25 de setembro de 2014 | Edição #6 | Texto: e | Ilustração:
Coragem também é coisa de menina
Ilustração: Isadora M.
Ilustração: Isadora M.

Ilustração: Isadora M.

Texto de Jade Cavalhieri e Isadora Maldonado.

Eu – Jade – sempre fui uma menina medrosa e tímida cercada por meninos corajosos e tinha que suportar cobranças de todos os lados. Se eu, entre meus amigos, não aceitava uma aposta ou ficava temerosa ao exercer alguma atividade predominantemente masculina, era logo tachada de cagona ou rapidamente perdoada porque eu, afinal, era uma menina. Ou seja, nem o meu medo nem a minha tentativa eram levados a sério. E, apesar de serem reações bem diferentes – uma me condenava e a outra me absolvia –, as duas me afetavam profundamente. A primeira porque parecia que ter medo era algo de que me envergonhar e a segunda porque pressupunha que todas as meninas eram medrosas e que eu era apenas mais uma delas. Por isso, passei um bom tempo da minha infância e pré-adolescência tentando me provar pra me despir desse estereótipo, o que foi extremamente frustrante e degradante.

Mas de onde foi que saiu tudo isso? Quem foi que inventou que menina é necessariamente covarde e que a coragem é uma virtude masculina? Meninos e homens saem para grandes aventuras enquanto nós, meninas e mulheres, ficamos recolhidas em nossos espaços. É tanto medo e recato e postura, que começamos a pedir desculpa ao começo de cada frase sem nem perceber. Desculpa por ter essa dúvida, por falar e por ocupar espaços.

Essa diferença já é perceptível na infância, como a Gabi já comentou, quando brincadeiras como quando subir em árvore, lutar contra monstros ou brincar de carrinho são tidas como coisas “de menino”, enquanto “coisa de menina” é boneca, panelinha, casinha e, geralmente, tudo cor-de-rosinha. Não que as meninas não devam brincar de boneca nunca, mas nos oferecer apenas essas opções é determinar qual o papel que a gente deve desempenhar e onde, que é cuidar da família e dentro de casa. E isso, amigas, não nos encoraja nadinha a explorar o mundo. Daí a qualquer cagaço, frio na barriga e tremida na base que a gente venha a ter quando nos deparamos com situações mais desafiadoras do que de costume, já surgem as ridicularizações – que na maioria das vezes partem dos meninos, que cresceram com todos os aparatos pra serem donos do universo e dizem não temer.

Mas vem cá, não é bem assim! Todo mundo tem medos e ridicularizá-los faz parte dessa cultura que dita que menina é medrosa e se beneficia disso. E, além disso, ter coragem não é necessariamente pular muro, atravessar a rua de olhos fechados ou topar qualquer desafio, mas enfrentar seus medos particulares e se colocar no mundo, o que a gente sabe que é muito mais difícil.

Difícil, mas nunca impossível. A Isa mesmo, diz que morre de medo de publicar textos em seu nome, mas olha ela aqui na Capitô! Então que tal começar aos poucos? Primeiro, reconheça e respeite seu medo, só você sabe o quanto ele é real. E quando estiver preparada, lute contra ele. Você é corajosa sim! A Isa é e eu também… não vamos deixar que menino nenhum, ou qualquer outra pessoa, nos diga o contrário!

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Jade Cavalhieri
  • Colaboradora de Culinária & FVM

Boneca trouxa inveterada que perde muito tempo reclamando e clamando direito à preguiça. É escorpiana com ascendente em áries e ama mostarda de uma forma não muito saudável. Se identifica com nuvens cirrocumulos e alguma parte dentro dela ainda quer ser astronauta.

Isadora Maldonado
  • Colaboradora de Cinema & TV
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Isadora N., 21.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.