ou variações do tipo. Os professores presentes na conversa sobre isso ficaram impressionados. Quando falei para eles que isso não me espantava e que eu só passei a me entender como negra há poucos anos, todos deram de rir. Para eles, era óbvio que eu sou negra.

Historinha 2: Quando a Capitolina tinha uma semaninha de vida, li um comentário na internet de uma pessoa com uma crítica (muito válida) de que a nossa revista tentava ser inclusiva e representativa, mas, até aquele momento, não tinha nenhuma negra dentre as colaboradoras. Para essa leitora, era óbvio que eu não sou negra.

Do dicionário Aurélio online, racismo é:

s.m.. Sistema que afirma a superioridade de um grupo racial relativamente aos outros, preconizando, em particular, o isolamento destes no interior de um país (segregação racial) ou até visando ao extermínio de uma minoria (racismo anti-semita dos nazistas).

Aqui estamos falando sobre um tipo específico de racismo: discriminação contra pessoas negras. Mas quem são essas pessoas?

O que acontece é que, embora sejamos todos a mesma raça humana, resolveram dividir biótipos como se fossem raças também. E aí, a gente aprende que branco é uma coisa, índio é outra, negro é outra e por aí vai, esquecendo que somos todos poeira estelar e que essas divisões são ridículas e só servem para estimular essas segregações e, assim, a tal da discriminação.

Em vários países, que não o Brasil, as chamadas raças baseadas em biótipos não se misturam tanto (em outras palavras: tem bem menos gente filho/a de biótipos diferentes) e, por isso, lá fora são lidos como negros, pessoas com traços físicos específicos. Esses traços têm a ver tanto com a cor da pele quanto com o formato do nariz, os lábios mais grossos, o cabelo crespo etc. No Brasil, a coisa funciona um pouco diferente. Você já deve ter ouvido por aí a declaração hipócrita de que “no Brasil não tem racismo”. Normalmente, as pessoas justificam isso dizendo que, no nosso país, não tem por que ter racismo, porque há muita miscigenação (a tal mistura que falei ali em cima). Isso é uma grande bobagem, porque, pelo que observo, a única diferença do racismo contra negros no Brasil em relação a outros países é que aqui ser negro é (principalmente) uma questão de cor – passando também pela classe social, mas não vou entrar nesse aspecto neste texto.

Vou explicar: aqui, temos o costume de considerar negros apenas aqueles que têm a pele mais escura e não reparamos muito em outros traços físicos. Sendo assim, muitas pessoas que, por definição, são negras ou seriam consideradas negras em qualquer outro lugar, aqui no Brasil, não se veem dessa maneira, nem sofrem preconceito quando saem na rua. É mais ou menos o meu caso. Meu pai é negro e minha mãe é uma mistureba só (pele mais clara que a minha e traços misturados). Mamãe nunca sofreu nenhum tipo de racismo, mas, em outros países, é vista como negra. Eu, como comecei a contar ali em cima, às vezes sou lida como negra, às vezes não.

Minha primeira experiência como negra veio já com vinte e poucos anos, quando comecei a namorar um rapaz muito branco cuja família me considerava “a namorada negra do Fulano”. Nunca sofri nenhum tipo de tratamento diferenciado da parte deles, mas eles me viam como negra e eu nunca tinha passado por isso. Na verdade, alguns anos antes, foi quando refleti sobre isso pela primeira vez. Na época do vestibular, tive que marcar a minha etnia e “morena” não era uma das opções. Pois é, assim como os alunos da primeira historinha, cresci achando que eu era “morena” e precisei do vestibular pra sacar que “moreno” não é um biótipo.

Foi mais ou menos por aí que, muito lentamente, comecei a questionar por que eu e tantos outros de traços semelhantes aos meus crescemos nos dizendo “morenos” e percebi que a própria existência (e insistência) do termo é uma forma de racismo. Como a gente aprende que ser negro não é legal, a gente aprende também a não se dizer negro e fica saindo pela tangente, dizendo que é branca, morena, ou não dizendo nada.

Acabou que, no vestibular, marquei “pardo”, porque assim me orientaram. Até hoje não entendi muito bem o que é “pardo”. Perguntei por aí e as pessoas me disseram que pardo é o que não é branco, não é negro, não é índio, não é asiático… Pode se referir a uma mistura dessas coisas. Na mesma conversa da Historinha 1 ali de cima, o professor de sociologia me disse que eu podia e devia ter me marcado como negra no vestibular. Contando essa história pra outra pessoa, ouvi que não, eu tenho olhos claros, então, eu não sou negra. Muita gente acha que meus olhos claros vêm da família da minha mãe, já que ela tem a pele clara. Não sabem que, na família do meu pai, tem um monte de pessoas negras de olhos verdes, assim como os meus, enquanto, na família de mamãe, tenho alguns parentes distantes de olhos azuis. Então, sei lá se meus olhos vieram da família do pai ou da mãe, mas sou muito mais parecida com o lado do pai e lá tem muito mais olho claro. Bobagem dizer que olhos claros são coisa de branco.

Outro dia, estava lendo uma matéria sobre a dificuldade que mulheres negras sentem em encontrar maquiagem no Brasil. Você pode achar essa uma reclamação boba, porque é só maquiagem e há problemas muito mais sérios no mundo, mas é aí que tá: como assim um país onde a maioria é negra ou miscigenada não tem nem maquiagem de acordo com a cor da pele de seus habitantes? Isso é sim uma forma de racismo. Eu não tenho esse problema. Descobri que sou bege médio para o mundo dos cosméticos e sou feliz com meu corretivo. Mas aí, então, eu não sou negra? O foco na cor da pele é o que me permitiria fugir da classificação de negra e que me fez crescer a vida inteira me achando “morena”.

Na prática, o que acontece é que eu, por ser uma negra de pele clara o suficiente para só ser lida como negra em alguns meios, estou numa posição privilegiada no Brasil, pois não costumo sofrer racismo como meu pai e pessoas de pele mais escura sofrem. Não costumo enfrentar as dificuldades que pessoas negras de pele escura enfrentam diariamente. E é o próprio fato de que eu e outras pessoas negras de pele mais clara aprendemos que somos “morenas” que nos faz ver negros como “os outros”. É como se ser negro fosse um problema que ninguém quer ter e, se temos a pele um pouco mais clara, ufa, temos uma alternativa, podemos dizer que não somos negros e nos livramos de todos os problemas. É uma postura hipócrita e escapista, porque reforça a separação e, mais uma vez, faz com que os problemas que os negros enfrentam sejam problemas “dos outros”.

Mamãe conta que a avó dela dizia que “escapou de branco, preto é”. Acho que pensarmos dessa maneira é, de certa forma, um meio de combater o racismo. Porque o que mais tem por aí é gente racista que também é negra e nem sabe que é ou simplesmente não quer se ver assim. O silêncio em relação a declarar-se negro perpetua a discriminação já existente na nossa sociedade, porque põe o problema pra debaixo do tapete e nos distancia dele. Esse distanciamento acaba nos fazendo crer, erroneamente, que o racismo não existe, não nos afeta ou não é algo que nos diga respeito. E é assim que a questão não é discutida nem combatida. Quando somos negros e optamos por nos dizer “morenos”, “escurinhos”, “queimados de sol”, “bronzeados”, “da cor do pecado” (!) e variações do tipo, estamos negando nossa própria identidade e nos isentando da questão racial, que é sim um problema no nosso país. Somos parte do grupo oprimido (lembrando da definição do Aurélio) e estamos escolhendo, de maneira consciente ou não, ir pro lado do opressor. Devemos nos questionar por que essa atitude é tão comum, por que nos sentimos mais confortáveis nos declarando “morenos” do que “negros”.

De uns tempos pra cá, passei a me assumir como negra. Alguns olham espantados, não sei se por não me verem como negra ou se simplesmente porque as pessoas não costumam se declarar assim. Eu nunca vou saber o que é sofrer racismo de verdade, porque, como disse, nem todo mundo me vê como negra, então, não costumo sofrer racismo, mas essa luta me diz respeito também. Não é porque dei “a sorte” de ter uma cor de pele privilegiada na sociedade que a discriminação racial não é problema meu. Qualquer tipo de discriminação – seja de raça, classe social, orientação sexual ou o que for – é um problema de todos nós. Uma sociedade que segrega e exclui uns e dá preferência a outros é prejudicial a todos, pois prega desigualdade e hierarquias. Ninguém é melhor do que ninguém. E, só para frisar, ninguém é pior do que ninguém.

Fazer parte de um grupo privilegiado na sociedade não nos dá o direito de ignorar o problema. Eu não preciso ser o segurança do estabelecimento que olha torto pra negra que entrou e pede que ela se retire pra ser responsável por essa discriminação que ela sofre. Se eu ignoro a existência do racismo na sociedade, eu sou parte dele. O que podemos fazer é nos aliar àqueles que sofrem essas discriminações, ouvirmos suas dificuldades, respeitar essas dificuldades, aprendermos com essas pessoas e ajudá-las a combater esses discursos e essas práticas de ódio. Silenciar a questão nunca é combatê-la: ignorar é reforçar. Desse modo, se nos calamos, estamos contribuindo para o problema. Não nos calemos mais.

 

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Laura Pires
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Vlogger

Usa seu vício em séries e Facebook como inspiração para os textos, para a vida e para puxar assunto com os outros. Adora ouvir histórias e conversar sobre gênero, sexualidade, amor e relações amorosas – gosta tanto desses temas que deu até um jeito de fazer mestrado nisso. É professora de inglês, cantora e pianista amadora de YouTube, fala muito, ri de tudo e escreve porque precisa. Ama: pessoas e queijo. Detesta: que gritem.

  • Bianca

    Uma vez, em sala de aula, um aluno meu fez comentários racistas sobre uma aluna negra. Mal sabia o aluno que ele próprio era negro. Essa realidade se faz presente sempre. Por que as pessoas fazem tanta questão de apontar as diferenças dos outros, a ponto de nem conseguirem enxergar no que somos iguais?

  • victória

    eu acho tão complicada essa história de se considerar branco ou negro no brasil justamente porque muitos somos misturados. sabe, as vezes eu acho que to nos eua no meio dessas discussões militantes, é sempre o eu negro e o eu branco.

    eu entendo que de fato há termos que queiram “disfarçar” o biótipo negro, de que é ~moreninho~ mas não é negro e isso ocorre porque as pessoas não querem ser negras (!!!), lamentavelmente. e quanto a identificação racial (odeio essa palavra mas já que definiram que seria essa usada, vou ter que) cabe justamente a identificação de cada um, pra mim se a pessoa é mais branca/asiática/indígena/seja lá o que for mas socialmente se identifica como negro por causa da sua vivência (ex.: http://mic.com/articles/80841/12-beautiful-portraits-of-black-identity-challenging-the-one-drop-rule), tá tudo bem também.

    mas, não dá pra ignorar a história do brasil e definir todo mundo como negro ou branco. se for se considerar um certo limite de até quando você é miscigenado mas deve se considerar negro e quando você é suficiente miscigenado e teria que se considerar como pardo, vai dar probleminha também. eu, por exemplo, sou claramente parda, no ponto que ninguém me acha branca mas que ninguém, muito menos, me acha negra. então pra mim nunca foi difícil me identificar socialmente, mas eu imagino pros outros que tem outras misturas. até quando você tem que ser pardo pra ser considerado negro e quando você pode se considerar pardo?

    deve ser porque eu gosto muito de analisar misturas, etnias, traços, gosto de saber de descendências e por tanto erros que tenha, gosto da história do brasil… eu não gosto de negligenciar o termo pardo, nem o moreno. se você for mesmo misturado por que que tem que se considerar só por um dos lados?

    eu prefiro tirar essa carga de vergonha do que é ser negro, de se considerar negro, esse racismo disfarçado em TER que ser “moreninho”, e então assim, que se você quiser se considerar como pardo/moreno porque se identifica historicamente (e não pelos preconceitos já citados), que se considere.

    * espero muito que eu não tenha soado como que tentado negar a problematização trazida no texto! se soei, mil desculpas. como eu disse, eu entendo que há um problema de identificação negra sim, mas quis trazer outro ponto também.

    • Rosali Cantlin

      É exatamente o que eu penso. Se é uma mistura de negro e branco, porque tem que se considerar negro? Pardo é a melhor definição, ao meu ver, porque é uma mistura dos dois.

      • Ana Paula Schmidt

        Mas se a mistura entre branco e preto é mulato, porque usar o termo pardo para generalizar todo mundo?

        • JUAN MESOLNES VEGA

          Na verdade o termo mulato era usado pelas pessas antigamente de uma forma preconceituosa para diferenciar os filhos mestiços e bastardos dos senhores de engenho, e por isso que o termo pardo e mais aceitavel pois este foi criado para definir a mistura entre essas duas etnias e nao para categorizar de uma forma preconceituosa como a palavra mulato

  • lufreitas

    ainnn… apaixonei, Laura. Obrigada pelo texto!!!

  • Leonel Gremista

    Excelente texto. O processo histórico de branqueamento não se fez só pelo incentivo e COTAS para europeus viverem aqui no país, mas também por incutir na mentalidade da população que quanto mais enegrecida a tez, menos digno de ser bem quisto se é. Por isso temos que usar a informação que dispomos para desconstruir a imagem que nossas irmãs e irmãos tem de si(nós) mesmos.

  • victória

    ai gente, pq ces não aceitaram meu comentário? :(

    • Julia

      Aceitaram sim :)

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  • Igor

    Agora já sei, nada de pardo.
    Eu sou negro, sim senhor!

  • Lay

    Sempre em relação a vestibular, ou mesmo provas para bolsas durante o ensino médio, minha mãe me pedia para marcar branco. Há sim uma linhagem negra na minha família, mas que eu não conheço muito bem, e nem sei dizer o quão distante está (seria essa outra “medida” para se considerar negro?). Minha vida toda, a cor de minha pele é lida como morena, e eu nunca questionei isso. Achava que alguém moreno se dizer negro era entrar na luta dos outros, sem realmente sentir o que eles passam.
    Marcar branco no vestibular, como minha mãe orientava, não era uma medida racista – ou pelo menos, não era o objetivo. Ela me dizia isso para eu, simplesmente, não usar o sistema de cotas que outros poderiam precisar mais. Para que a reparação social que as cotas tentam conseguir fosse mais presente. Mas eu me questionava o quanto aquilo não era o escapismo que seu texto se refere.

    E só um adendo: olhos azuis não são genes recessivos, são dominantes (não precisam do par pra serem expressos). Se seus avós por parte de mãe, e sua mãe mesmo não o tinham, é extremamente improvável que seus olhos claros tenham vindo deles. Olhos verdes que são os recessivos :3 mas isso é só curiosidade, mesmo. Pra embasar mais tuas próximas discussões com pessoas que tentam te tirar o direito de se sentir negra.

    • Nicka

      Lay, concordo com você. Mas, sobre olhos azuis, eles são recessivos. Aliás, é a cor de olho mais recessiva (inclusive na presença de um alelo para olhos verdes).

  • Renata Micaela

    Bom li o seu texto só agora devido ao episódio de racismo com o Caio, namorado da Jout Jout que tem esse link para continuar a discussão e o entendimento do vídeo. Concordo com tudo que está escrito ai. Tive essa dúvida ainda na fase de criança/adolescente e quem me disse que eu sou negra foi a minha própria mãe que não é negra mais casou-se com meu pai que é negro e eu e minha irmã somos bem diferentes, o que temos em comum apenas o cabelo enrolado que por sorte NUNCA foi alisado devido ao amor da minha mãe pela raça e por ela sempre nos dizer como somos lindas e especiais por ter esse tipo de cabelo. Só gostaria de ressaltar que devemos sim falar sobre o racismo, sobre etnias, etc, especialmente com nossos filhos desde pequenos para que quando adultos saibamos lidar com esse tipo de coisa e foi o que meus pais fizeram comigo e com minha irma, nos nunca ligamos pelo que falam dos nossos cabelos e nunca sofremos preconceito, apesar de sempre falarem para alisarmos nossos cabelos. Porém meu pai com negro e por andar sempre de regata e chinelos já sofreu inclusive na presença minha e de minha irmã e meu pai agiu da maneira como tinha nos ensinado, foi superior. Portanto devemos sim falar sobre o assunto, mais principalmente empoderar as crianças para que elas saibam como você mesma disse em seu texto que ninguém é melhor que ninguém e nem pior. Adorei e já vou me inscrever em todos as suas redes sociais. Parabéns.

  • Enrique Porta

    Laura, ótimo texto! Seguidamente me limitarei a extrair impressões particulares, como interlocutor estrangeiro que mora em Brasil.

    Parece-me que o problema da identidade étnica se revela no cenário do debate, por força, na hora em que identificamos situações constantes de violência étnica. Minha experiência étnica, aconteceu por vez primeira, confesso, quando testemunhei diversos processos de agressão racista nos locais de trabalho onde me movi. Meu eu concreto, poderia escrevê-lo desta maneira, nessas circunstâncias de segregação ou de exclusão que testemunhei, se batia estranho, se desapropriava entre esquemas e prejuízos, entre juízos de carácter ideológico, imperativo, mercadológico e social…era um eu de privilégios pesados, privilégios sempre assegurados e disseminados por uma cultura-milenar construída desde o imaginário ocidental.

    As situações de discriminação ou prejuízo étnico são detestáveis, porque indistintamente onde se queira olhar, geram modelos de sociedades verticais, hierárquicos e seletivos. No entanto, entendi, desde muito cedo, que minhas prerrogativas conscientes ou indiretas, infelizmente, haveriam de se tornar um fator condicionante, até doloroso, pois a denúncia das muitas variações da exploração étnica, certamente, não se desenvolve no mesmo patamar “judicativo” quando ela é apreciada na própria circunstancialidade, circunstancialidade imediata, a quando ela é percebida desde fora, como testemunha alheia.

    Sabedor destes limites de linguagem, de identidade, de historicidade…, sou ciente de que aquilo que representa meu âmbito de origem e aquilo que vem a significar meu terreno atual (como cidadão brasileiro) não obedecem mais a premissas assentadas e acabadas, muito pelo contrário, são justamente essas formas étnicas reivindicadoras de seus espaços jurisdicionais, ideológicos, históricos, espalhadas no Brasil e em América-Latina, as que me têm conduzido para uma nova reformulação de minha história sicio-étnica, ou seja, é no confronto dessas narrativas de luta afro-descendente, ameríndias, etc., onde foi e onde sou obrigado a me deparar com a problematicidade de minha ação étnica.

    Concluo dizendo que esta, para se justificar, para se construir, para se reconhecer no cenário presente, somente dá conta de fazê-lo quando se articula na autonomia, no direito e na dignidade da existência das outras ações étnicas que de alguma maneira a antecederam e a tornaram viável. Por último, preciso esclarecer que é no imaginário plural étnico, mineiro, latino-americano, que dia a dia constitui meu marco de sobrevivência, como mais reafirmo este eu complexo e sedento de significados.

  • Gêsa

    Disse tudo o que eu sinto, porque a nomenclatura “pardo’ (pra mim) é só mais uma forma de se distanciar do ser negro e se aproximar do ser branco. Quando alguém me diz, “ai amiga, mas tu não é negra, tu é morena, negra é fulana” respondo logo “sou negra sim”, porque eu me aproximo da fulana e se não tá certo pra miga falar de mim, não tá certo falar da fulana também.

  • Fernanda Buriola

    Olá Laura,
    Se me lembro bem das aulas de biologia, a cor dos olhos é definida por vários genes diferentes, e me parece que tem outros fatores envolvidos que os centistas não conhecem muito bem, não é simplesmente se vem do pai ou da mãe. Mas me lembro muito bem, que a pigmentação da pele é determinada por múltiplos alelos (uma outra forma de um mesmo gene, e um gene é uma parte do cromosso que codifica uma determinada proteína). Em alguns casos um alelo é dominante sobre o outro, em outras casos, como na pigmentação da pele, não. Ou seja, existe uma infinidade inimaginável de pigmentações possíveis da pele. Por isso, me parece tão difícil classificar as pessoas dessa forma. E a cada geração estamos cada vez mais misturados e parecidos (geneticamente).

  • Ana

    Cara, eu não entendo que m*rda é essa de querer colocar todo mundo em caixinhas de branco e preto!!!! E todo o resto? E esse mistureba do Brasil deu em quê??? Se a gente tem sangue de branco, índio, oriental, negro, por que queremos nos rotularíamos de negro só por que não temos a pele branca??? Laura, acho muito legal você querer defender a raça negra e tal, é preciso coragem para se reconhecer como negrx, isso é um fato. (A propósito, você é muito bonita!). Mas, gente, alguém me responde: quem é 100% branco ou 100% negro no Brasil? Por mais que algumas pessoas queiram fingir que não aconteceu, o fato é que aconteceu! Misturou, galera!!!

  • Vinicius Caetano Ramalho

    Olha Laura.. Você abriu minha cabeça para uma profunda análise. Com certeza eu irei ler mais sobre o assunto. Estou com a mente fritando agora pensando nisso hehe.

  • Gui Mj

    Esse papo de que somos um povo mestiço é muito bonito, mas no Brasil só funciona mesmo pra quem é branco.

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