18 de novembro de 2014 | Estudo, Vestibular e Profissão | Texto: | Ilustração:
Os grilhões de quem é contra cotas
Ilustração: Helena Zelic

Ilustração: Helena Zelic

“É só falar em cotas que  renasce do inferno, em forma de opinião, a alma de todos os senhores de engenho.” Stepanie Ribeiro.

*Texto de Andreza Delgado

Gostaria muito de  começar o texto falando sobre o avanço das cotas nas federais e algumas estaduais, sobre como são uma grande vitória para o movimento negro, ou citar as recentes cotas aprovadas na Defensoria Pública, mas me sinto obrigada a rebater os grilhões que tentam voltar junto com a opinião de quem é contra cotas.

Para começo de conversa, o que são as  cotas?
Também chamadas de ação afirmativa, cotas são uma forma de reservar vagas para determinados grupos. Esse sistema foi criado para dar acesso a determinados grupos socialmente excluídos: negros, indígenas, deficientes etc, em universidades, concursos públicos e mercado de trabalho.

Pois bem, por que cotas?

Às vezes parece que a humanidade passou por uma sessão que apaga a memória, como naquela de “Brilho eterno de uma mente sem lembranças”,  porque não é possível esquecer  que negras  e negros foram escravizados, que ganhamos a tal liberdade cilada há cerca de mais o menos 126 anos, apagam todo um processo que nos persegue até hoje, o mito da democracia racial, aquele somos todos iguais. Odeio ser portadora de má notícia, mas não somos não.

Resquícios de uma escravidão, recém-libertos invadindo os morros, favelas e cortiços,  procurando emprego, se alfabetizando, tudo isso sem apoio, não tinha Bolsa Família ou alguma política paliativa. Existe uma dificuldade da sociedade entender o que é reparação histórica, da dívida que a humanidade tem com pessoas negras e  indígenas e com as demais minorias exploradas.

Mas cotas são racismo?

Não, cotas não são racismo, cotas são garantia da presença de pessoas negras, pardas, indígenas e pobres dentro das universidades públicas, cotas são reserva de vagas. É muito claro que no aprendizado todos somos iguais, mas o  conhecimento se dá na relação social, na relação com os objetos, com as coisas e com um processo bem-feito de ensino e aprendizagem. Para você entender o porquê cotas raciais são importantes também é só fazer  o teste do pescoço: olhe para o lado e veja quantas  pessoas negras você encontra nos corredores, não vale estar com vassoura na mão e nem  servindo no bandejão ou na portaria… Pois é, pessoas negras só são bem-vindas na universidade para mão de obra, e mão de obra barata, a tal da terceirização.

Mas e o peixe que a gente tem que ensinar a pescar?

O peixe a gente deixa lá no mar mesmo, e quem criou a frase a gente manda voltar as casas. Na maioria das vezes, quem chega para falar de meritocracia viveu um contexto diferente na vida. Imagina uma corrida, e pensa que o corredor número 1 são pessoas negras, indígenas, pardas e pobres, e eles começam de bicicleta e imagina que o corredor 2 são pessoas que estão num contexto totalmente diferente, ricas, oriundas das melhores escolas, com vários exemplos de pessoas que entraram na universidade na família e etc. Adivinha só quem vai ganhar a corrida?

Cotas sim, cotas o quanto for necessário.

Não quero parecer autoritária demais,  mas quero te avisar pessoa racista: cotas sim, cotas até quando for necessário, cotas até que a universidade se pinte de povo, cotas até que tenham professores universitários negros e indígenas, cotas até não existir mais peneira racista na universidade. E que não se crie só cotas nas universidades e sim mais sistemas que façam com quem esses alunos cotistas possam permanecer dentro da universidade, produzindo material, se tornando exemplos para outros.

E vou terminar esse texto usando uma frase que escutei durante uma mesa sobre racismo estrutural, “eu não tenho só um sonho, eu tenho direitos”.

Andreza Delgado
  • Colaboradora de Escola, Vestibular e Profissão

Andreza Delgado, 19 anos, leonina e baiana da terra do cacau, é estudante de Letras mas não tão assim, gosta de astrologia porque acha que resume metade dos problemas dela com as pessoas, é militante do movimento negro, apaixonada por colocar ketchup em tudo que é comida , fala mais que os cotovelos e acha que vai mudar o mundo.

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