29 de outubro de 2015 | Ano 2, Edição #19, Textos Favoritos | Texto: | Ilustração: Jordana Andrade
Crescer não tem nada a ver com sexo
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Talvez você se reconheça nessa situação ou em uma similar: 12 anos, colégio, algumas amigas já falam sobre o primeiro beijo, o primeiro ficante, as primeiras trocas de olhares. Mas sempre tem uma do grupo que não tá na mesma, não tá com vontade naquele momento, quer voltar a falar de música ou livros. E aí fica meio pra trás, como se não se encaixasse simplesmente porque não quer falar de garotos, sendo que tem vários outros assuntos interessantes. No caso do meu grupinho, era eu. E talvez do seu grupinho, seja você. Com essa idade eu não tinha a preocupação de beijar alguém, quanto mais transar (não!). Me apaixonava, sim, mas hoje eu percebo que achava uma delícia só gostar das pessoas de forma platônica, não era a hora de querer algo a mais. Não tinha grandes sofrimentos, era fofo e rápido. Mas eu sentia uma pressão muito grande, enorme, como se eu fosse continuar uma eterna criança se não perdesse o BV logo, ou não me interessasse em falar sobre sexo. E isso não era culpa das minhas amigas, claro.

O que acontece é que desde sempre, nós, meninas, aprendemos que tudo gira em torno de ações referentes ao sexo. Primeiro beijo, primeira mão na bunda, primeira vez… isso está na revista, nas novelas adolescentes, nas músicas. E quando alguma de nós não tá a fim daquilo, é colocada na caixinha de infantil, boba e criançona. Mas tem algo muito importante sobre isso: sexo não dita a nossa vida. Nem um pouquinho. É possível ser uma pessoa adulta e maravilhosa sem fazer sexo, ou perdendo a virgindade tarde. É possível querer falar sobre música aos 12, e não sobre garotos. Nosso crescimento não está associado ao sexo, ele não é a porta de entrada para a fase adulta e muito menos serve para validá-la. Então, precisamos parar de acreditar que só crescemos quando beijamos ou transamos.

Mesmo que a pressão seja grande, e que vejamos isso o tempo todo, não rola fazer algo só porque todas as amigas estão fazendo. E precisamos também parar de julgar a pessoa pela idade com que ela se sentiu confortável para transar. A amiga que só transou depois dos 18 tá ótima, acredite. E não é menos adulta por isso. Imagina se tivéssemos que perguntar a todos os adultos que conhecemos se são virgens ou não, e com que idade fizeram sexo pela primeira vez? Pois é! Não teria sentido, é só uma ação que não têm importância nenhuma para além do âmbito pessoal, já que só importa a quem faz. Por mais que seja algo que nos marque e que provavelmente faça com que aprendamos coisas novas, e crie novas percepções, a interferência no nosso cotidiano e, principalmente, na construção de quem somos é mínima.

Ao longo do mês, vimos aqui na Capitolina que crescemos por v á r i o s motivos, e sexo não é um deles. Não precisamos nos forçar a ter alguma experiência sexual só para nos sentirmos adolescentes ou adultas pertencentes a uma classe de “pessoais-super-legais”. O crescimento é gradual, e não depende de uma única ação. Não precisamos fazer o que dizem que temos que fazer, as pessoas não têm o direito de nos colocarem nas caixinhas que elas acreditam que sejam as certas. Por mais que às vezes possa parecer mais fácil ceder ao senso comum, temos que lembrar que nossa maior responsabilidade é conosco, com nosso corpo e com o respeito que temos por ele. Antes de tomar uma decisão que provavelmente vamos lembrar pra sempre, precisamos refletir bastante sobre a origem da vontade e do querer, e só a partir daí fazer qualquer coisa (tomando todos os cuidados sempre, claro!). Crescer tem mais a ver com a nossa forma de lidar com o mundo, as pessoas que nos cercam e com todas as responsabilidades das quais não podemos fugir.

Lola Ferreira
  • Revisora
  • Social Media

Lola tem 22 anos, mora no Rio e é apaixonada por ele e pelo jornalismo. Busca o contato com suas raízes a todo tempo, e deseja que todas as mulheres negras assim o façam. Lê, escreve e estuda muito - mas julga que nunca será suficiente. Deveria se importar menos com a opinião alheia, mas ao mesmo tempo ouvir os outros é o que mais gosta de fazer. Acredita em astrologia e no amor como chave para mudar o mundo.

  • Theresinha Fonseca

    Amei o texto. Me identifiquei. Me lembrei da minha adolescência. Parabéns.

  • Isadora Torres

    para o mundo!, vocês são muito lindas <3

  • http://equantoapepsi.blogspot.com.br Juliana

    Queria ter lido isso aos 12 anos

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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