5 de agosto de 2014 | Edição #5 | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
A cor e a quase ausência da cor no cinema analógico

Desde o começo dos tempos, o homem arranjou maneiras de guardar suas lembranças pelos meios mais diversos possíveis. Dos desenhos nas cavernas e pedras, passando pelas pinturas e ilustrações, até as câmeras digitais, cada vez menores, dos dias de hoje.

A verdade é que a humanidade sempre foi fascinada por imagens.

E desde as exibições de cenas cotidianas filmadas pelos irmãos Lumière, somos completamente fascinados pelas imagens em movimento, sendo elas ficcionais ou não. Nessa busca frenética de tentar registrar a realidade de maneira mais fiel possível, o cinema e a fotografia sempre se uniram com a tecnologia em busca de um certo realismo. Fazer cinema costumava ser visto como uma atividade complicada, ainda que um senso estético e narrativo sejam vitais para as produções, ter uma noção de tecnologia sempre foi importante.

Antes do cinema e da fotografia digital, as imagens eram registradas em rolos de filme (que eram pedaços compridos de plásticos sensíveis à luz revestidos de sais de prata). Os formatos mais comuns eran 8mm, 16mm e 35mm, sendo esse último mais frequente nos cinemas e nas grandes produções.

Esses primeiros rolos, quando revelados, mostravam imagens em preto, branco e tons de cinza. Para poder gerar a imagem no filme, ele precisava entrar em contato com a luz – que era quando se apertava o botão do obturador da câmera e a luz entrava pela lente, depois disso o filme era exposto a uma série de químicos e então se podia ver a imagem que havia sido registrada no filme usado. A grande diferença entre os filmes P&B e os coloridos era a quantidade de layers de emulsão que eles possuíam, enquanto os coloridos possuíam diversos layers, cada um de uma cor, o P&B possuía apenas um.

A Viagem a Lua (Le Voyage dans le lune) de Georges Méliès, de 1902, foi originalmente gravado em P&B, mas uma versão do filme foi colorizada. Significa que um grupo de pessoas pintou frame a frame do filme inteiro. Esse era um recurso usado frequentemente na fotografia e ocasionalmente em filmes.

O primeiro filme colorizado foi Annabelle Serpentine Dance, de 1985, de William K.L. Dickson, estrelando a dançarina Annabelle Moore.

Inventores como Edward Raymond Turner criavam mecanismos que tentavam, de algum modo, projetar filmes coloridos. Seu projetor com filtros foi uma das origens do Kinemacolor, um dos primeiros processos de filme colorido.

Quando já era possível gravar tanto em preto e branco quanto em colorido, o gravar usando um ou outro se tornou uma questão de estética para o filme. Qual das duas películas era mais adequada esteticamente para contar a história que se queria?

O Mágico de Oz (The Wizard of Oz) de 1939, de Victor Fleming, é um ótimo exemplo do uso das duas tecnologias. Enquando Dohorty ainda esta no Kanas, o filme é em P&B, mas quando ela chega no mundo de Oz, o filme é colorido. As cenas de cor foram filmadas com a técnica Technicolor, frequentemente utilizada no cinema até o começo dos anos 50. Para conseguir gravar a cor, era preciso utilizar muitas luzes, o que fazia com que o set do filme tivesse uma temperatura em torno dos 38?c, o que era desconfortável para os atores que precisavam usar fantasias.

O filme colorido substitui quase que totalmente os filmes preto e branco, e com a medida dessa popularização, os espectadores ficaram acostumados a ver cores o tempo todo. Os cineastas que queriam fazer filmes à moda antiga, sabiam que teriam menos apelo do grande público, mas isso não impediu que grandes obras fossem feitas, como Estranhos no Paraíso (Strangers than paradise) de Jim Jarmusch e Pleasantville de Gary Ross.

Asas do Desejo (Wings of Desire, 1987), do diretor alemão Win Wenders, se passa na Berlim ainda separada pelo muro, onde os um batalhão de anjos vela pelas almas perdidas e desesperadas. A cor do filme muda cada vez que o narrador é trocado, a fotografia monocromática é a visão dos anjos e as cores, os humanos.

A direção de fotografia é uma parte essencial do cinema assim como na construção da estética do filme. Filmes frequentemente são lembrados por suas narrativas, mas o que seria de um bom roteiro sem um diretor de fotografia com sensibilidade suficiente de ler todas aquelas palavras e falas e transformar o conceito do diretor em uma iluminação que passa tudo isso em um quadro?

Da mesma maneira com que a fotografia digital ganhou a maior parte do espaço, deixando a analógica para entusiastas, é fato que o cinema digital cresça cada vez mais e o uso do 35mm se restrinja a poucas salas de exibição.

Links:

http://en.wikipedia.org/wiki/Technicolor

http://www.kodak.com/global/en/consumer/education/lessonPlans/lessonPlan152.shtml

http://www.bocc.uff.br/pag/silveira-luciana-martha-percepcao-cromatica-imagem-fotografica-preto-branco.pdf

Agradecimento, Bruno Polidoro

Natasha Ferla
  • Coordenadora de Cinema & TV
  • Colaboradora de Estilo
  • Audiovisual

Natasha Ferla tem 25 anos e se formou em cinema e trabalha principalmente com produção. Gosta de cachorro, comprar livros e de roupas cinza. Gosta também de escrever, de falar sobre o que escreve porque escreve melhor assim. Apesar de amar a Scully de Arquivo X sabe que no fundo é o Mulder.

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