15 de março de 2015 | Estilo | Texto: | Ilustração: Laura Viana
Curadoria de guarda-roupa com Sofia Coppola

Foi vendo “Encontros e Desencontros” que me encontrei com Sofia Coppola pela primeira vez. Logo de cara, porém, nosso santo não bateu: achei tudo muito lento, muito sem razão e muito chato. Acontece que, naquela época, eu tinha uns onze anos e, não tendo sido nenhuma criança-gênio, já era de se esperar que um filme quase sem personagens nem falas, com uma câmera semi-morta de tão parada, não fosse exatamente a minha ideia de diversão.

Uns poucos anos se passaram e uma segunda assistida meio desconfiada fez com que Sofia e sua obra acabassem sendo para mim algo tipo aquela melhor amiga que você odiava no começo, mas num belo dia se dá conta de que, ai meu deus, ela é incrível!, sabe? Revi “Encontros”, me apaixonei perdidamente e, em uma só tacada, aproveitei para devorar também os outros dois que já haviam sido lançados por aquele tempo, “As Virgens Suicidas” e “Maria Antonieta”.

Desde então, temos sido ótimas amigas. Amo suas personagens, que, coisa rara no cinema mainstream, são em grande parte mulheres, e aparentemente nada têm de muito incrível: são apenas meio solitárias e meio entediadas. E quem é que nunca se sentiu meio solitária e meio entendiada, sem nada de muito incrível? A magia da narrativa de Sofia está justamente aí: em seus filmes, ninguém é super. Até a rainha Maria Antonieta é meio sem-graça, mas, ainda assim, você quer assisti-la sendo sem-graça.

Além disso toda a produção coppolística conta com uma direção de arte – fotografia, cores, cenários – completamente impecável. E não tinha como ser diferente com o figurino, principalmente levando-se em conta que a própria Sofia é alguém de quem a gente adoraria pegar umas peças de roupa emprestadas – não à toa, essa maravilhosa já foi até garota propaganda do amiguinho Marc Jacobs, além de ter sido estagiária da Chanel aos 15 (AOS QUINZE) anos e responsável pelo comercial fofurinha do perfume Miss Dior Cherie.

Então, como, domingo é dia de Moda & Beleza, bebê, aqui na Capitô, a gente encerra a semana com esse breve review do que as meninas criadas por Sofia já andaram usando, que provavelmente complementará tanto sua listinha de “o que vestir” quanto a de “o que assistir”:

 

As Virgens Suicidas, 1999

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Longa de estreia de Sofia, conta, na voz de um dos rapazes da vizinhança, a história das cinco irmãs Lisbon. É o meu preferido em termos de figurino: tudo tem um ar meio angelical, etéreo, e a referência geral é a década de 1970, com vestidos longos levinhos, tons pastel e muita estampa florida, além dos uniformes colegiais com um ar meio desleixado.

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O vestido de baile de Lux Lisbon, na foto acima, é provavelmente uma das peças mais bonitas que já vi em algum filme, mesmo sendo tão simples.

Encontros e Desencontros, 2003

São poucas as trocas de roupa, mas três peças marcaram minha experiência com o filme e sua personagem principal, Charlotte: a calcinha cor-de-rosa meio grandona e meio transparente da cena de abertura, a peruca rosa do karaokê e o guarda-chuva transparente (que orientou todas as minhas escolhas de guarda-chuva desde então, por mais bobo que seja).

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O longa tem Tóquio, com suas milhares de referências visuais pulsantes, como cenário, o que faz com que sua influência visual de estilo não se restrinja às peças de roupa, mas aborde também todas aquelas cores e designs.

(Além disso, o filme, que antes despertara meu desprezo, é incrível por duas outras coisas: 1. Bill Murray e 2. a fofoquinha hollywoodiana que faz com que se possa criar uma correspondência entre ele e “Her”, de Spike Jonze: no período em que “Encontros e Desencontros” foi lançado, Sofia e Spike estavam se divorciando, e o filme é considerado uma espécie de desabafo sobre o distanciamento na relação entre os dois. Quase dez anos depois, Jonze fez “Her”, em que o personagem principal está, entre outras coisas, digerindo o próprio processo de divórcio. E o mais legal disso tudo é que Scarlett Johanson atua nos dois filmes, ou seja, ficou bem no meio da lavação de roupa suja).

Maria Antonieta, 2006

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Esse é, certamente, a unanimidade quando se trata de direção de arte na obra de Sofia – inclusive, foi o terceiro Oscar de Milena Canonero como figurinista (o quarto veio este ano, com Hotel Budapeste). Os tons com carinha de sonho do primeiro filme voltam com tudo na adaptação da história da rainha francesa, mas dessa vez tudo se torna muito mais complexo com as inúmeras perucas, sapatos e vestidos de baile hiper-adornados.

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Um dos pontos mais icônicos no filme são os tênis All Star lilás que aparecem num cantinho do quarto, casando muito bem com a Maria Antonieta meio adolescente, meio rock star que Coppola cria.

Somewhere, 2010

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É o mais sem graça, em todos os aspectos (peço perdão ao princípio de imparcialidade jornalística), então só vale citá-lo pelo normcore mirim descoladíssimo de Cleo, interpretada pela igualmente descolada Elle Fanning, que lembra uma versão um pouquinho mais grunge das meninas Lisbon lá do começo.

Bling Ring,  2013

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Inspirado na história real de um grupo de adolescentes de Los Angeles que, obcecados pela cultura de celebridades do lugar, formam uma gangue para invadir as casas de famosos – Paris Hilton, uma das vítimas reais, inclusive faz uma pontinha no filme – e roubar roupas e acessórios. O estilo então já se torna bem diferente dos filmes anteriores, que tinham uma coisa mais normalzona descolada, e passa a ser um negócio completamente glamour Vogue.

Agora, nos resta aguardar o próximo longa de Sofia, que promete ser a melhor combinação do mundo: o remake de “A Pequena Sereia” está em começo de produção e ainda não tem data para estrear, mas já tem meu coração. Mal me aguento de ansiedade.

Laura Viana
  • Colaboradora de Estilo
  • Ilustradora
  • Audiovisual

Aos 21 anos, todos vividos na cidade de São Paulo, Laura está, de forma totalmente acidental, chegando ao fim da faculdade de Artes Visuais. Sua vida costuma seguir como uma série de acontecimentos pouco planejados, um pouco porque é assim com a maior parte das vidas, muito por gostar daquela conhecida fala da literatura brasileira, “Ai, que preguiça!”. Gosta também de fotos do José Serra levando susto, mapas, doces muito doces e de momentos "caramba, nunca tinha pensado nisso!". Escreve sobre #modas por aqui, mas jura por todas as deusas que nunca usará expressões como "trendy", "bapho" e "tem-que-ter".

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A Capitolina é uma revista online independente para garotas adolescentes. Nossa intenção é representar todas as jovens, especialmente as que se sentem excluídas pelos moldes tradicionais da adolescência, mostrando que elas têm espaço para crescerem da forma que são.

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