5 de janeiro de 2016 | Ano 2, Edição #22 | Texto: | Ilustração: Julia Oliveira
Criadora de mim

Essena O’Neill é uma adolescente australiana que fazia um sucesso absurdo na internet como uma pessoa com a vida perfeita. Corpo perfeito para os padrões da sociedade, passeios saudáveis em praias perfeitas, roupas perfeitas, frases perfeitamente inspiradoras. Depois de passar alguns anos fazendo isso e autoexercendo uma pressão gigantesca, de um ponto de vista pessoal e comercial (já que vários posts dela eram patrocinados), ela percebeu que a imagem que vendia on-line não correspondia exatamente a quem ela era na vida real, e decidiu mostrar para os seus milhões de seguidores que tudo aquilo era construído, e, consequentemente, falso. A atitude dela de deixar de lado um estilo de vida que não lhe fazia bem é admirável. No entanto, é importante discutirmos sobre o porquê de uma imagem nem sempre deixar de ser verdadeira por ter sido construída. Afinal, fazemos isso o tempo todo, na internet e off-line, intencionalmente ou não.

Uma das maneiras de explicar isso é uma teoria da Sociologia chamada de “looking glass self”. Segundo ela, a nossa autoimagem é formada pela opinião que nós achamos que os outros têm de nós. Funciona em três etapas:
1) Nós imaginamos como aparentamos ser para os outros;
2) Imaginamos quais juízos são feitos a respeito dessa imagem;
3) Supomos como as pessoas se sentem a respeito desses juízos.
Nesse sentido, o que achamos de nós mesmas é influenciado por uma impressão que acreditamos que outra pessoa tem, e muitas vezes tentamos mudar nossos comportamentos baseados em como presumimos que somos percebidas. Por exemplo: se você foi bem na escola quando era mais nova e ouviu o tempo todo que era super inteligente de todo mundo ao seu redor, pode ser que tenha sérias crises de identidade quando for pra faculdade e não conseguir as notas mais altas da turma. Ou, se acredita que todo mundo te vê como a alternativa esquisita da sala, talvez ache que tenha que esconder pro mundo que a sua cantora preferida é a Anitta.

De uma maneira mais ou menos complementar, a análise comportamental, um campo teórico da psicologia, fala sobre reforçamento (ou reforço): certas atitudes que temos são recompensadas por aqueles ao nosso redor, e, assim, tendemos a repeti-las com essas pessoas. A razão pela qual você acaba falando mais palavrões com as migas do que com seus pais provavelmente também tem a ver com isso. Aposto que a bff não chamou sua atenção quando você falou palavrões pelas primeiras vezes durante a sua infância, então você não associou esse comportamento a uma resposta negativa dela. Também pode ser que esse reforço se dê pela retirada de um estímulo aversivo, ou seja, quando solucionamos um problema ao fazer com que a causa dele pare de existir ou de influenciar aquela situação. Se em uma briga você tende a ficar quieta para que a outra pessoa se acalme, você está tentando retirar o estímulo aversivo. Caso isso funcione, provavelmente terá essa mesma atitude em outras brigas. Relacionando essa ideia com a anterior, podemos falar que certos comportamentos são reforçados em determinados grupos, talvez pela imagem que imaginamos que tenham de nós, e ao interpretarmos isso acabamos selecionando traços específicos para enfatizar em certas situações.

Quando a gente transporta esses modelos teóricos pra vida real, ainda temos que considerar mais coisas que interferem em como agimos, como a hierarquia existente em algumas relações sociais e as regras dos espaços em que convivemos.  Você se comporta de maneiras diferentes na escola, em casa, no shopping, na igreja ou na praia, mesmo que esteja com as mesmas pessoas, porque cada um desses espaços lhe induz a agir de maneiras diferentes, através de regras explícitas (tipo não poder usar traje de banho no shopping) ou dos objetivos a que se destinam cada um desses lugares.  Da mesma forma, a hierarquia que existe em algumas instituições como a escola e a igreja, além de privilégios sociais, faz com que nos relacionemos de jeitos diferentes com pessoas que convivem no mesmo ambiente. Não podemos esquecer, ainda, do contexto cultural! A relação entre alunos e professores é diferente no Brasil e nos Estados Unidos, por exemplo.

Isso tudo diz respeito ao mundo off-line. Nele, as nossas reações são imediatas, a linguagem corporal fala bastante por nós, as nossas roupas também comunicam. Apesar de termos controle de muitos desses aspectos, ele não se compara ao que temos quando estamos falando da internet.  Afinal, não é à toa que nossos pais se preocupam tanto quando mencionamos algum amigo virtual: aqui, os elementos que escolhemos revelar ou esconder de nós são muito mais maleáveis e falsificáveis. A teoria do looking glass self faz ainda mais sentido quando somos capazes de editar e escolher quais selfies postar, ou quais textos compartilhar, e indicar na legenda a interpretação que queremos que as pessoas façam dessas informações. A dependência da opinião do outro para criarmos a nossa imagem ao mesmo tempo cresce, já que passa a ser quantificável em likes e visualizações, e diminui, pois temos ainda mais controle de como queremos ser vistos. É interessante notar que aqui também existem comportamentos variados de acordo com o ambiente, induzidos pelos próprios sites: vai me dizer que as fotos que você posta no Snapchat são as mesmas que as do Instagram ou do Tumblr? Que seus posts no Twitter são sobre os mesmos que os do Facebook (a pergunta não vale pra quem tem as contas conectadas!)?

É importante perceber que as expectativas (reais ou não) dos outros podem ser enganosas e que não devem servir de guia pra quem você é ou quer ser. Brincar com nossas diferentes facetas deve servir apenas para nos sentirmos confortáveis em todos os tipos de relações sociais. Ainda assim, esses processos de criação, sejam eles intencionais ou não, não tornam o resultado final menos verdadeiro. Responder a diferentes estímulos de diferentes maneiras não significa que sejamos menos nós mesmas. A vida em sociedade é um constante malabarismo em que tentamos equilibrar como queremos agir com como queremos ser vistas, e tudo bem com isso. Não quer dizer que a imagem que criamos de nós é mentirosa. Só quer dizer que somos humanas e capazes de nos adaptar.

(Obrigada, Carol e Má, pelos textos e pela ajuda! <3)

Beatriz Rodrigues
  • Colaboradora de Ciências
  • Colaboradora de Estilo
  • Colaboradora de Saúde

Bia Rodrigues ou só Bea tem 19 anos, é mineira, estudante de Farmácia e adora fatos inúteis. Se tivesse que comer só uma coisa pelo resto da vida, escolheria batata. Ainda não acredita que conheceu outras meninas da Capitolina. É 60% Corvinal e 40% Sonserina.

  • Cristina

    Estive pensando sobre isso essa semana. É estranho como, mesmo sem percebermos, mudamos nosso comportamento assim que passamos para outro círculo de relações. Isso é normal, todo mundo sabe, mas nem sempre a consciência se convence disso, daí vem aquele sentimento de que estamos sendo falsos. Bem chatinho isso. Sou exatamente assim.

    Seu texto é muito esclarecedor e com certeza vai me ajudar e ficar mais de boa em relação a isso. 🙂

  • Valentina

    Isso é realmente uma boa abordagem do tema. Bem diferente do que se costuma ler, pois vc não abomina as redes sociais na sua crítica. Claro que temos que tomar cuidado com a internet. Mas considerando o quanto ela está presente na nossa vida, não é absurdo que ela realmente nos afete! 🙂

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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