6 de outubro de 2015 | Edição #19 | Texto: | Ilustração: Beatriz H.M. Leite
Crescer é se apoiar nas referências do mundo

Daquele ponto em diante, eu nunca iria ter certeza, ou me sentir confortável, em relação a chegar a conclusões ou declarações definitivas e rigorosas sobre qualquer coisa. Questionar as coisas tinha a ver com “tornar-se”, que por sua vez me deixava mais perto de viver no presente e mais longe da ideia de que você está terminado, pronto, formado ou maturado em alguma idade pré-definida, como os vinte e poucos anos.

A garota da banda, Kim Gordon

Freud, o criador da psicanálise, diz que nós formamos nosso eu através da influência de nossos pais entre outras pessoas que fazem parte de nossa educação. Essa teoria acredita que nossa identidade é construída pela identificação que estabelecemos com aqueles que são nossos primeiros objetos de amor. Em resumo, eu reproduzo os valores e gestos dos meus pais esperando que eles me amem ou, no mínimo, me admirem por isso. Assim, desenvolvemos quem nós somos em um mosaico de diferentes afetos e cópias. No entanto, depois da infância, é comum passarmos muito tempo em crise tentando descobrir quem realmente somos. Afinal, quem quer se contentar em ser apenas uma reprodução? Não sabemos aonde ou como encontrar nosso Eu Verdadeiro, mas continuamos a busca porque é inaceitável ser um fantoche movido por escolhas que não são nossas.

Não posso falar por todos, mas no meu caso, essa crise ganhou forma na adolescência. Nesse período, o mundo nos exige muita coisa, ao mesmo tempo em que expõe novas possibilidades. Descobrir quem nós somos passa a ser uma urgência, porque nos vemos diante de dúvidas e descobertas. De repente, eu conhecia livros, sentimentos e pessoas que contradiziam tudo que carregava como meu ideal. Na verdade, até meus pais, aqueles que me ensinaram todos os valores e quem eu deveria ser, se mostravam incoerentes e muitas vezes incompreensíveis para mim. Será que eles tinham tanta certeza sobre tudo? Será que a minha educação é a única maneira correta de entender a vida? Sou taurina, então esse processo de se desgarrar das minhas crenças é difícil para mim. Porém, inevitavelmente, minha percepção se transformava, minhas certezas despencavam e só me restava o medo de onde essas mudanças poderiam me levar.

Crescer e mudar são processos muito íntimos e, às vezes, misteriosos. Quando algo significativo muda quem você é, nem sempre é possível explicar o que mudou ou como isso aconteceu. Em meio a essa instabilidade, a pergunta “quem eu sou?” ecoa. É por isso que nos apegamos às referências de filmes, músicas, livros e estilos para tentar responder com palavras e imagens que de fato nos representem. Um ídolo é alguém que representa um sentido. A Kim Gordon – que é artista e foi integrante da banda Sonic Youth – também diz que nós pagamos para ver alguém que acredita em si mesmo. É por isso que gostamos de assistir shows ou ler sobre a vida de gente famosa. Precisamos observar quem parece carregar certezas sobre si para nos alimentar em identificações. É aquela sensação de ouvir uma música que traduz seus sentimentos ou ler uma passagem em um livro que te dá aquela sensação de “é isso!”. Mas, principalmente, nós temos ídolos para nos alimentar com a ilusão de que um dia vamos ser como eles e saber direitinho quem nós somos. Estamos constantemente esperando pelo momento em que teremos a resposta pronta, sem crise ou hesitação. 

Durante minha vida eu tive muitas fases. Copiei o estilo da Avril Lavigne e depois da Amy Lee, até trocar meu All Star de cano alto por umas plataformas de surfista que, na verdade, eu achava bem feias, mas combinavam com a personalidade que tentei criar quando mudei de escola. Também fui completamente obcecada pela Rory Gilmore e a usei como meu maior exemplo de pessoa no ano em que precisei estudar muito para o vestibular. Na faculdade, fiz a linha Mina de Humanas com vestidinhos floridos, saias longas e todo um ar hippie que tem como disco preferido o Transa do Caetano Veloso. Alguns períodos depois, estava fascinada pela Nouvelle Vague, frequentava todas as mostras de cinema e usava blusas listradas com saias godê de cintura alta. Então, recentemente, no alto dos meus 25 anos, mergulhei nesse livro sobre as memórias da Kim Gordon e vi o documentário sobre a vida da Kathleen Hanna. O resultado: comecei a sentir que precisava de um bom coturno e passei uns três dias caprichando em um visual punk rock – nada fácil no calor do Rio de Janeiro. 

O que me leva à conclusão de que não estou pronta. Ainda tenho muitas respostas possíveis para dizer quem eu sou. Mas, dessa vez, sem crise ou medo. Tudo que acompanhou meu crescimento, ainda existe em mim, algumas influências dormem como vulcões, outras são lembranças diárias. São tantas fases, experiências, lugares e estilos que não acredito que um dia vou me contentar com uma resposta definitiva. Nem me parece possível. Na verdade, toda essa ideia de passar por várias mudanças, crescer e encontrar quem eu sou de verdade parece mais com um videogame dos anos 1990 ou um livro ruim. O que eu sou ou que vou ser quando crescer deve ser a mesma confusão de informações, desejos e referências que sou neste exato momento, talvez um pouco mais ampla ou com novas combinações. Crescer, afinal, é se deparar com as incoerências que os adultos nos escondiam. A vida é definitivamente instável. Se é difícil ter controle sobre o nosso destino, é mais interessante aceitar esse fluxo de recortes e colagens. Vamos esquecer o sentido estático e nos abrir às reinvenções.

Taís Bravo
  • Colaboradora de Escola, Vestibular & Profissão
  • Colaboradora de Artes
  • Vlogger

Taís tem 25 anos e passa os dias entre livros, nas horas vagas dá lições sobre selfies para Kim Kardashian e aprende sobre o que foi e não quer ser com Hannah Horvath. Feminista deboísta, acredita no poder das sonecas, das migas e do mar acima de todas as coisas.

  • Carolina Paiva

    quero te beijar porque esse texto é uma das coisas mais lindas que eu já li. <3

  • marina

    ahasô

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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