10 de agosto de 2014 | Edição #5 | Texto: | Ilustração:
As cores escondidas de nós
Ilustração por Dora Leroy

Ilustração por Dora Leroy

Uma vez, conversando com uma querida amiga, ela me confessou: Quando eu lembro de alguém, não penso no rosto dessa pessoa, mas na cor que ela é.

Como chegamos nesse assunto, não sei. Mas lembro que essa ideia me marcou muito. Até então, eu nunca tinha dado o devido valor a esse mundo pictórico. É claro que as cores eram importantes para mim – a minha casa tem um cômodo de cada cor, sem contar os inúmeros quadros pendurados nas paredes, todos muito coloridos –, mas elas sempre estiveram no plano da estética, do mundo de fora. Nunca no mundo de dentro. Mas, assim que minha amiga disse aquilo, as cores explodiram do mundo e coloriram o interior das pessoas.

É difícil explicar o que faz cada um ter uma devida cor. Talvez nem seja explicável. Mas quando você conhece a pessoa, você sabe. Simplesmente sabe. É como se ela emanasse a sua cor. Como se, por onde quer que ela passe, ficasse um rastro azul, amarelo, rosa, roxo. E isso não tem nada a ver com o tom de pele, a cor do cabelo, a cor da maioria das roupas da pessoa ou mesmo sua cor preferida. Também não tem nada que ver com o sentimento do momento, se está feliz ou triste ou cansada. A cor que ela emana é inerente a isso. É como se fosse sua alma.

Há aqueles de cores vibrantes, como o amarelo. São animados e leves. Outros, mais discretos, têm tons mais pastel. Os vermelhos são sempre intensos, por vezes até dramáticos. Os azuis são mais sóbrios – mesmo havendo uma vasta gama de azulados. Também são mais tristes, como se houvesse um grande vazio no peito deles. Mesmo um azul de tom quente, seu sorriso continua triste. Os laranjas, em compensação, são sempre alegres e amorosos. Seus abraços são os melhores que existem. Como se, ao te abraçar, a cor do laranja invadisse seu corpo e rodopiasse todas as coisas ruins para fora – tudo no período de um abraço.

Mas nem todos são assim tão fáceis de descobrir. Amarelos e laranjas são facilmente trocados. Vinhos e tons de roxo também podem ser confundidos por verdes. No entanto, depois de observar com um pouco mais de calma e cautela, não é difícil distingui-los (verdes são mais maria-vai-com-as-outras). Também há gente de estampas, uma mistura de cores! E aquelas pessoas que acabam revelando sua cor no brilho nos olhos. Outros, raros como figurinhas brilhantes, são dourados e prateados.

A paleta de cores é vasta, as possibilidades infinitas. Depois que minha amiga me contou essa espécie de segredo do mundo, essas cores escondidas na gente, uma outra vida inteira se revelou, uma vida mais colorida. Comecei a reparar mais em meus amigos. Esta amiga era de tom vinho, puxado para o roxo. Um amigo era um azul quente, enquanto outro era azul mais frio. Havia um cara que parecia dourado como o pôr do sol, acabou por se revelar uma mistura de verdes: o escuro com o militar. Também havia uma amiga que era da cor do batom que usava: vermelho. Enquanto outra, que poderia ser todas as cores, era uma aquarela! Mas, como não sabia lidar com seu colorido, se tornou cinza, da mesma forma que fica a água com que se limpa os pincéis cheios de tinta.

Todos nós temos uma cor e a emanamos pelo mundo. Espalhamos nossa tinta onde quer que vamos, saímos por aí enchendo a vida de cores. E não é preciso tanto esforço para perceber isso: é só um pouquinho de atenção que você já vê. Já vê não o rosto ou a fisionomia da pessoa, mas a sua cor. E lembra dela assim, pela cor que está nela, que é ela. De repente, as ruas estão cheias de verdes, rosas, amarelos, laranjas, roxos. A cidade que era cinza se torna uma explosão de cores.

Tudo no mundo é cor. E, cá dentro, em você, também borbulha uma cor que pode ser vibrante ou sóbria, opaca ou transparente. E não importa qual seja, ela sempre será linda. Ela sempre será importante nessa gigante composição do mundo.

Vem, vamos brincar de colorir.

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Clara Browne
  • Cofundadora
  • Ex-editora Geral

Clara nasceu em 1994 no Rio de Janeiro, mas se mudou para São Paulo ainda pequena. Estuda Letras e sempre gostou mais de poesia do que de prosa. Ama arte moderna, suéteres e o musical Jesus Cristo Superstar. Aprendeu a fazer piadas com seu nome e sobrenome por sobrevivência. Em setembro de 2013, teve a ideia da Capitolina, a qual co-editou até setembro de 2016. Hoje em dia, ela escreve pra um montão de lugares. É 50% Corvinal e 50% Lufa-Lufa.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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