15 de dezembro de 2015 | Ano 2, Edição #21 | Texto: | Ilustração: Lila Cruz
Corra vida, corra! Mas não me deixe perder nada!

Dentro da sociedade em que vivemos, criou-se um desejo de aproveitamento máximo de cada instante. Não queremos perder nada. Queremos ler, ouvir, saber de tudo e, queremos fazer isso em um espaço de tempo cada vez menor. Apesar da constante sensação de estarmos vivendo em tempo acelerado, ele continua o mesmo, nossos dias tem 24 horas, 1 hora tem 60 minutos e 1 minuto tem 60 segundos, assim como costumava ser dez, quarenta ou sessenta anos atrás. O tempo não começou a passar mais rápido. O fenômeno que se desenvolveu ao longo dessas décadas foi o acelerado crescimento de quantidade de informações que temos acesso, informações essas as quais somos bombardeados durante este curto período de 24 horas que a cada dia parece ser mais insuficiente.

Não se sabe bem quando essa sensação que atualmente assola tantas pessoas ao redor do mundo se iniciou, mas podemos sugerir que no final do século XX com o avanço de tecnologia e o surgimento da internet, configurou novos padrões de troca de informação. Desde o seu suporte e velocidade até a quantidade de informação trocada. Desde então, a coisa só tem acelerado. Ter um tempo improdutivo ou, um tempo à toa não é algo admissível no mundo em que vivemos hoje. Nós nunca queremos ter a sensação de estar perdendo nosso tempo, mas por vezes, os esforços para vivermos aceleradamente acabam por nos sabotar e isso pode ser observado em atividades cotidianas. Quando um novo celular surge, o seu sistema operacional vem sempre com a proposta de ser um sistema mais rápido que o da versão anterior, julgamos ter um aparelho melhor por ele ser mais rápido, temos mil aplicativos na palma de nossas mãos e o que acontece? Reclamamos por estar lento, não conseguimos realizar e aproveitar tantas atividades que aquele pequeno aparelho pode nos proporcionar, muita informação e tempo são perdidos com aquele aparelho e ficamos insatisfeitos. Outro exemplo são os carros e esses talvez sejam, de fato, agonizantes, uma vez que se criam carros mais rápidos, que são capazes de chegar a velocidades inacreditáveis, mas, esses carros dificilmente saem dos 40 km/h. Queremos ter o melhor carro, o que julgamos melhor por ser talvez o mais rápido, mas ficamos parados em congestionamentos de 3, 4 ou até 5h. O que era para nos fazer ganhar tempo só nos dá uma sensação de perda e uma enorme frustração.

A ideia que construímos de que a cada dia o tempo que temos passa de forma mais acelerada pode não ser verdade na prática, já que como dito as horas, minutos e segundos continuam os mesmos, mas existe uma explicação bioquímica e neurológica para essa sensação. Quanto mais velhos ficamos, menos dopamina produzimos. A dopamina é um neurotransmissor que nos faz sentir aquela sensação de disposição e energia que geralmente o café nos dá. Mas, apesar da sensação ser incrível, às vezes esse processo pode desacelerar o nosso relógio biológico, fazendo com que fiquemos lentos. É mais ou menos o efeito de chocolates ou doces em crianças. Elas comem, ficam elétricas, cheias de energia e quando você vai ver estão lá desmaiadas em um canto. Essa prática de “aproveitar” nosso tempo ao máximo, não parar e estarmos sempre ingerindo bebidas ou drogas (sejam ilícitas ou não) que nos dão a sensação de energia e nos ajudam a produzir sempre mais e em menos tempo, pode ser perigosa para a nossa saúde e o que antes era visto como uma maneira de sermos mais produtivos e, consequentemente construirmos mais coisas, pode acabar por nos destruir.

Precisamos tomar cuidado para não acabarmos assim!

Precisamos tomar cuidado para não acabarmos assim!

Isso é tão sério que certa vez passei por uma situação tensa durante final de um período da faculdade. Eu tinha duas provas num mesmo dia e só havia estudado para uma delas. Eu morava com uma amiga na época e durante a madrugada fiz café, tomei duas ou três canecas cheias para conseguir ficar acordada e estudar a matéria referente à prova da manhã seguinte. O que eu não esperava era que aquilo poderia me fazer tão mal. Quando já eram lá para 1h da manhã, eu que estava sentada, escrevendo comecei a sentir meu coração acelerar e tive certeza, “Estou infartando!”. E foi isso que disse ao bater desesperadamente na porta do quarto da minha amiga: “Ei, fica calma, eu só acho que estou infartando, preciso ir a um hospital!” Imaginem só a cena! Até hoje conto essa história como exemplo de que, antes das nossas notas ou compromissos, devemos valorizar a nossa saúde. Bom, finalmente posso pedir desculpas publicamente para minha amiga Lígia, que me ajudou tanto durante aquele infeliz incidente. Acabou que, meus pais foram até nossa casa de madrugada, eu fui para o hospital, tomei umas injeções e medicamentos, passei a madrugada mal e adivinhem só? Perdi a prova do dia seguinte, é claro!

Mais importante que produzir, é produzir com qualidade. E, mais importante do que possamos produzir, consumir ou ganhar, não devemos nos curvar a um molde social que não preza pela nossa saúde, um modelo que preza apenas pelos ganhos que nosso sacrifício, desgaste emocional e físico podem gerar para aquele mundo.

Fabiana Pinto
  • Colaboradora de FVM & Culinária

Fabiana Pinto, negra e carioca. Graduanda em Nutrição na Universidade Federal do Rio de Janeiro em tempo integral e, escritora de suas percepções e experimentações do mundo em seu tempo livre.

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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