27 de setembro de 2014 | Ano 1, Edição #6 | Texto: | Ilustração:
Coragem não é o oposto de medo
Ilustração: Bárbara Fernandes.
Ilustração: Bárbara Fernandes.

Ilustração: Bárbara Fernandes.

Neste mês, na Capitolina, temos falado de medo: medos de infância, medos que continuam por toda a vida, medos que podemos evitar, medos que temos que encarar de frente. Mas hoje eu vou pegar o outro lado da moeda e falar de coragem.

Costumam dizer pra gente que coragem é o oposto do medo: ou você é uma pessoa medrosa, ou uma pessoa corajosa. Mas na verdade não é exatamente assim. Coragem não é a ausência de medo, mas sim nossa capacidade de lidar com ele, encará-lo, ou mesmo aceitá-lo e tentar seguir com nossa vida apesar dele. Coragem é, por exemplo, fazer aquilo que você acredita ser certo mesmo que outras pessoas estejam te desencorajando; coragem é enfrentar de cara aquele medo de montanha-russa; mas coragem é, também, engolir o orgulho, respeitar seus limites, aceitar certos medos mesmo que a pressão externa te diga que isso é coisa de gente medrosa e, portanto, fraca. Porque, né, também tem isso: dizem que medo é fraqueza, coragem é força, e é tudo assim, preto no branco. Mas acho que, depois desse mês todo aqui, aprendemos que não é bem isso, né?

Eu fui uma criança terrivelmente medrosa. Tinha medo de tudo quanto era filme (não só filmes assustadores, mas também Toy Story, A fantástica fábrica de chocolate, Matilda, e qualquer filme do Tim Burton), de uma porção de desenhos, de fogo, de atravessar a rua fora do sinal, de altura, de todo tipo de coisa horrível que minha cabeça infantil permitia imaginar que pudesse acontecer, de que estranhos quisessem me levar embora porque eu era linda demais (meu ego infantil também era fora do comum)… Mas fui crescendo e alguns desses medos foram ficando de lado. Hoje em dia lido relativamente bem com altura, acendo fósforos sem tanta hesitação, não acho que qualquer estranho na rua vai me levar embora, vejo até filmes e séries de terror com gosto, e… okay, ainda tenho medo de atravessar a rua fora do sinal (o que eu considero mais um tipo de autopreservação).

E como foi que isso aconteceu? Como eu passei de alguém que chorava de medo pensando em O estranho mundo de Jack a alguém que na adolescência tinha pelo menos quatro bolsas, três canecas, dois cintos e até cadarços com a caveirinha da animação? Não que eu seja a epítome da coragem tradicional (acredite, não sou), mas rolou algum processo de superação de medos. E hoje eu vou dar umas dicas pra vocês em relação ao cultivo dessa coragem.

1. Tente tirar a aura assustadora das coisas: isso não funciona para tudo, mas é uma boa dica para lidar, por exemplo, com filmes de terror. Em vez de botar um filme para ver quando é uma noite chuvosa e você está sozinha em casa, tente ver um filme de terror numa tarde de domingo ensolarada com família fazendo barulho no cômodo ao lado. Prometo que o filme vai te assustar bem menos, e aí aos poucos você pode começar a curtir ver esses filmes mesmo nas noites de tempestade em casas de campo distantes da civilização.

2. Racionalize TUDO: medos são normalmente instintivos e irracionais. E óbvio que não podemos controlá-los o tempo todo. Mas, em certas situações, apelar para nosso lado racional ajuda a controlar o pânico. Anedota ilustrativa: sete dias após a primeira vez em que vi O chamado – ou seja, dia em que, segundo o filme, o espírito maligno e assassino sairia da tela da TV para me matar –, eu estava viajando, dormindo numa cama logo de cara para uma televisão. O medo, naturalmente, começou a bater. Mas toda vez que batia, eu lembrava que 1. o filme não era real; 2. eu estava tão longe de casa que, né, como é que o espírito ia me encontrar?; 3. naaaaah espíritos malignos não existem!; 4. no final do filme tinha ficado tudo bem, não tinha?, e assim por diante.

3. Procure a proteção que achar melhor: mesmo quando os medos podem parecer bobos (tipo do espírito maligno da TV de O chamado) e irracionais, se proteger dá uma sensação tremenda de conforto. Quando eu estou sozinha em casa e com medo, ando sempre com a mão no celular pronta pra telefonar pra um número de confiança, acendo todas as luzes da casa, ocasionalmente seguro algo que acho que poderia usar para me defender se alguma coisa acontecesse… Sei, racionalmente, que eu estou segura e nada vai acontecer, mas, sabe, me proteger não custa nada, e faz com que eu me sinta mais segura e, portanto, com mais coragem para fazer as coisas.

4. Tente encontrar a raiz do medo: quando os medos são maiores, mais sérios, mais paralisantes, trabalhar neles a longo prazo pode ser a solução. Seja refletindo sobre por conta própria, conversando com amigos e familiares, ou fazendo terapia (o que recomendo muito, e me ajuda consideravelmente a identificar, entender e lidar com meus medos). Eu cheguei até a tentar hipnose uma vez para superar minha fobia de agulha (sinto informar que não funcionou comigo)! Qualquer método de reflexão e autoconhecimento pode ajudar, porque encontrar as raízes do medo é o jeito mais eficiente de fazer com que ele se torne algo do passado.

5. Enfrente o medo de cara: em alguns casos, terapia de choque é a coisa mais eficiente. Entre na montanha-russa, respire fundo, feche os olhos e aguente até o fim; veja as duas horas daquele filme que te assusta só de pensar, roendo as unhas o tempo todo; olhe pela janela do décimo quinto andar; vá àquele show mesmo sabendo que vai estar cheio. No fim das contas, às vezes a gente descobre que aquilo não era tão ruim assim.

6. Aceite: Mas às vezes a gente também descobre que é ruim mesmo. E, nesses casos, podemos optar por só aceitar aquele medo, e respeitar a limitação. Eu tenho pavor de montanha-russa, ou qualquer brinquedo de parque de diversões que envolva quedas, loopings e variantes; eu gosto de filmes de terror mas não posso nem olhar pra uma foto do Chucky, o brinquedo assassino, sem ter pesadelos; eu dou gritinhos bastante ridículos se me encontro cara a cara com um sapo. E, sabe, tudo bem! Nada disso atrapalha minha vida de verdade, ou me impede de fazer as coisas que eu quero fazer. E pode ser que, assim como tantos outros, esses medos passem um dia, e eu aprenda a enfrentá-los, mas, por enquanto, posso deixar eles quietos.

E vocês? Alguma dica para enfrentar seus medos?

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Sofia Soter
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Sofia tem 25 anos, mora no Rio de Janeiro e se formou em Relações Internacionais. É escritora, revisora e tradutora, construindo passo a passo seu próprio império editorial megalomaníaco. Está convencida de que é uma princesa, se inspira mais do que devia em Gossip Girl, e tem dificuldade para diferenciar ficção e realidade. Tem igual aversão a segredos, frustração, injustiça e injeções. É 50% Lufa-Lufa e 50% Sonserina.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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