18 de abril de 2015 | Sem categoria | Texto: | Ilustração: Clara Browne
A Culpa é dos Millennials

Não há como negar que Hannah Horvath é bastante irritante. A protagonista da série Girls, da HBO, é uma máquina de insatisfação. Por vezes, o que a atormenta é algum de seus inúmeros e bagunçados relacionamentos afetivo-sexuais, em que ela parece nunca estar absolutamente feliz – Adam não quer namoro, Hannah quer, Adam quer namoro, Hannah não quer, e o ciclo se repete indefinidamente. Por outras, é a vida profissional – ou a falta dela – o motivo dos choramingos. Há também os momentos de crise com o próprio processo criativo. E com a própria existência. E com tudo o que há ao redor. Deve ser realmente difícil ser Hannah, né?

Não é de se espantar que Hannah reúna um clube bem grande de odiadores. Afinal, ela é realmente odiável, não? Com tanta gente cheia de problemas de verdade por aí, onde já se viu alguém tão classe média sofrer tanto e por coisas tão pequenas?

Acontece que, com exceção daqueles que estão problematizando o contexto de raça e classe envolvidos na coisa toda, os anti-Hannah são só uma partezinha de um clube formado por membros que se dedicam a desprezar uma coisa bem mais ampla: a minha, a sua, a nossa geração. A geração Windows 95. A geração celular a preço acessível. A geração conhecimento de Wikipédia. A geração pegação via aplicativos. A geração casa dos pais até os quarenta. Enfim, a geração mais leite com pera de todas as gerações que já pisaram nesse mundão.

Pelo menos é o que dizem: que esse pessoal que nasceu ou cresceu na virada do milênio – daí millennial, o irritantíssimo estrangeirismo do título – não quer nada com o pesado, não está afim de se esforçar muito. Minha mãe sempre me conta sobre como começou a trabalhar aos catorze anos. Trabalho, trabalho mesmo, sabe? Meu pai também. Aos 21, minha idade atual, uma quantidade razoável dos meus tios já estava se casando e se preparando para começar uma família. Enquanto isso, aos 21 anos, eu e boa parte de todas as pessoas com quem convivo, estão dando uma de Hannah, com tudo girando, girando e girando na vida acadêmica, profissional, social e afetiva.

Logicamente, há de se levar em conta tudo o que tem de privilégio social envolvido – afinal, são pessoas com um nível de grana muito específico que podem se dar ao luxo de, por exemplo, segurar um estágio mal pago enquanto tentam decidir o que realmente querem da vida em vez de arrumar um emprego dito “de verdade”. Mas não tem como negar que o contexto geral mudou e que, ainda que em proporções diferentes pra cada camada social, o mundo ficou maior para todo mundo: apelando ao clichê, temos aí a internet e os celulares que encurtaram distâncias e permitiram que a gente tenha contato com informações, materiais e pessoas em um volume tão absurdo, coisa que nossos pais, em seus tempos de namoro de vizinhança e pesquisa escolar em enciclopédia Barsa, jamais sonhariam.

Assim, não deveria surpreender ninguém que, com uma quantidade tão imensa de coisas sendo jogadas diretamente nas nossas cabeças, a gente fique perdidinho. É muita coisa. É muito espaço. É muito lugar para ir, assuntos para aprender e discutir, gente para conhecer e, principalmente, muita coisa para consumir. São tantas opções, e, muitas vezes, cada escolha pesa muito mais pela parte de ter que deixar de lado todas as outras possibilidades do que pelo fato de que “ei, você tomou uma decisão!”. Tem tanta coisa acontecendo por todos os lados que a gente só gostaria de poder se dividir para viver tudo e arrumar uma maneira de abraçar o mundo.

O que nos resta é a fama de prepotentes e mimados. E muitas vezes não dá para se defender mesmo. Mas esse mundo mágico sem fronteiras que nos vendem por aí faz com que a gente cresça achando que nada é impossível e que somos seres únicos e especiais predestinados a deixar nossa marca na história, só basta seguir uma certa fórmula direitinho. Aí, você imagina só a frustração de quando a gente descobre que estamos mais para um numerozinho no meio de vários outros numerozinhos, que a fórmula não funciona e que realizar algum super-mega-ultra feito é bem mais difícil que parece. E, ao mesmo tempo, se dá conta de que quer voltar para o colo da mãe, que não existe segurança nenhuma, que o chão é de fogo e vai engolir todo mundo e que nunca vai rolar ter uma casa própria porque a especulação imobiliária tornou impossível comprar qualquer quarto e sala sem ser milionário. Basicamente, a vida faz um negócio um pouco malvado de dar de uma vez só todos os tapas na cara que não recebemos na infância.

E dá para ir além na defesa dos incompreendidos millennials se a gente parar para ver que, bem, os nossos haters, em grande parte, também não estão fazendo lá a crítica certa. No geral, é uma galera que, como alguém disse de forma muito boa, perdeu o bonde do zeitgeist. Essa palavra germânica meio assustadora – como todas as outras palavras germânicas – quer dizer, em tradução direta, “espírito do tempo”, ou seja, aquele conjunto de cultura, costumes e acontecimentos que orientam determinado período histórico. Então, basicamente, os membros do clube “vocês, nascidos depois de 1990, são ridículos” não conseguem largar o hábito de só ver o mundo com o filtro da própria geração.

É por isso que eles amam encher a boca para falar sobre como as relações afetivas se banalizaram – “o Tinder matou o amor!”, eles bradam – enquanto convenientemente ignoram que, olha que legal, a gente não tem mais a mesma pressão social que nossos avós para ficar pra sempre no mesmo relacionamento, mesmo que ele seja horrível. Também é o motivo pelo qual eles não entendem que, se o que está na internet é informação questionável, o que está nos livros também é, afinal, tudo deveria ser passível de questionamento. E que compartilhar mil coisas nas redes sociais não é mero desejo por confete, mas uma forma de se expressar e de se conectar a outras pessoas.

No fim, a gente pode até ser bem irresponsável, “classe média sofre”, bunda mole e reclamão, mas a crítica precisa ir além dessa história mais velha que andar para frente (eu amo essa expressão, perdão, gente!) de “minha geração é melhor que a sua geração”. E, vendo bem, a gente percebe que a Hannah nem é uma pessoa tão horrível assim. Ela só é meio chatinha. E tem um pouquinho – ou muito – de Hannah em todos nós nascidos ao longo desse belo período regido por É O Tchan até Fall Out Boy.

(Pensando bem, é um motivo bem millennial-ególatra-tirador-de-selfie-em-série resolver que uma personagem é gostável só porque a gente se parece, né?)

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

  • cecilia_moronari

    <3

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