17 de julho de 2014 | Ano 1, Artes, Cinema & TV, Edição #4, Música | Texto: | Ilustração:
Cores, formas e contracultura: sobre psicodelia
Ilustração: Heleni Andrade.

Ilustração: Heleni Andrade.

Uma pílula deixa você grande / E uma pílula deixa você pequeno / E aquelas que a sua mãe lhe dá / Não fazem efeito algum. / Pergunte à Alice / Quando ela estiver alta.
– “White Rabbit“, Jefferson Airplane

Para início de conversa, psicodelismo tem a ver com o surrealismo por ser tratar de um movimento artístico que fala do subconsciente e explora isso em suas criações. Os dois movimentos são bem parecidos, com as suas diferenças de épocas. Falavam da mente humana, estavam no fervor da arte ao seu tempo – o surrealismo em Paris, o psicodelismo no EUA –, eram contracultura. Se o surrealismo queria explorar a psicanálise e falar da mente humana (ao invés de ficar fazendo protesto e pensar apenas na estética), psicodelismo era uma forma de protesto em relação ao consumismo e capitalismo americano, uma resposta ao que estava acontecendo na época. Para situar: assim que acabou a Segunda Guerra Mundial, com a Alemanha saindo derrotada e outros países europeus destroçados, os EUA começaram a crescer por vender aos europeus o que precisavam e, aos americanos, um sonho. E, se até então as pessoas compravam por necessidade, agora obtinham qualquer produto porque a TV e as revistas diziam que precisavam disso. Então se criou o consumismo.

O movimento psicodélico rapidamente se juntou ao ritmo musical Rock’n’roll e à Pop Art por terem linguagens ideológicas parecidas. Enquanto o rock ia contra a massificação, a Pop Art ia contra ao consumismo (apesar de ter obras que eram facilmente consumidas, uma contradição que é assunto para outro post). Timothy Leary, diretor teatral, começou a pesquisar, no início da década de 60, mais a fundo sobre o que certas substâncias químicas podiam fazer com o cérebro e como podiam ajudar a criar novas realidades. Observou que havia seis estágios para chegar à tal liberdade que tanto queria: letargia, emoção e simbologia como algo verbal, ou seja, algo que dava para descrever e celular, molecular e transcorporal, atividades biológicas que aconteciam na hora das experiências. Baseado nisso, escreveu peças como A iluminação de Buda, A ressureição de Jesus e O assassinato de Sócrates. Porém, a substância que ficou famosa entre os músicos que gostariam de alcançar o nirvana era o LSD (há quem diga que os Beatles escreveram a música “Lucy in the Sky with Diamonds” para ela). A droga, que não foi criada com este princípio, foi comercializada entre as estradas e festivais americanos dentro de kombis coloridas pelo empresário por trás do movimento hippie, Bill Graham, com a desculpa que seria boa para abrir a mente e alcançar a liberdade que o consumo não permitia.

Há alguns aspectos comuns em relação ao aspecto musical da psicodelia. Quebra rítmica, inserção de elementos sonoros não tradicionais (como riso, ruídos, trânsito etc.), fim da linearidade (a maioria das músicas são do mesmo jeito: introdução, depois um verso, aí depois um refrão, e aí começa tudo de novo; já na psicodelia, não existe essa estrutura) e letras sobre momentos mentais profundos (é como se o Salvador Dalí fizesse música). Para o produtor musical Ingo Lyrio “é meio complicado delimitar um aspecto técnico para a psicodelia”. Ou seja, os aspectos comuns não são uma regra a ser seguida veemente. Nem toda música da era psicodélica é progressista, por exemplo. Você pode ouvir músicas rápidas, outras com solos de guitarras longos e não necessariamente toda música psicodélica vai falar de drogas.

O psicodelismo não cabia apenas a música. A estética também era algo extremamente importante para mostrar o que se via em meio às alucinações psíquicas causadas pelas drogas. Para identificar uma arte psicodélica basta ver se tem formas diferentes, duplicação de imagens, distorções e saturação de cores, algo que se parece com um caleidoscópio. Os movimentos artísticos que mais se assemelhavam a este tipo de visões eram Art Nouveau (movimento francês do final do século XIX e início do XX marcado por formas femininas, decorações e milhões de detalhes) e a Op Art (movimento dos anos 60 que criava desenhos com ilusões óticas). Alguns artistas de outros movimentos artísticos aderiram ao estilo em algumas das suas criações. Um deles era Ernst Fuchs (multitarefado artista austríaco), Yayoi Kusama (sim, a japonesa obsessiva por bolas, cuja exposição você pode ver em São Paulo, que transforma suas alucinações infantis com bolas em arte), Peter Blake (criador da famosa capa de Sgt. Pepper’s Lonely Hearts Club Band e um dos fundadores da Pop Art) e Mati Klawein (ilustrador de boa parte dos CDs de Miles Davis e Jimi Hendrix).

O psicodelismo também esteve presente no cinema e na arte performática. Muitos artistas (inclusive o grupo Fluxus, que já foi citado aqui) usavam lights shows, que eram projeções que mudavam de figura de acordo com o som. Pode parecer bobo, né? Mas nos anos 60 era algo revolucionário, pois só se tinha visto este tipo de junção entre som e imagem no cinema e TV. Isso tinha a ver com o fato do psicodelismo sempre querer juntar as sensações dos 5 sentidos, principalmente audição e visão.

Algumas pessoas conseguiram sobreviver a esta época e, consequentemente, às droga, já que usar LSD era praticamente uma obrigatoriedade para quem quisesse estar no movimento psicodélico. Outros nunca mais voltaram das suas viagens. Caso clássico foi de Syd Barrett, o primeiro vocalista da banda inglesa Pink Floyd. Syd era bonito, inteligente, charmoso e ainda cantava bem. Toda menina queria ele. Embarcando na onda do psicodelismo da década de 60, usava muito LSD e, em uma de suas viagens, nunca mais voltou a sanidade. Amigos do músico dizem que, depois que enlouqueceu de vez, nunca mais foi o mesmo, raspou seus cabelos, ganhou peso e seu olhar estava sempre perdido, chegando a se retirar no interior de uma fazenda na Inglaterra e ser afastado das suas atividades de músico (a música “Have a cigar”, do Pink Floyd, é sobre isso).

A psicodelia não foi um movimento apenas plástico nem apenas musical. Foi um resumo de uma época cansada com as guerras, que precisava se expressar de alguma maneira. A contracultura momentânea fez com que alguns chegassem ao extremo de usar drogas realmente pesadas para tentar chegar à liberdade. Foi um momento, algo marcante para os anos 60, uma estética inesquecível que até hoje inspira alguns músicos, caso de Flaming Lips, Tame Impala e Girls. E mesmo que seja até meio datado (“vamos falar dos anos 60”, “vamos falar de psicodelismo”), é um movimento que será sempre lembrado.

Bia Quadros
  • Coordenadora de Música
  • Colaboradora de Relacionamentos & Sexo
  • Ilustradora

Bia na verdade é Beatriz e tem 20etantos anos. É do RJ, nunca saiu de lá e é formada em Artes Visuais. Transita entre ilustrações, pinturas, textos, crianças e frustrações. Tudo que está ligado a arte faz, sem vergonha e limite. Já fez algumas exposições, já fez algumas vitrines, vive fazendo um monte de coisa. Uma Metamorfose Ambulante.

  • http://gabius.tumblr.com/ @gabius

    Adorei o texto, Beatriz! Esses dias mesmo estava me questionando à cerca do psicodelismo, não sabia muito sobre o movimento e seu texto ajudou muito. bêjo.

  • Estefani Medeiros

    Beatriz, você manda muito! Estou fazendo uma pauta relacionada e com certeza vou linkar.

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