31 de outubro de 2017 | Ano 4, Edição #38 | Texto: | Ilustração: Juliana Adlyn
Crianças não são o que os adultos querem
Crianças não vivem uma experiência universal

O mês de outubro nos leva a pensar com ainda mais força temas urgentes relacionados ao bem-estar, liberdade e dignidade das crianças.

Em 2017, por exemplo, nesse momento de crescimento do conservadorismo no país, o foco na luta por direitos e qualidade de vida dos grupos infantis cedeu espaço para várias polêmicas. Da exposição que retratava “crianças viadas” ao caso do “pelado no museu”: aqui as crianças sacolejaram de um lado para o outro, sequestradas para validar argumentos de grupos que no geral as negligenciam. Nas batalhas online, fugiu de cena a construção de uma escola com censura, o desvio de verbas destinadas a merenda, o esmagamento da diversidade com o ensino religioso em sala de aula. A prostituição infantil, o trabalho entre crianças, o aumento da violência sexual doméstica e/ou o desmonte da educação pública são também questões que passam batidas ou pouco interessam nas redes.

Em um mundo adultocêntrico, centrado nos modos de conceber e organizar a vida social desde os adultos, existe uma tendência a pensar as crianças como seres inacabados, projetos em desenvolvimento. Como vir a ser, a criança acaba sendo negligenciada no que é em si, tendo suas falas atropeladas pelo discurso adulto. A clássica pergunta “O que você vai ser quando crescer?” nos conta tanto sobre isso! Mais do que uma mera questão sobre o futuro, demonstramos aqui nossas impressões sobre a criança: aquela que não é no presente, aquela que só será quando crescer (e produzir!).

Como uma espécie de vasinho que precisa ser preenchido – de conhecimento, moral, costumes –, as crianças são pensadas nesse movimento linear de evolução em que sua forma acabada está na fase adulta. Uma interpretação que violenta sua existência e subjetividades no presente. As crianças ainda são utilizadas como justificativas para fortalecer argumentos incoerentes, como os que pontuei lá no começo. Entre não conseguir falarem por si mesmas ou não serem ouvidas e ainda serem disputadas para validar falas adultas e seus respectivos interesses, as crianças caminham na busca por respeito, legitimidade e reconhecimento como sujeitos dotados de direitos, voz e ação.

Mas, afinal, o que é uma criança?

Em nossa sociedade, uma criança é como uma colcha de retalhos: uma costura de informações e significados ligadas a nossas próprias lembranças do passado, ao discurso médico que liga infância a um tempo de desenvolvimento do corpo, também estão costurados aí o discurso jurídico ligado à defesa dos direitos das crianças, mas que também assume uma postura criminalizante sob a lente do menor infrator. Somam-se ainda as falas vindas da pedagogia e da psicanálise.

A combinação variada desses retalhos e discursos vai gerando a leitura de várias infâncias possíveis, especialmente quando são bordados marcadores sociais – como gênero, raça, classe e etnia – nesse vasto tecido. Ser criança e viver a infância, neste sentido, vai variando conforme a combinação desses retalhos e bordados.

Geralmente, todos esses remendos são produzidos por mãos adultas, que por vezes se esquecem do sujeito central nessa peça toda: a própria criança! O que pensam elas sobre todas essas falas costuradas, vindas de um poder de fora, adulto? Como enxergam essa multidão de pessoas falando sobre elas? Se reconhecem em todos esses discursos e práticas?

Um caminho possível para pensar conhecimento sobre crianças e infâncias é aquele que as coloque no centro de elaboração de conhecimento sobre suas próprias existências, relações entre si e, claro, com os adultos. Então, mais do que investigar desde um olhar externo (do adulto) o que se passa dentro das crianças (nas suas mentes, corpos, organismos), é fundamental entender como é a vida entre elas a partir delas mesmas: suas demandas, relações, anseios, conflitos, modos de pensar e organizar a vida.

Participando ativamente sobre os conhecimentos e informações que elaboram sobre si, as crianças e também os adultos podem desenhar relações mais horizontais em que ambas as falas são válidas, em complemento mútuo. Uma possibilidade marcada pela escuta/diálogo/respeito/autonomia, em compromisso com as históricas lutas pela realização dos direitos da criança.

Por fim, crianças são sujeitos de suas próprias histórias e tem muito a nos contar sobre si e sobre suas muitas visões de mundo! Frisar essa postura poderosa das crianças está intimamente relacionada à forma como nós, adultos, nos colocamos no mundo, além de ser um movimento combativo frente às tentativas cruéis de converterem crianças em meros instrumentos para o conservadorismo.

Juliana Adlyn
    Juliana é ilustradora e graduanda em antropologia pela Universidade Federal da Integração Latino-Americana (UNILA). Divide seu tempo fazendo trabalhos manuais e apertando os gatos Tricot e Beleléu.

Sobre

A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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