30 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19 | Texto: | Ilustração: Duds Saldanha
Crescer não é um bicho papão
Crescendo-DudsSaldanha

Com o Halloween se aproximando, temos que nos preparar para enfrentar um monstro que volta e meia vem nos assustar: o crescimento! Ele não suga o nosso sangue, não puxa o nosso pé à noite, mas, de vez em quando, se esconde nos nossos armários psíquicos, roubando horas de tranquilidade do nosso corpo e da nossa mente. Mas calma! Crescer pode ser muito melhor do que parece, quer ver só?

Até ganhar meu irmão de presente para a vida, eu era a única criança da família. Assim, desenvolvi um lado autodivertido e me acostumei a brincar sozinha e a inventar jogos. Um deles era avaliar se eu era “gente grande” ou se ainda era “gente pequena”. Funcionava mais ou menos assim: a sobrinha da minha tia era uns 5 anos mais velha que eu e já estava usando agenda e fichário no colégio. Eu estava l-o-u-c-a para ter agenda e fichário, mas meus pais diziam que eu ainda não precisava dessas coisas para estudar. Então eu pensava: “Quando usar agenda e fichário eu já vou ser gente grande.” Daí, quando o meu dia chegou, olhei para um lado, olhei para o outro, olhei para mim e constatei que eu não me sentia nem um pouco maior em tamanho (preciso admitir que essa sensação me acompanha há uns bons quinze anos, no mínimo). Não demorou para eu perceber que saber administrar agenda + fichário era complicado, e eu automaticamente tive medo, pois havia crescido e agora tinha duas novas responsabilidades! E se eu fizesse tudo errado? Se eu esquecesse de anotar algum dever e perdesse ponto?! Que medo! Olhava para o meu irmão, sem agenda, sem fichário, sem nenhuma preocupação na vida, e pensava que era feliz e não sabia, mas que não tinha mais volta.

Para me sentir menos desconfortável (e ser menos dramática), eu logo inventei outros marcos de “ser gente grande”, amenizando o meu desespero com a ideia de crescer. Por diversas vezes eu dizia “ah, mas eu ainda não sou gente grande porque ainda não dei meu primeiro beijo/ não tenho conta para pagar/ não entrei para a faculdade/ não tenho emprego/ qualquer outra coisa. Acontece que todos esses marcos, uma hora ou outra, se concretizaram. E fui deixando minha infância e adolescência para trás aos poucos, nessa brincadeira de mim comigo mesma.

Apesar de esse exemplo ser bem bobo, ele mostra bem quando tomamos o susto de estar crescendo: é aquele momento em que percebemos que tudo que víamos acontecendo com os outros também está acontecendo com a gente. E por que isso assusta? Quem nunca quis tanto atingir seus próprios “marcos de gente grande” e, quando chegou lá, teve aquela dor de barriga que faz querer voltar correndo para a Terra do Nunca?

Acredito que crescer nos assuste mais do que deveria justamente por causa de todas as expectativas que aprendemos no convívio social e, conscientemente ou não, adotamos também como nossas. Crescer assusta porque aprendemos, de início, a encarar a vida em uma linearidade, a famosa linha do tempo, aquela reta de fatos “inescapáveis” que se sucedem: nascer, brincar, entrar no colégio, se formar, entrar na faculdade, arranjar um companheiro, se formar na faculdade, começar a trabalhar, casar/juntar, procriar e… morrer?! Sem contar que é como se esses “marcos” viessem acompanhados com umas instruções de como agir, se portar e sentir, nos dando aquela sensação enganosa de que se não seguirmos o “modo de preparo” dessa receita, vai dar ruim. Crescer assusta porque é a prova cabal de que o fluxo da vida está aí, rodopiando, e nós estamos sendo carregados nele, quer queiramos ou não. Assusta porque as coisas se sucedem e passam; assusta porque temos que lidar com a finitude de tudo. Assusta porque vamos deixando para trás a redoma da infância e nos aproximando da realidade dos nossos… pais?!

Calma, gente. Crescer é tudo isso também, mas não só isso.

Crescer é difícil porque, no início da vida, fazemos esse movimento olhando para o espelho dos outros e copiando. O bicho pega pra valer quando percebemos que não queremos ter o mesmo reflexo que fulano e sicrano, queremos o nosso, mesmo que não tenhamos ideia do que isso significa. E a trajetória de se autodescobrir é a parte gostosa de crescer que costumamos esquecer quando bate a síndrome do Peter Pan. Crescer incomoda porque, às vezes, é doloroso mesmo ter que aprender a lidar com a gente e não saber #comofaz, porque não existe mais uma versão de nós por aí para a gente dar uma olhada e ver o que deu errado, o que deu certo, se dá para meter uma gambiarra daqui e dali e seguir em frente.

Mas crescer é justamente tomar consciência de que “essa sou eu na minha vida”, e se orgulhar e ficar feliz com isso. E isso é um processo lento, irregular, com altos e baixos e que não acaba quando entramos na idade considerada adulta. Fora que a percepção mais aguçada de sermos quem somos nos permite conviver e entender melhor os outros, além de nos ensinar o que não queremos – pois saber o que não nos agrada talvez seja o melhor atalho para cuidarmos bem da gente.

E nesse fluxo colhemos tantas respostas – OK, outras perguntas surgem, mas conforme vamos resolvendo questões passadas, ficamos mais fortes para lidar com as novas que pipocarão por aí. E, assim, aos poucos, vamos vendo que esse bicho-papão é mais dócil do que pensamos, afinal, crescer é conhecer a pessoa mais importante da sua vida e gostar dela: você.

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Carolina Walliter
  • Revisora
  • Colaboradora de Esportes
  • Colaboradora de Literatura

Beatlemaníaca que gosta de sambar diferente com o Molejão, gosta de carnaval e de futebol mais que o recomendado pela OMS. Carioca da gema e cidadã do mundo, tradutora, intérprete, historiadora, mochileira, nômade digital, rabiscadora compulsiva em moleskines (não necessariamente nessa ordem) mas, antes de tudo, uma contadora de histórias, sobre si e sobre os outros. Escreve sobre o cotidiano da tradução em: http://pronoiatradutoria.com/

  • Carla Andrea

    Vejo você na minha frente falando isso tudo, Carol! :) Parabéns!

    • Carolina Walliter

      êeeee! você por aqui! obrigada <3

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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